Logo Observador
Jihadismo

“A guerra contra o terror é uma falácia”

221

Daniel Estulin, um ex-espião da FSB russa, escreveu um livro no qual defende, com base em "mais de 70 mil documentos", que os EUA e o Reino Unido financiam grupos jihadistas e terroristas.

BULENT KILIC/AFP/GettyImages

O título, o que o autor pretendia, era “Em Nome de Alá”, mas a editora achou melhor alterá-lo para “Fora de Controlo”, na tradução literal do título espanhol. O conteúdo ficou o mesmo e nele se incluem frases, muitas, que colocam em causa os EUA, o seu presidente, e outros quantos líderes mundiais que dizem estar na frente da luta contra o terrorismo e jihadismo no mundo — “O Estado Islâmico [ou Daesh, como hoje se prefere auto-denominar] é um agente da NATO” ou “Obama usa a Al-Qaeda para derrubar governos independentes e usá-los contra países como a Rússia, a China ou o Irão”, são exemplos.

O livro em causa é da autoria de Daniel Estulin, um ex-espião da FSB (agência dos serviços secretos russos, que sucedeu ao KGB) virado escritor, nascido em Vilnius, quando a Lituânia ainda integrava a União Soviética. As muitas insinuações e desmentidos que incluiu no livro são suportados por “mais de 70 mil documentos” a que teve acesso, durante a investigação que serviu de base à obra.

Como os obteve? De pessoas como Edward Snowden, ex-membro da CIA que, em 2013, divulgou informação confidencial da NSA (National Security Agency), agência norte-americana que vigiava e-mails, telemóveis, contas e atividade na internet em vários países estrangeiros. Ou Bradley Birkenfeld, um analista, ex-funcionário do UBS, banco americano em que descobriu “19 mil contas secretas que acumulavam 54 mil milhões de dólares [cerca de 49 mil milhões de euros] — partilhadas, escreve o ABC, que entrevistou Estulin, pelos EUA, o Reino Unido, a Arábia Saudita “e os terroristas”.

Porque, neste livro, o autor defende que os governos norte-americano e britânico, em “conivência com os países árabes ricos em petróleo, liderados pela Arábia Saudita, criara um exército do Califado com os jihadistas que saíram” da guerra da Síria. “Algo que os jihadistas nunca teriam conseguido sozinhos”, resumiu, ao diário espanhol. Para o comprovar, parte dos 70 mil documentos a que alegadamente teve acesso fazem parte do livro, embora muitos tenham ficado de fora, excluídos pela editora, para evitar eventuais processos em tribunal. “Passei um dossiê de cem páginas de dados à editora”, garante Daniel Estulin.

O autor, aliás, chega a argumentar que Al Bagdadi, alegado líder do Estado Islâmico, não existe. “Nunca alguém o encontrou porque ele não existe. Era preciso dar uma cara ao inimigo”, defende, alegando que vários generais do exército dos EUA o admitiram. Estulin defende que tudo não passa de uma fachada, como diz ter sido o roubo que o Estado Islâmico executou no Banco Central de Mosul, em janeiro. “Que banco tem na sua caixa forte mais de 400 milhões de dólares? Foi uma maneira de justificarem a origem de todo o dinheiro que recebem”, alega o antigo espião. Dinheiro que, garante, recebem dos EUA e do Reino Unido, as duas nações mais ativas na luta contra o terrorismo.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Jihadismo

O terrorismo não é só nosso

Diana Soller

Se estamos preparados para aceitar que o terrorismo é um fenómeno global no que toca aos atacantes, estamos menos preparados para ver o terrorismo como um fenómeno global no que respeita às vítimas.

Cristianismo

O cristianismo arrancado pelas raízes

Rui Ramos
1.152

As elites europeias, com o seu desinteresse pelo destino da cristandade oriental, admitem que o multiculturalismo está condenado no Médio Oriente. Porque pensam então que terá futuro na Europa?