As drogas levaram-nos a não ter onde dormir e o desespero levou-os a bater à porta da Casa Jubileu, em Cascais, uma residência que acolhe 12 homens sem-abrigo e lhes dá a oportunidade de uma nova vida. Chegam por iniciativa própria, levados pelo fôlego da sobrevivência e procuram quem sabem que os pode ajudar. Foi o que aconteceu com Paulo Silva, que, há pouco mais de um ano, por influência de um amigo, procurou ajuda na Casa Jubileu, onde só moram homens com o mesmo objetivo: “recomeçar”.

“Vivia na rua com muitas dificuldades, saltava de albergue para albergue. Então, um amigo que já tinha estado nesta casa aconselhou-me a vir para aqui”, contou. Aos 41 anos, as drogas “tramaram” a vida de Paulo, mas desde que mora na Casa Jubileu “tudo mudou”. Além de uma casa, ganhou uma família, um novo alento e uma nova vontade de viver.

“Tenho carinho, já sei lidar melhor com as pessoas, sou mais desinibido, sinto-me mais à vontade. Tenho cama, comida, roupa lavada, tenho tudo”, disse.

Paulo encontrou a sua “segunda família”, depois de também ter retomado as relações com os pais e a irmã. “Sinto-me recuperado e com força para um recomeço, mas é um dia de cada vez, porque podemos sempre ter uma recaída. Mas tenho um conselheiro. Isto mudou mesmo a minha vida”, afirmou.

A esperança dos atuais moradores é a de chegar onde já chegou Nelson Batista, que deixou a casa há seis anos, depois de um ano e meio a viver lá, e tem hoje um trabalho, uma família e uma nova força. “Vim para aqui porque não tinha teto, não tinha onde ficar, onde estar. Aqui ganhei hábitos de responsabilidade, fiz um trabalho interior, de recuperar a minha autoestima, com pequenos passos, e foi muito gratificante. Isto é a minha segunda família, às vezes até é a primeira”, contou.

Saturado da vida que levava, dependente de drogas, Nelson esteve preso quatro anos e reconhece que se não fosse a ajuda da Casa Jubileu, poderia já não estar vivo.

“Saí da prisão diretamente para aqui e, se não viesse para aqui teria ido para a rua e, provavelmente, teria sido o descalabro total. O processo foi doloroso, mas gratificante”, sublinhou.

Aos que ainda ali moram ou que chegam agora, Nelson preocupa-se em acompanhá-los diariamente e deixar-lhes uma mensagem clara: “andem com a vida para a frente, vale a pena”.

Criada há 14 anos, pela Casa Jubileu – que pertence ao Centro Comunitário de Carcavelos – já passaram 121 homens. Hoje vivem lá 12, a lotação máxima, mas a lista de espera é longa. “Temos sempre pessoas em lista de espera e temos de tentar agilizar a questão para dar resposta o mais rápido possível. Enquanto não podemos acolher, tentamos que a pessoa fique logo apoiada por uma rede”, afirmou a coordenadora da Casa Jubileu, Joana Levita.

Chegam “sofridos, perdidos, desacreditados”, mas a “magreza” rapidamente desaparece e, no final, saem com uma nova figura, um novo rumo e força para enfrentarem as adversidades da vida. “Quando saem daqui, pretende-se que estejam firmes na sua recuperação e autónomos para se responsabilizarem pela sua própria vida”, disse Joana. A taxa de sucesso é de 74%, mas há também casos de homens que acabam por regressar à casa e pedir novamente ajuda.

Respeito e confiança são as regras para se manterem boas relações, uma vez que, segundo a coordenadora, como em qualquer família, há zangas e desavenças.

“Ninguém conseguiria trabalhar nesta casa e nesta área se não fosse de coração. São desafios diários grandes e quando lidamos com a vida das pessoas, muitas vezes não é pacífico, mas não me vejo a fazer outra coisa e estou muito feliz por aqui estar”, afirmou a coordenadora.

Com apoio da Segurança Social e da Câmara de Cascais, a Casa Jubileu sobrevive também da solidariedade das pessoas, que podem procurar o Centro Comunitário de Carcavelos para fazer as suas doações.