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Cristianismo

Francisco e Kirill: o encontro quase impensável

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O primeiro encontro em quase mil anos entre o chefe da Igreja Católica (o Papa Francisco) e o líder dos ortodoxos russos (o Patriarca Kirill) é de extrema importância num período como o que vivemos.

Tudo pode parecer estranho e inesperado: o acontecimento em si, o lugar e circunstâncias em que irá ocorrer, e por aí adiante, mas é mesmo verdade. O Papa Francisco, chefe da Igreja Católica Romana, e Kirill I, Patriarca Ortodoxo de Moscovo e de Toda a Rússia, vão encontrar-se a 12 de Fevereiro no Aeroporto de Havana.

Trata-se verdadeiramente de um encontro histórico, pois será o primeiro a ocorrer entre os chefes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Russa na história das duas igrejas que se consideram “irmãs”, mas que estiveram durante muitos séculos quase de costas voltadas.

Aqui é indispensável precisar que não se trata do primeiro encontro entre um Papa e um dignitário máximo da Ortodoxia depois de 1054, ano da cisão entre as duas igrejas, pois já se realizaram vários encontros entre Papas católicos e Bartolomeu, Patriarca de Constantinopla, que formalmente está acima dos restantes Patriarcas Ortodoxos, mas que, na realidade, é menos influente do que Kirill devido às dimensões dos rebanhos que dirigem e ao peso político que daí advém.

Segundo foi anunciado pelo Vaticano e por Moscovo, o principal tema do encontro serão “as perseguições de que são alvo os cristãos no Médio Oriente e em África”, mas certamente que haverá mais temas para discutir em encontros posteriores se o primeiro correr bem. Católicos e Ortodoxos poderão criar plataformas de entendimento mais amplas, nomeadamente na chamada “defesa dos princípios cristãos” na Europa e no mundo, princípios como o da família, a oposição ao aborto e ao relativismo moral das sociedades modernas.

Em 1996-1997, esteve quase para acontecer um encontro entre o Papa João Paulo II e o Patriarca russo Alexis II também em território neutro: na Áustria, onde o chefe da Igreja Católica, entre outras coisas, deveria entregar aos Ortodoxos russos o Ícone de Nossa Senhora de Kazan, que esteve guardado em Fátima entre 1972 e 1992. Porém o encontro não se realizou devido ao facto de o Patriarca russo considerar que a Igreja Católica desenvolvia trabalho de missionação (proselitismo) em “território canonicamente seu”.

Actualmente, o Patriarcado de Moscovo considera que o Vaticano respeita a sua “zona de influência” e concorda com o primeiro encontro. Claro que é difícil, mesmo neste campo, acreditar em milagres, e concordar com a explicação dada pelo sacerdote ortodoxo Alexis Dikarev, que afirma que “a decisão do encontro do Patriarca com o Papa foi tomada no último momento, quando ficou claro que eles se iriam cruzar na América Latina”.

Analistas do jornal electrónico Gazeta.ru veem nesta política de Francisco “o desejo de união do Catolicismo e da Ortodoxia Russa, ideia que ocupa a Santa Sé desde o início do séc. XX não só por razões políticas, mas também religiosas”, sublinhando que “a base disso… é o chamado terceiro segredo de Fátima”, que previu o fim do comunismo e o regresso da Rússia ao mundo cristão.

Da parte russa, é evidente que este encontro visa contribuir para reduzir o isolamento do Kremlin face aos países ocidentais. O apoio de um Papa tão popular no mundo cristão e não só é de extrema importância num período de relações internacionais tão conturbadas como o actual. Tendo em conta a forte dependência da Igreja Ortodoxa Russa face ao poder laico, é difícil imaginar que este encontro se realize sem a “bênção” do Presidente Putin.

Aliás, a preparação do encontro de Havana foi acelerada depois do encontro de Francisco com Vladimir Putin, realizado a 13 de Junho do ano passado. Três dias depois da audiência do dirigente russo no Vaticano, o Papa veio propor que Católicos e Ortodoxos passem a celebrar a Páscoa no mesmo dia, o que até agora não acontecia. Além disso, posteriormente, observou-se um aumento de contactos entre representantes das duas Igrejas, que desaguaram agora em Havana.

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