As autoridades e os serviços antiterroristas franceses vigiaram durante anos os autores dos ataques contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, os irmãos Chérif e Said Kouachi, bem como Amedy Coulibaly, responsável pela morte de uma polícia e quatro judeus no supermercado de Porte de Vincennes, mas essa vigilância foi interrompida há meses, escreve o El País.

Desde 2001 que Chérif Kouachi estava debaixo de olho da segurança francesa, que pôs o seu telefone sob escuta até ao final de 2013. Ao Libération, uma fonte do Governo francês disse que o fim das escutas a Chérif aconteceu porque, na altura, este não parecia estar em contacto com algumas das vozes mais perigosas nos círculos islâmicos radicais.

No final de 2011, os serviços secretos norte-americanos avisaram as autoridades francesas de que o irmão de Chérif, Said, tinha estado em Omã nesse verão, passando alguns dias no Iémen. Foi nos últimos meses desse ano que Said passou a ser vigiado pelas autoridades francesas até junho de 2014, sete meses antes dos ataques de dia 7 de janeiro. As razões para a suspensão da vigilância a Said não são claras, com um jornal francês a dizer que a polícia “avançou para outros suspeitos”.

Segundo o El País, a polícia francesa suspeita agora que os dois receberam treino militar no Iémen, ainda que, durante esse período, Chérif não estivesse autorizado a deixar a França por esperar julgamento. Um oficial de segurança do Iémen confirmou à Reuters que os irmãos conheceram Anwar al-Alaki da al-Qaeda na Península Arábica e aprenderam a disparar nos desertos do Marib, no sudoeste do país. Em agosto de 2011 estavam de regresso a França.

Além destas movimentações, os dois irmãos estavam a ser investigados pela sua relação com o grupo Buttes-Chaumont, uma rede de captação de jihadistas de Paris. Chérif Kouachi foi preso pelo seu envolvimento com a organização e durante a estadia na prisão terá conhecido Amedy Coulibaly, a cumprir pena por assalto à mão armada. Na mesma situação, os dois conheceram Djamenl Beghal, um franco-argelino recrutador da al-Qaeda condenado por uma tentativa de ataque à embaixada dos EUA em Paris, escreve o Guardian.

Após serem libertados, Chérif Kouachi e Amedy Coulibaly já teriam aderido à causa jihadista, tendo participado, pouco depois, num plano para libertar um terrorista argelino responsável pelos ataques à bomba no metro de Paris em 1995. Coulibaly foi condenado a cinco anos de prisão, mas Kouachi foi libertado. O autor do sequestro no supermercado parisiense saiu com pulseira eletrónica em março de 2014. No domingo foi divulgado um vídeo em que Coulibaly reivindicava o ataque, declarando-se “soldado do Califado”, numa referência ao Estado Islâmico, e confirmando ter atuado de forma “sincronizada” com os irmãos Kouachi.

Depois da difusão do vídeo, a polícia francesa procura possíveis cúmplices de Coulibaly. Como a companheira, Hayat Boumeddiene que primeiramente foi apontada como cúmplice do sequestro, mas, sabe-se agora, entrou na Turquia a 2 de janeiro, acabando por atravessar a fronteira para a Síria um dia depois do ataque ao Charlie Hebdo em Paris. Também Hayat Boumeddiene e a mulher de Chérif Kouachi mantinham uma relação próxima, tendo falado mais de 500 vezes ao telefone durante o ano de 2014, segundo o Guardian.

Na semana passada, a mulher de Stephane Charbonnier, conhecido por Charb, um dos cartoonistas assassinado, disse numa entrevista que “a República é culpada”. “Os atacantes foram sistematicamente protegidos pela polícia. Houve várias mensagens de ódio e ninguém os defendeu. Essa é a realidade. O massacre podia ter sido evitado e não fizemos isso”, disse Jeannette Bougrab.

Já foi anunciada a criação de uma comissão de investigação conjunta com a Assembleia Nacional e o Senado para apurar possíveis falhas de segurança, avança o El País.