Igualdade de Género

Economistas anónimos contra o politicamente correcto

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Os resultados que este estudo nos apresenta são, sem dúvida, muito interessantes e ajudam-nos a perceber melhor como o campo de jogo, muitas vezes, está minado contra as mulheres.

Na semana passada, Justin Wolfer, no New York Times, chamou a atenção para um trabalho, acabadinho de sair, que quantifica o sexismo e a misoginia presentes em conversas na academia. O trabalho é uma tese de uma estudante, Alice Wu, prestes a iniciar o doutoramento em Harvard.

Alice Wu, orientada por David Card, analisou mais de um milhão de entradas publicadas num website chamado “Economics Job Market Rumors”. Este website começou por ser um sítio onde estudantes de doutoramento de Economia faziam de alcoviteiros, lançando e discutindo boatos sobre contratações que as universidades iam fazendo. Hoje em dia, quer professores quer, principalmente, estudantes de doutoramento comentam lá com bastante frequência. Sempre que eu quero perceber por que raio alguém saiu de uma determinada universidade é a este website que recorro.

Este site tem uma característica que permite que as pessoas falem completamente à vontade: os autores dos comentários são desconhecidos. Ou seja, os perfis são anónimos. Depois de recolher a sua amostra, mais de um milhão de entradas, Alice Wu tentou perceber se os comentários se referiam a homens ou mulheres (por exemplo, se se escreve “ele” ou “ela”, ou “homem” ou “mulher”) e, de seguida, contou quais as palavras mais usadas. Obviamente, fez este trabalho recorrendo a software de análise de texto.

Os resultados a que Wu chegou não surpreenderão ninguém, mas não deixa de ser interessante ver estes enviesamentos quantificados. Em média, entradas sobre mulheres referiam-se menos a aspectos profissionais (cerca de metade do que o observado nas suas contrapartes masculinas) e muito mais sobre aspectos físicos ou pessoais (três vezes mais do que em posts sobre homens).

Por exemplo, as palavras que mais indiciam que o tópico do post é uma gaja são: hotter, lesbian, bb (=baby), sexism, tits, anal, marrying, feminazi, slut, hot, vagina, boobs, pregancy, etc., etc., até prostitute. Já para os gajos, as palavras mais comuns são: juicy, keys, adviser, bully, prepare, fought, warton, austrian, fieckers, homo, genes, mathematician, advisor, etc. Penso que não será necessário traduzir as palavras para que se perceba a diferença de tratamento num caso e noutro.

O parágrafo anterior refere-se a todas as conversas que envolvam homens ou mulheres. Mas Alice Wu foi mais longe e quis saber qual era o tratamento que os posts davam a economistas altamente reputados. Para tal, recorreu a um ranking com os melhores economistas inscritos no RePEc (Research Papers in Economics). Seleccionou os 5% melhores (o que exclui este vosso escriba da análise, que se queda pelo top-8%, mas inclui Rosa Portela Forte e Aurora Teixeira, ambas da Universidade do Porto) e assinalou as mulheres lá representadas. Em 2422, 190 são mulheres. Para poder comparar homens e mulheres mantendo a amostra equilibrada, seleccionou 190 homens (que estivessem um lugar acima ou um lugar abaixo de cada uma das identificadas) e depois comparou a atenção que eles e elas recebiam. Repare-se que, pela construção da amostra, os homens e as mulheres nela incluídos têm impactos semelhantes na profissão. No entanto, o impacto que têm nos posts é diferente, recebendo as mulheres mais atenção do que os homens. A autora não retira grandes conclusões deste resultado, limitando-se a observar que é um resultado esperado, este de as minorias receberem mais atenção.

Os resultados que este estudo nos apresenta são, sem dúvida, muito interessantes e ajudam-nos a perceber melhor como o campo de jogo, muitas vezes, está minado contra as mulheres. Mostra também como o anonimato nos permite ser javardos com mais facilidade (ou politicamente incorrectos, como muitos gostam de dizer).

Mas, e é igualmente importante dizê-lo, o trabalho tem também importantes limitações, que não vi referidas, nem na tese, nem nos vários artigos que sobre ele li na imprensa (como o referido artigo de Justin Wolfers no New York Times). A principal limitação é o anonimato dos autores dos posts no website. Como os autores são anónimos, não se pode pôr de parte que a grande maioria dos mesmos sejam homens e, naturalmente, na sua maioria heterossexuais. Ou seja, não se pode pôr de parte a hipótese de que os resultados se revertessem se fossem mais mulheres a comentar. Portanto, a principal virtude do estudo — o anonimato dos autores dos posts, que permite que falem à vontade — é também a sua principal limitação.

Post Scriptum. No meu último texto, recorrendo a um artigo de Paulo Tunhas, perguntei se quem exigia que os muçulmanos se demarcassem dos atentados terroristas do Daesh (de que Barcelona é o lamentável mais recente exemplo) também se ia demarcar do atentado ocorrido em Charlottesville. Pela sua reacção, parece-me que Tunhas ficou um pouco ofendido. Como não aprofundou a resposta, apenas posso especular sobre o motivo, pelo que posso estar errado na conclusão que vou extrair a seguir. Paulo Tunhas considerou absurda a minha sugestão porque, como considera que só um estúpido pode pensar que ele é adepto da supremacia da raça branca, não tem nada que se demarcar daquilo que é feito em nome dessa supremacia. Estou totalmente de acordo: Paulo Tunhas tem toda a razão na sua indignação. E agora já sabe como muitos muçulmanos se sentem quando se lhes exige demarcarem-se dos atentados terroristas. Aliás, a indignação da generalidade dos muçulmanos deve ser ainda maior dado que, como toda a gente sabe, a maioria das vítimas dos ataques reivindicados pelo Daesh é muçulmana.

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