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Fogo de Pedrógão Grande

O silêncio

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Não é tempo de lançar acusações. Mas a última coisa que podemos aceitar é que, apagadas as chamas, o tempo passe e se instale o silêncio sobre Pedrógão Grande. Como se instalou quando ardeu a Madeira.

Esta é a hora de chorar os mortos. De dar a mão aos que lhes sobrevivem. De oferecer um ombro às famílias que as chamas desfizeram. De prestar homenagem aos que ajudam, no terreno, fazendo o seu trabalho e, mais do que isso, pondo a sua própria vida em risco – bombeiros, guardas, vizinhos, psicólogos e assistentes sociais. É hora de unir esforços e contribuir à medida das possibilidades – com mantimentos e donativos para os que ainda enfrentam o incêndio e para os que nele perderam tudo (basta perguntar onde os entregar). Esta é uma hora de unidade nacional, como bem assinalou o primeiro-ministro (e bem esteve, de resto, em proteger os jovens da região e adiar os seus exames nacionais).

Esta não é, portanto, a hora de apontar o dedo em busca de culpados. Os corpos arrefecem, os estragos contabilizam-se, há vidas que tentam salvar-se nos hospitais – há demasiado para fazer nestas horas negras, quando a ameaça permanece à espreita. Muito menos é a hora de, com a ganância que as eleições autárquicas suscitam, procurar cobrar ou obter proveitos políticos de uma tragédia – e há sempre quem não se consiga impedir de usar uma desgraça em proveito próprio. Mas também não é tempo de fazer o inverso – ilibar tudo e todos, excepto a natureza e o azar. As catástrofes acontecem, sim, mas o seu impacto numa comunidade varia consoante a sua preparação e prevenção. É cedo, ainda, para sabermos de que forma o incêndio em Pedrógão Grande se insere nesta equação.

A hora de compreender exactamente o que aconteceu virá eventualmente. Nessa altura, importa investigar o que falhou, porque falhou, o que poderia ter sido feito para minimizar o impacto desta tragédia, e retirar lições para o futuro. E, se for o caso, apurar responsabilidades. Dizê-lo parece ser pouco mais do que uma banalidade. Mas não o é num país que enfrenta incêndios no Verão e inundações no Inverno e que, a cada ano, parece surpreendido e impreparado para lidar com o seu próprio clima. E também não o é num país onde, por hábito, se é demasiado rápido a premir o gatilho acusatório e demasiado lento a averiguar os factos e deles retirar reais consequências. Portugal lida mal com o escrutínio, uma espécie de maldição nacional que, muitas vezes, justifica o nosso atraso.

Por tudo isto, foram imprudentes as palavras do Presidente da República. Marcelo foi logo para o terreno, prestando apoio e consolo no local do incêndio. Fá-lo à sua maneira e como mais ninguém em Portugal conseguiria fazer – foi comovente ver nos olhos daqueles que abraçou a importância daquele gesto simples. Assumiu o papel de liderança que, mesmo simbólico, faz a diferença pela positiva. Mas, mesmo que com a melhor das intenções, o Presidente errou quando afirmou que “o que se fez foi o máximo que se podia fazer; não era possível fazer mais”. Porque, nesta altura, é impossível medir a veracidade desta afirmação e o próprio não faz ideia se, apesar de se presumir que a origem do incêndio foi natural, não teria sido possível minorar os seus efeitos devastadores – há, aliás, quem argumente nesse sentido. E porque a última coisa de que o país precisa é afastar-se da necessidade de uma averiguação profunda sobre as causas do incêndio e da sua propagação.

Cada coisa a seu tempo. Mas, a última coisa que podemos aceitar é que, apagadas as chamas, o tempo passe e se instale o silêncio sobre Pedrógão Grande. Como se instalou quando ardeu a Madeira (no ano passado) ou o Caramulo. É essa rotina que também nos queima: nunca as investigações são conclusivas, nunca as lições são aprendidas, nunca a prevenção se sobrepõe à reacção, nunca o escrutínio é consequente. Ou se quebra esta rotina, ou a rotina quebra-nos a nós.

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