Todos conhecemos a história da borboleta que bate as asas na Amazónia e provoca uma tempestade na América. Trump bateu as asas na América, e agora muita gente espera uma tempestade na Europa. O medo é que Trump anime os “populismos” europeus, mostre a Marine Le Pen o que deve fazer, ou leve a Alternativa para a Alemanha a tentar o impossível.

Desculpem, mas esse não me parece o risco maior. Trump não foi simplesmente eleito pelos descontentes da globalização. Ao contrário do que o próprio disse, o seu triunfo não é a mesma coisa que o Brexit. Trump foi o candidato do Partido Republicano, e portanto a opção de todos aqueles que, por variadas razões, quiseram negar mais quatro anos de poder ao Partido Democrata, e não apenas daqueles que contestam a imigração mexicana. O sistema americano de governo dividido vai obrigá-lo a governar, se quiser governar, com o “establishment” republicano. Muito provavelmente, os principais filhotes de Trump na Europa não serão a Frente Nacional, mas os “candidatos anti-sistema” dos partidos oficiais, a começar em França, onde Sarkozy e os seus rivais devem andar a pintar o cabelo de cor de laranja. Por cá, notei que Rui Rio já é descrito como um “político anti-sistema”. Vamos ver mais disto, à direita e à esquerda.

Quanto às lágrimas derramadas sobre a NATO e a globalização, peço também desculpa, mas parecem-me tardias. Trump é, a esse respeito, mais uma consequência do que uma causa. Já aqui o lembrei: o primeiro presidente tentado pelo isolacionismo no século XXI foi George Bush. Bin Laden desviou-o, mas mesmo assim Bush ainda teve tempo, em 2008, para entregar a Georgia a Putin. Barack Obama, pelo seu lado, deu-lhe metade da Ucrânia e a Síria. Pergunto-me em que é que, nesses casos, Trump teria sido pior do que os seus antecessores? Os EUA não se sentem em condições de continuar a fazer de polícias do mundo, e isso não começou com Trump. Também quanto à crise da globalização, Trump não é o primeiro capítulo, mas um dos últimos. Aquela fase de crescimento intenso do comércio internacional e das migrações que definiu a viragem do século chegou ao fim há já uns anos.

Trump assusta muito as esquerdas. Provou que o politicamente correcto, em eleições, é um tigre de papel, que só faz mal a quem dele tem medo. Pior: Trump roubou às esquerdas várias bandeiras, como o repúdio das intervenções externas americanas e a crítica das consolidações orçamentais. O papa da anti-austeridade, Paul Krugman, já admitiu que Trump vai fazer as “coisas certas” (embora “pelas razões erradas”). Se eu tiver de selecionar um aspecto da vitória de Trump que pode ter real impacto na Europa e em Portugal, é o modo como as suas políticas configuram um regresso da inflação e do dinheiro caro. É o que os mercados de capitais estão a prever – e os mercados, na madrugada de 9 de Novembro, foram os primeiros a reconhecer o triunfo de Trump, antes de todos os comentadores.

Os estímulos fiscais e as obras públicas prometidas por Trump deviam talvez inquietar-nos mais do que aquele “regresso do fascismo” que a esquerda portuguesa anuncia sempre que alguém que não é de esquerda ganha uma eleição. É que o fim da austeridade na América pode significar o agravamento da austeridade em Portugal. O dinheiro já está a encarecer nos mercados. Se isso se confirmar, estarão comprometidas as “devoluções de rendimento” e as “integrações no quadro” previstas num país como Portugal, onde tudo depende de juros baixos. O que Trump prenuncia é um mundo em que os Estados vão ter de reforçar a sua autonomia financeira e militar. A má notícia é que Portugal, deficitário e estagnado, não está preparado para esse mundo.