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Europa

Uma história dos “brancos”: Contributo para a etiologia da “política de identidades”

Autor
  • Guilherme Valente

É a ameaça de uma sociedade comunitarista, fragmentada, tribalizada e regressiva que se configura. Anti-humanista e anti-universalista, contra o melhor do espírito europeu. E contra uma Europa unida.

Para os Mandela de todos os tempos, latitudes e cores de pele.

Há quanto tempo é o leitor “branco”? Os “brancos” nem sempre foram “brancos”! O branco que é visto em mim, que é visto em “nós” não foi sempre “branco”. Na verdade, nós os europeus, continuamos a não ser tão “brancos” assim…

A história dos negros é conhecida. Por ser dramática e um desafio que a realidade continua a colocar à consciência dos homens de boa vontade e à responsabilidade e  iniciativa  dos líderes políticos e dos governos, desde logo  dos Africanos. Mas também lamentavelmente, hoje como no passado, por a visão do  negros devolver a muitos  uma imagem especular iludida de si próprios, compensadora de sentimentos e complexos deploráveis, alvos para a projecção de ódios e pulsões abomináveis. A história dos brancos é desconhecida ou ignorada porventura pela razão inversa, por alimentar a ideia, bem redutora, aliás, de ser uma história de sucessos.

É essa história que a investigadora afro-americana Neil Irvin Painter narra no livro Histoire des Blancs (Paris Max Milo, 2019)  revelando onde e como surgiu e se impôs da Antiguidade aos nossos dias a construção social da categoria “branco” e a de “supremacia” do homem branco. Construções sociais, não verdades ontológicas, portanto.

Numa crónica recente, Pascal Brukner divulga e respiga essa obra agora editada em França (Le Point, 6/6/19).

Durante séculos os brancos… não foram brancos. Tal como os negros, “fomos” também vendidos como escravos, designadamente por negreiros árabes e africanos. “Escravo” vem do latim slavus, “eslavo”. Os Vikings no Norte da Europa e os Árabes e Berbéres faziam razias de milhares de cativos em África e na Europa, sobretudo na de Leste. Em África devastaram impérios florescentes. Sete séculos antes do tráfico atlântico Dublin e Veneza foram grandes mercados negreiros “onde homens, mulheres e crianças, transformadas em objectos eram vendidos” (Tidiane N´Diaye, O Genocídio Ocultado, o Tráfico Negreiro Árabo-Muçulmano, Gradiva, 2019).

Até finais do século XVIII esse tráfico de Negros e de Brancos existiu paralelamente – todos eram “negros”, pois – até que o de Negros prevalece. Não por uma estranha generosidade dos negreiros árabes e africanos, claro, mas por conhecidas razões históricas, expansão ultramarina e  avanços tecnológicos, mas sempre em associação com os caçadores de homens árabes e africanos, pois era difícil para os Europeus penetrar no interior do continente africano. Não tinham meios humanos e eram vulneráveis às doenças. E o tráfico negro-muçulmano, exposto ou ocultado, continua a processar-se, aliás, hoje ainda mais cruel e ignominiosamente. No Médio-Oriente e na África muçulmana.

E o mito da Germânia, forjado por Tácito, começa então a impôr-se, distinguindo o branco puro e delicado dos “verdadeiros” Alemães, do “branco sujo” dos não-Alemães. Delicado? Interrogo-me eu com o humano preconceito que não consegui deixar de ter, nazismo oblige.

Sábios, antropólogos e linguistas (que os houve e há de toda a espécie) empenham-se então em isolar um tipo ideal, procurando uma raça isenta de misturas (!). A propósito: Zeus foi raptar Europa à Fenícia e gerou Minos…

E — voilà! — “é a América que vai ser o terreno desse novo jogo epistemológico”. Para o novo nacionalismo yankee, o homem branco é o Americano, isto é, o anglo-saxónico protestante, descendente dos peregrinos do Mayflower. Excluía os negros e escravos do Sul, e quem mais? “Nós”, os Europeus!

Nessa definição acabada de forjar não entrava nenhum emigrante oriundo da Europa: irlandeses, italianos, franceses, russos, eslavos, portugueses, etc.. Nem judeus, claro. Só os anglo-saxónicos… protestantes. Não as hordas sujas e esfaimadas chegadas da Europa. Os Celtas da Irlanda eram colocados no mesmo plano que os Negros, com a circunstância agravante de serem católicos. E Thomas Carlyle (1795-1881), escritor britânico fascinado pela “nova luz vinda da Alemanha”, compara-os a “chimpanzés”. E via os Franceses como “uma população de macacos”. Seria também por isso que De Gaulle não gostava dos EUA, ocorre-me agora.

Em todos os teóricos da superioridade racial dos anglo-saxões protestantes verifica-se uma “teutomania” devastadora, refere Bruckner:  é do Norte que virá a salvação, e a raça branca — repare-se como foi construída — está dividida por ordem decrescente em nórdicos, alpinos e, mais abastardados, os mediterrânicos. O ariano, a bela bruta loira fascina como um tipo humano em vias de desaparecimento. Bela? Outra vez o meu preconceito, que me perdoem as belas e delicadas  “brutas loiras” que entre eles haja.

Contrariamente ao que geralmente se supõe, a eugenia não é uma invenção alemã. É inglesa e é dos Estados Unidos que Hitler, o monstro, e o esoterismo nazi vão importar o eugenismo. Embora em 1942, durante a guerra fosse usado como propaganda contra o regime nazi. Mas só após os horrores do holocausto os termos caíram completamente em desuso. Os seus pressupostos foram varridos pela História, a estatística e a Ciência.

A infinidade irradiante de combinações e cruzamentos torna aquela taxonomia absurda. Com a descoberta no Riff de Lucy in the sky with diamonds  verificava-se mesmo que a Eva era afinal africana!  Lucy, assim chamou a esse esqueleto de mulher a equipa de Yves Copains que a descobriu,  por  essa música dos Beatles então em voga ser muito ouvida no acampamento.

“O alargamento da “brancura” aos emigrantes irlandeses foi longa e dolorosa e custou o preço do rebaixamento dos Italianos, dos Judeus e dos Eslavos”. Com os Negros sempre no fundo da escala, desprezados, humilhados, apesar da Guerra da Secessão e da sua conquistada emancipação. “Os mineiros eslavos eram linchados como o eram os Sioux, os Chineses e os Judeus, estes últimos acusados de conspirarem com os Negros para destruir o “Sonho Americano”. Sonho não, neste registo pesadelo. (Estados Unidos de muitas admiráveis realizações, registe-se.)

E será nesse terreno fértil  “de escravatura e segregação, de apartheids legislativos” que germinam e rebentam as “políticas de identidade” que hoje dominam a  sociedade americana levando ao poder os populismos, antecâmara dos fascismos.

Delírio que também a nossa extrema esquerda quer importar para Portugal, contra-natura e contra-cultura. Numa aliança com o racismo negro e em França com a infecção islamista. Com o objectivo, dizem  de enfrentar a discriminação (?!).

“O racialismo americano, inspirado por tantos lobbys identitários, à direita e à esquerda”, nota Bruckner, parece agora ameaçar o nosso universalismo republicano, as nossas sociedades de cidadãos, integradas por indivíduos,  sem distinção de cor de pele, etnia e religião.

É a ameaça de uma sociedade comunitarista, fragmentada, tribalizada  e regressiva que se configura. Anti-humanista e anti-universalista, contra o melhor do espírito europeu. Contra uma Europa unida, espinha atravessada na garganta do nacionalismo e dos totalitarismos.

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