Sempre lá estiveram, mas agora ganharam força. As vitórias da Frente Nacional, do Partido Popular Dinamarquês e do UKIP, o terceiro lugar da Aurora Dourada e o segundo lugar do Jobbik vêm dar um novo cunho ao Parlamento Europeu que vê aumentar em muito o número de representantes da extrema-direita no hemiciclo (46, segundo as contas do Observador – um aumento de 20% em relação a 2009). Na Alemanha, os eurocéticos ganharam sete lugares, enquanto o Syriza na Grécia consegue eleger sete eurodeputados. O Observador previu os resultados e agora dá conta dos votos.

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Para Marine Le Pen, estes resultados mostram a “rejeição” da União Europeia, com 25% dos franceses a escolher a Frente Nacional e a fazer deste partido de extrema-direita o número um nestas eleições. Le Pen aproveitou para pedir a dissolução do parlamento – os socialistas de Hollande ficaram em terceiro lugar – ao dizer que é inaceitável que este órgão legislativo seja “tão pouco representativo do povo francês”. O primeiro-ministro Manuel Valls já veio dizer que a “Europa desiludiu” e que precisa voltar a dar esperança aos franceses. “Precisamos de uma Europa mais forte, mais solidária e mais justa” apelou o socialista. De Hollande, nem sinal.

O Le Monde analisa esta segunda-feira as propostas concretas da Frente Nacional:

  • Marine Le Pen defende a saída da França da moeda única – “É necessário restaurar a nossa moeda, bem como as prerrogativas do Banco da França para que as nossas exportações, a nossa indústria e o emprego sejam consideravelmente dinamizados”, dizem os frontistas;
  • Oposição ao Tratado Transatlântico, que a campanha do FN considera uma “máquina de guerra ultraliberal, anti-democrática, anti-económica e antissocial”;
  • Relativamente à imigração, a FN defende a saída do espaço Schengen, bem como a eliminação do reagrupamento familiar e do direito jus soli e a redução, em cinco anos, da imigração legal para um máximo de 10 mil entradas por ano.

No Reino Unido, pela primeira vez desde dezembro de 1910, a vitória numas eleições não foi nem para os conservadores nem para os trabalhistas, com o partido UKIP de Nigel Farage a liderar nestas europeias. O eurodeputado já tinha avisado que queria provocar um “terramoto” e foi o que aconteceu. “Nós continuamos a surpreender as pessoas e estou muito satisfeito pela maneira como correu esta campanha. É o resultado mais extraordinário na política britânica nos últimos 100 anos” disse o carismático líder do partido.

“Eu amo a Europa, é com a União Europeia que eu tenho problemas” Nigel Farage

Riccardo Marchi, investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), explicou ao Observador que o UKIP se insere “numa ‘nova extrema-direita’ que rejeita liminarmente as experiências autoritárias do seculo passado, é genuinamente antifascista, aceita a democracia liberal como um valor em si e concentra-se na agenda política contemporânea: anti-Europa, anti-imigração, democracia directa”. O UKIP levou a cabo uma forte campanha anti-imigração com cartazes em que apontava que os imigrantes queriam o emprego dos britânicos.

O Partido Popular Dinamarquês (PPD), de extrema-direita, venceu com 26,6% dos votos, o que lhe permite eleger quatro dos 13 deputados que a Dinamarca tem no Parlamento Europeu. Os sociais-democratas, força política da primeira-ministra Helle Thorning-Schmidt, ficaram em segundo lugar com 19,1%.

Morten Messerschmidt, líder do PPD, disse que a vitória é um sinal de que os dinamarqueses “querem a UE de volta aos trilhos”. O Partido Popular Dinamarquês fez campanha defendendo o regresso ao controlo fronteiriço e a redução dos direitos de cidadãos europeus que vivem na Dinamarca.

O Aurora Dourada na Grécia vai enviar pela primeira vez eurodeputados para Bruxelas, tendo já pedido a libertação dos seus dirigentes que estão presos – nomeadamente do líder Nikos Michaloliakos, acusado de utilizar o partido para associação criminosa – e o Jobbik na Hungria torna-se na segunda força política.

Agitar noutras latitudes

O Syriza ganha as eleições e vai em força para o Parlamento Europeu com sete eurodeputados, reclamando uma vitória histórica para a esquerda. Esta vitória põe em causa a solidez do governo grego – uma coligação entre o centro-direito e os socialistas -, tendo Tsipras pedido eleições antecipadas e uma aliança social “progressiva e patriótica” para a obtenção de uma maioria nessas mesmas eleições. O líder do Syriza era ainda o candidato da Esquerda Unida Europeia ao lugar de presidente da Comissão.

Mas com 26,5% dos votos, o Syriza não consegue ultrapassar a percentagem dos dois partidos da coligação – Nova Democracia (ND) e Pasok – que juntos obtiveram 30,2%. O primeiro-ministro Antonis Samaras já disse que o resultado do partido de Tsipras não é suficiente para derrubar o governo.

Apesar de Merkel ter conseguido manter a vantagem da CDU na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido nascido no ano passado, teve o melhor desempenho dos partidos recém-criados. Os eurocéticos da direita alemã conseguiram alcançar uma votação de 7%, levando sete representantes para o Parlamento Europeu. O Partido Nacional Democrata alemão, com traços neo-nazis, elege pela primeira vez um deputado para o Parlamento Europeu.