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Em questão está a dobragem portuguesa do filme Soul realizada por atores brancos, nomeadamente, Jorge Mourato, que dá voz ao protagonista negro. A polémica revirou as redes e debate-se o racismo estrutural em Portugal. A internet é perfeita a polarizar, caramba, se o Twitter não é a prova disto mesmo: de um lado aqueles presos ao argumento bacoco de que, se Portugal foi dos primeiros a abolir a escravatura no século XVIII, então hoje, certamente, ainda será um farol em direitos humanos. Na outra trincheira estão aqueles que impõem limites à liberdade de expressão, mais precisamente quando um ator desempenha um papel que não lhe compete.

Nenhum dos lados me agrada. Vou por partes.

1 O racismo é alimentado por um círculo vicioso de políticas que fomentam desigualdades de oportunidades e que conduzem sempre os mais frágeis à pobreza. O facto de serem sempre os mesmo a sucumbirem quando há crises, não ajuda o combate ao racismo e a pandemia ajudou-nos a perceber isso mesmo. O desemprego atual está a atacar desproporcionalmente os empregos manuais, onde há uma presença forte das minorias, logo, é fácil entrar no raciocínio: são sempre os mesmos no desemprego, logo não querem trabalhar. Quando se junta a isso um elevador social muito avariado em Portugal, condenam-se minorias à miséria durante muitas gerações. O negacionismo cura-se com factos e só assim ficamos desassossegados perante uma realidade destas. Percebo que o sistema que temos perpetua o racismo, logo, só poderia ser antirracista.

No entanto, sob risco de não me integrar em nenhuma trincheira das redes, poderei eu considerar que não faz sentido realizar uma nova dobragem do filme, mesmo sendo antirracista? Parece haver uma escolha bastante evidente em que, ora se é antirracista, ora se acha que a Disney Portugal não deveria fazer uma nova dobragem. Não se pode querer os dois, nem a internet tolera tal equilíbrio. O protesto cresceu e vozes ilustres formalizaram uma petição a favor de uma nova dobragem, que, até ao momento, conta com mais de 15 mil signatários, entre eles, Mamadou Ba, Dino D´Santiago e Sara Tavares. Aliás, o próprio Jorge Mourato, numa entrevista concedida a Rui Unas, defendeu que a sua dobragem deveria ter sido realizada, preferencialmente, por um ator negro.

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2 Não assinarei a petição por uma questão de liberdade de expressão fundamental na arte.

O mundo parou com o final morno de A Guerra dos Tronos. Ver um filme/série é estar despido, vulnerável à desilusão de más escolhas de casting ou de argumentos, apanhar erros de gravação e, no fim, fazer contas às horas perdidas. Para muitos, a desilusão foi a escolha do ator para a dobragem, porém, alterar a obra do criador para confirmar a nossa “bolha” de visões pessoais sobre o mundo e aquilo que o filme deveria ter sido, é pura censura. Em moldes idênticos, Diferente dos Outros foi a primeira estreia dos grandes ecrãs a incluir um beijo homossexual, estávamos na Alemanha de 1919, e fez muitos espumarem. A sentença que a história se repete poderá até ajudar os signatários de 2021, já que a exasperação, em 1919, obrigou a Alemanha a adotar leis de censura para o cinema.

Crivos da censura na dobragem do cinema em Portugal não é uma realidade. Porém, a vontade de mudar aquilo que não suportamos é mais atual e um produto da cultura woke, onde há um constante patrulhamento sobre as palavras dos outros e uma fixação burlesca em procurar segundos sentidos perversos nas palavras. Por exemplo, a colagem da palavra “antirracista” a “políticas de identidade”: se és um verdadeiro antirracista, então não toleras a dobragem do filme Soul. A colagem é abusiva, mas há medo em condená-la, já que a cultura woke torna-a impermeável ao pensamento crítico. Na mesma entrevista, notou-se um certo dever de Rui Unas em afirmar ser, e cito, “um racista em desconstrução”, que é, fundamentalmente, uma salvaguarda do próprio numa sociedade vigilante obcecada em atribuir segundos sentidos. Por outras palavras, assumir-se “racista em desconstrução” é ter a preocupação em confessar que é impossível estar no espaço público sem ofender nenhum justiceiro social.

Gradualmente, se todos ficarmos reféns da cultura woke, o cinema passará a ser apenas um agente político antirracista, feminista ou pro-LGBT, onde, através de quotas de política de identidade, deixar-se-á de contar histórias que não obedeçam a esta agenda, pelo medo da censura popular. É um esforço para não me relembrar, mas tudo isto é muito idêntico a Diferente dos Outros de 1919.

Sou antirracista e quero um filme com todos os erros que a liberdade permite.