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Partida, largada, fugida… Belém? Já são conhecidos todos os nove candidatos a sucessores de Aníbal Cavaco Silva. Isto se Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, não baralhar as contas: o ex-presidente da Junta de Rans entregou as assinaturas necessárias no Tribunal Constitucional, mas não tinha cópia do seu bilhete de identidade e do documento de identificação da mandatária nacional autenticadas por um advogado e, por isso, ainda terá de voltar ao ao Palácio Ratton, sede do TC. Vitorino da Silva, no entanto, já prometeu regressar mais tarde para completar o processo. Com ele, serão dez os candidatos presidenciais.

Enquanto uns já aquecem os motores para entrarem na reta final (e decisiva) da corrida para Belém, outros foram ficando pelo caminho. Uns porque não conseguiram recolher as assinaturas necessárias, outros porque preferiram desistir a favor de outro candidatos e outros ainda porque foram atingidos pelo azar.

Que o diga a açoriana Graça Castanho. A docente universitária e ex-diretora regional das Comunidades nos Açores afirmou ter conseguido recolher as 8 mil assinaturas, mas tudo o vento levou. “O forte temporal que se abateu sobre a Ilha de S. Miguel inutilizou (…) sensivelmente 3.000 assinaturas. As referidas fichas de assinaturas (…) com a força colossal de uma rajada de vento literalmente voaram da mala do veículo que as transportava, indo parar a centenas de metros de distância. Em escassos segundos perto de 6.000 folhas, pela ação do vento e da chuva, ficaram destruídas”, revelou a 15 de dezembro António Delgado, mandatário da candidatura.

Também Orlando Cruz “o empresário falido”, como se chegou a descrever – antes fora “taxista, camionista, ator de novelas, dono de restaurantes e de supermercados” -, desistiu da candidatura a Belém por razões de saúde. “Vou desistir (…) depois de ter tido um AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, anunciou a 14 de dezembro. “Por pena minha, porque pela primeira vez ia levar a minha candidatura até ao fim, vou desistir, porque primeiro está a saúde”.

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Voltou-se, pois, para Marcelo Rebelo de Sousa. Os dois estiveram reunidos e chegaram a um acordo, revelou na mesma altura Orlando Cruz. “Acordámos que eu desistiria a favor dele. É a pessoa mais capacitada para ser presidente da República de todos os candidatos”.

E Orlando Cruz não foi o único a desistir a favor de Marcelo Rebelo de Sousa. Paulo Freitas do Amaral, militante centrista e primo de Diogo Freitas do Amaral, desistiu da corrida presidencial a 26 de novembro para não prejudicar a candidatura de Marcelo e para “evitar uma segunda volta”:

“[Não faz sentido] a existência de dois candidatos que ideologicamente se situam precisamente no mesmo quadrante e que em termos de características humanas mantêm um espírito jovem, criativo, dinâmico, de ação, de proximidade e de relação aberta e progressista com a comunicação social. Penso que é preciso uma candidatura forte e que ganhe logo à primeira volta. Quero evitar uma segunda volta”, justificou o ex-participante d’A Quinta, o reality show transmitido pela TVI.

Houve também quem usasse o argumento de falta de tempo para justificar o fim da corrida presidencial. Foi o caso de Castanheira Barros: o advogado desistiu da ideia de disputar as eleições presidenciais devido “à grande azáfama” da sua vida profissional. No dia em que anunciou o “adiamento” da sua candidatura – o advogado não usou a palavra “desistência” e apontou baterias para o objetivo “Belém 2021” -, reconheceu que não tinha “condições para apresentar a candidatura, apesar dos milhares de assinaturas recolhidas”. Desafiado a revelar o número exato de assinaturas que recolheu, o advogado preferiu não o fazer.

Menos conformado ficou Sérgio Gave Fraga. O advogado de 48 anos, natural de Arcos de Valdevez, reagia assim no Facebook: “Chegou a hora de baixar as armas nesta luta e admitir que a batalha chegou ao fim, tendo falhado o principal objetivo. Não consegui e falhei! Falhei por culpa própria, por não ter conseguido convencer pelo menos 7.500 pessoas, e, consequentemente, não ter obtido as assinaturas necessárias para ser considerado candidato às eleições presidenciais de 2016”, admitiu.

A lista de desistentes entre os protocandidatos presidenciais não se fica por aqui: Manuel Almeida, mais conhecido como “Ninja de Gaia”, o ex-militar António Araújo da Silva, o funcionário bancário José Pedro Simões e a historiadora, escritora e ex-jornalista Manuela Gonzaga, candidata apoiada pelo PAN, também anunciaram a sua desistência.

Os nove candidatos candidatos (mais um) a Belém

Paulo Morais, Edgar Silva, Henrique Neto, Marisa Matias, Maria de Belém, António Sampaio da Nóvoa, Jorge Sequeira, Cândido Ferreira e Marcelo Rebelo de Sousa. Assim mesmo, por esta ordem, os nove candidatos presidenciais foram formalizando a candidatura junto do Tribunal Constitucional. Será que a velha máxima de que “os últimos são sempre os primeiros” também se aplica aqui?

A confiar na mais recente sondagem, sim: Marcelo Rebelo de Sousa foi o último a vestir a camisola de candidato, o último a entregar as assinaturas necessárias para formalizar a candidatura e, mesmo assim, parte para esta corrida como “superfavorito”. De acordo com o estudo da Eurosondagem para o Expresso/SIC, divulgado esta quarta-feira, o professor catedrático reúne 52,5% das intenções de voto – um cenário que lhe garantiria a vitória na primeira volta.

Presidenciais 2016 : Marcelo Rebelo de Sousa formaliza candidatura

Marcelo Rebelo de Sousa no dia em que formalizou a candidatura junto do TC

Esta quarta-feira, no dia em que entregou no Palácio Ratton as 15 mil assinaturas – o limite máximo previsto por lei -, Marcelo elogiou a aprovação do Orçamento Retitificativo. e deixou um desejo para 2016: “Foi bom, foi um bom final de 2015 e um bom augúrio para 2016“, atirou o antigo líder social-democrata, que parte para esta corrida como candidato apoiado por PSD e CDS – para trás ficaram os tempos em que Pedro Passos Coelho excluía a hipótese de o PSD vir a apoiar um candidato a Belém que fosse um “cata-vento de opiniões erráticas”. Uma descrição que cabia como uma luva a Marcelo Rebelo de Sousa – o próprio, de resto, acusou o toque e, na altura, até afastou a hipótese de avançar para a corrida.

Presidenciais 2016 : Maria de Belém formaliza candidatura

Maria de Belém entregou 9.200 assinaturas

Por esta altura, os dois únicos candidatos que parecem capazes de fazer sombra a Marcelo Rebelo de Sousa nas sondagens são Maria de Belém e António Sampaio da Nóvoa, os dois candidatos no radar socialista. A ex-presidente do PS formalizou a candidatura esta terça-feira – entregou 9.200 assinaturas – e garantiu estar “com imenso vigor e energia” para cortar a meta antes de todos os outros candidatos. “As minhas perspetivas são muito positivas”, assegurou a socialista.

Presidenciais 2016 : Sampaio da Nóvoa formaliza candidatura

António Sampaio da Nóvoa ao lado do deputado socialista e coordenadora da campanha, Pedro Delgado Alves

Horas depois era a vez de Sampaio da Nóvoa. O ex-reitor da Universidade de Lisboa fez uma demonstração de força para Belém ver: deixou 13 mil assinaturas no Palácio Ratton e descreveu o momento como “muito importante [e] de grande orgulho para todos nós“.

Marisa Matias

Marisa Matias, eurodeputada bloquista e candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda

Antes, a 17 de dezembro, Marisa Matias já tinha feito chegar ao Tribunal Constitucional 12 mil assinaturas. Com uma eventual segunda volta no horizonte, a eurodeputada bloquista deixou um desejo: que a esquerda se una para derrotar Marcelo.”Se não for eu a passar, o mesmo acontecerá em relação ao candidato ou à candidata da esquerda que passar. Aí todos os candidatos da esquerda, numa lógica de reciprocidade – temos que ser uns para os outros – se unirão para derrotar a candidatura da direita“.

Apresentação da candidatura de Edgar Silva

Edgar Silva, ex-padre e candidato apoiado pelo partido comunista

O candidato presidencial apoiado pelo PCP, o madeirense Edgar Silva, acabou por se antecipar à bloquista e formalizou a candidatura dez dias antes, a 7 de dezembro. O ex-padre deixou 15 mil assinaturas e uma certeza: levaria “muitas outras [assinaturas], se fossem necessárias. Teríamos seguramente garantido“.

Paulo Morais

Paulo Morais foi o primeiro a formalizar a candidatura

Mas o primeiro a fazê-lo foi Paulo Morais, logo no primeiro dia de dezembro. A escolha da data não foi inocente: “[Escolhi o 1º de dezembro] por ser o dia da Restauração da Independência” e por estar “em causa a independência do Estado face aos grupos económicos”. O ex-número 2 de Rui Rio na Câmara do Porto apresenta-se como candidato que quer acabar com “política-espetáculo”. “Onde os outros tiverem bandeiras, nós temos ideias. Onde os outros tiverem jantares, nós temos debates. Chega de política-espetáculo, é preciso política de convicções“, atirou.

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Henrique Neto, ex-deputado socialista, apresenta-se nestas eleições como candidato independente

A 11 de dezembro, era a vez de Henrique Neto formalizar a sua candidatura. O ex-deputado socialista, conhecido pela sua língua afiada e pelas críticas que foi fazendo às lideranças de António Guterres e (sobretudo) de José Sócrates, entregava as 7.950 assinaturas que lhe permitem entrar na corrida presidencial – o mínimo são 7.500 assinaturas. Não sem antes reconhecer que fora uma missão “difícil”. “É muito trabalho, muitas pessoas sacrificaram-se, às vezes à chuva e ao sol“.

Presidenciais 2016 : Jorge Sequeira formaliza candidatura

Jorge Sequeira entregou cerca de 9 mil assinaturas e celebrou assim

No mesmo dia em que Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa oficializavam a candidatura, aparecia outro candidato a reconhecer, tal como Henrique Neto, o quão difícil foi chegar até ali. Jorge Sequeira, psicólogo, investigador e professor universitário, entregou cerca de 9 mil assinaturas e apresentou-se como o candidato pela “meritocracia”. “Foram sete meses de trabalho árduo, terrivelmente difícil“. E não deixou de dar uma bicada a Marcelo Rebelo de Sousa: talvez o “facto de ser comentador perspetiva uma candidatura forte“, ironizou, referindo-se ao anterior estatuto do agora candidato presidencial.

Cândido Ferreira

O médico Cândido Ferreira assume-se como único capaz de fazer frente a Marcelo

E Jorge Sequeira não foi o único a desafiar Marcelo Rebelo de Sousa. Esta quarta-feira, depois de entregar 8.300 assinaturas, Cândido Ferreira, médico e antigo presidente da Federação Distrital de Leiria do PS, garantiu ser o único “capaz de enfrentar olhos nos olhos a candidatura de direita e capaz de vencer na segunda volta“.

Mesmo admitindo que está “num dos últimos lugares na grelha de partida”, Cândido Ferreira acredita que os portugueses vão apostar numa candidatura que é independente, “diferente, do povo e para o povo”. E também não poupou o PS. “O PS tem dois candidatos que parece os clubes de futebol que tem uma equipa na primeira liga e uma equipa na liga de honra. Não se sabe bem qual é o candidato da primeira liga, mas nem um nem outro merecem lá estar”, atirou o médico.

Venda do Pinheiro,26/05/13 - Reportagem do programa de televisõa «Big Brother». Tino de Rans. (Paulo Spranger/Global Imagens)

Vitorino Silva (Tino de Rans) esqueceu-se da fotocópia do “B.I.”, mas conseguiu reunir mais de 8 mil assinaturas

São estes nove (mais Tino de Rans) os candidatos às eleições presidenciais de 2016, com data marcada para 24 de janeiro. O Tribunal Constitucional terá, agora, de verificar e validar todas as assinaturas entregues pelos candidatos – num processo que deve estar concluído até ao dia 4 de janeiro.