Já tinham passado mais de 14 horas desde que os líderes da zona euro se tinham reunido em busca de um acordo com a Grécia. Sem sucesso, o braço de ferro entre Angela Merkel e Alexis Tsipras era tal que a certa altura havia quem já desse tudo como perdido. Perto das 6h da manhã, a Grécia estava com um pé fora do euro e tanto o primeiro-ministro grego como a chanceler alemã preparavam-se para sair, virar as costas à mesa e encaminhar-se para a porta. Foi aí que o presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, levantou a voz: “Lamento, mas ninguém pense em sair desta sala“. E ninguém saiu. Antes das 8h, já se falava em aGreekment e não em Grexit.

A história, contada pelo Financial Times, levanta o véu sobre aqueles que terão sido os momentos de maior tensão na cimeira mais longa da história da zona euro. A divergência era muita mas o ponto de rutura foi o fundo de 50 mil milhões que a Alemanha queria que Atenas criasse como garantia de pagamento. A chanceler queria que a totalidade do fundo fosse utilizada para pagar a dívida, mas Tsipras considerava uma autêntica “humilhação” e queria que, pelo menos, o fundo fosse menor e parte dele fosse destinada ao financiamento de investimentos.

Mas Merkel estava irredutível. Por um lado, reinava a ideia de que a Grécia sairia mesmo do euro – a hipótese chegou a ser escrita – e por outro os chefes de Governo e de Estado ainda tinham fresca na memória a reunião do Eurogrupo, do dia anterior, onde houve lugar para vários dissabores e ataques de parte a parte. Nessa altura, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, chegou a levantar a voz ao presidente do BCE, Mario Draghi, e o finlandês Alexander Stubb explodiu a dada altura para acusar os gregos de não terem feito uma única reforma estrutural durante meio século. Os ânimos estavam, por isso, muito tensos.

A Economist vai ainda mais longe no relato da maratona negocial e escreve que, a dada altura, Alexis Tsipras estava a demorar mais tempo do que o habitual a regressar da pausa e começou a circular o boato de que o primeiro-ministro grego teria abandonado o edifício. A pressão que os restantes 18 líderes da zona euro estariam a fazer sobre ele era tanta que o rumor ganhou força e credibilidade. Mas afinal não. Tsipras continuava firme entre portas, estava apenas na casa de banho.

O dedo de Hollande

Perante o impasse terá sido o presidente francês, François Hollande, a chamar a si a responsabilidade. Segundo o Financial Times, o francês chamou Angela Merkel e Alexis Tsipras ao gabinete de Donald Tusk e a negociação fez-se ali. O fundo acabou por ficar dividido: metade seria utilizado para recapitalizar a banca, a outra metade seria dividida entre os reembolsos de dívida e o investimento.

No fim, Hollande puxou dos galões e congratulou-se por ter defendido a Grécia em alguns pontos. “A Alemanha estava a fazer uma grande pressão para a Grécia sair do euro e eu recusei essa solução”, disse mais tarde, acrescentando que evitou a todo o custo uma saída que “humilhasse a Grécia”, país que não procurou “caridade” mas sim “solidariedade”, sublinhou.

“Tínhamos de ser bem sucedidos”, explicou ainda, dizendo por que razão quis que a Alemanha cedesse e retirasse do documento a hipótese de uma saída provisória da zona euro: “Se a Grécia saísse o que é que o mundo teria achado de nós?”

Mas Hollande não foi o único a vangloriar o seu papel no desenrolar dos acontecimentos. Também o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho o fez, garantindo em conferência de imprensa pós-cimeira que foi sua a ideia de utilizar do fundo de privatizações para recapitalização da banca. “Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema em aberto – que era justamente a solução quanto à utilização do fundo – partiu de uma ideia que eu próprio sugeri”, disse aos jornalistas.

A sugestão de Passos terá sido, assim, a de permitir que se destinasse ao investimento algumas das verbas do enorme programa de privatizações gregas que está prestes a ser posto em marcha.

O anúncio do acordo chegaria por fim, perto das 8h da manhã, esperando-se agora o desenrolar dos acontecimentos ao nível interno. Tsipras e o ministro das Finanças, Euclid Tsakalotos, deixaram Bruxelas logo de manhã e rumaram a Atenas, onde têm um partido e um Governo a dividir-se por dentro, entre os que estão ao lado do primeiro-ministro e os que criticam a cedência à austeridade europeia.

Certo é que o Parlamento helénico terá de aprovar em tempo recorde (até quarta-feira) as pesadas medidas e reformas estruturais impostas pela Europa. Depois disso, os parlamentos nacionais de países como a Alemanha, Finlândia e Áustria votam internamente o novo plano de resgate grego e fecham-se os termos do terceiro programa. Depois de estar fechado o acordo é que o Banco Central Europeu fará a revisão da linha de liquidez de emergência (ELA) e os bancos voltarão a abrir portas. Até lá, pelo menos até quarta-feira, a banca continuará fechada.