A NOS continua a atacar o mercado dos direitos televisivos da I Liga de futebol. Esta quarta-feira assinou contratos com mais oitos clubes, que se juntam assim ao Benfica e ao Sporting, que já tinham chegado a acordo com a operadora que detém 50% da Sport TV.

São eles a Académica, Belenenses, Nacional, Arouca, Paços de Ferreira, Marítimo, Sp. Braga e V. Setúbal. Os bracarenses são aqueles que mais vão receber, com um contrato de 100 milhões de euros, válido por dez épocas.

A informação dos novos oito acordos foi comunicada pela NOS à CMVM ao final da noite, já depois da TVI 24, no programa “Mais Bastidores”, ter anunciado o acordo com o clube de António Salvador e os respetivos valores. Na comunicação aos mercados, a operadora apenas avança com a duração dos contratos: as dez épocas dos bracarenses e as sete dos restantes clubes.

Todos os contratos têm validade a partir da temporada 2019/2020, uma vez que todos estes clubes têm contrato até ao final da temporada de 2017/2018 com a Olivedesportos de Joaquim Oliveira, para transmissão na Sport TV. O canal codificado de desporto é partilhado entre Oliveira e a NOS a 50% (sendo que o empresário foi acionista da operadora até março do ano passado).

Com estes novos acordos, sobe para dez o número de clubes que já assinaram com a NOS. O primeiro foi o Benfica, a 2 de dezembro, num acordo de 400 milhões válido por dez temporadas, que abrange apenas as transmissões televisivas e a distribuição do canal do Benfica (BTV).

Seguiu-se, ontem, terça-feira dia 29, o outro grande da Segunda Circular, o Sporting, cujo acordo com a operadora lhe valerá 446 milhões. Mas, no caso dos leões, o contrato é bastante diferente do dos encarnados: além dos direitos de transmissão dos jogos em casa por um período também de dez temporadas, há igualmente a exploração do canal do Sporting (Sporting TV), mas neste caso o contrato já é válido por 12 anos, e ainda o patrocínio das camisolas e a exploração da publicidade estática do estádio José Alvalade.

Os bastidores desta batalha dos direitos televisivos dos clubes da I Liga de futebol têm, no entanto, mais o que contar. O que se assiste é a uma guerra entre as duas grandes operadoras do mercado, a Altice/MEO e a NOS. Sendo que neste caso a NOS leva vantagem, porque a MEO ainda só chegou a acordo com o FC Porto. A proprietária da Portugal Telecom vai pagar aos dragões 475 milhões de euros, num contrato de dez épocas, com início em 2018/2019, que inclui transmissões televisivas, distribuição do Porto Canal, patrocínio nas camisolas e exploração da publicidade no estádio do Dragão.

Vale a pena aliás referir as diferenças entre os vários contratos e as diferentes datas de inícios dos mesmos, que já fizemos neste Explicador.

Os bastidores

A Altice começou por tentar negociar com vários clubes com o objetivo de criar um canal desportivo concorrente à Sport TV. O seu primeiro alvo foi o Benfica, o único dos 18 clubes da I Liga que não estão ligados à Olivedesportos/PPTV de Joaquim Oliveira. Depois voltou-se para FC Porto e Sporting. Pelo meio, terá chegado a um princípio de acordo com o Boavista, e avançado nas negociações com V. Guimarães, Belenenses e Sp. Braga. Ao mesmo tempo, procurou ganhar os direitos de algumas ligas estrangeiras.

Mas o contra-ataque da NOS foi fortíssimo. Ganhou a corrida pelo Benfica, primeiro, e agora pelo Belenenses e Sp. Braga — até ver, só falta o V. Guimarães. Como a Sport TV conseguiu igualmente recuperar os direitos da Liga inglesa (estavam a ser transmitidos pela BTV), a MEO fica bastante esvaziada, tendo apenas para oferecer os jogos em casa dos “dragões”.

Esta novo paradigma em relação à venda dos direitos de transmissão desportivos em Portugal só é possível depois da alteração concorrencial que aconteceu no final do ano passado. Nessa altura, após uma queixa da Liga então liderada por Mário Figueiredo à Autoridade da Concorrência, a reguladora de mercado obrigou a Olivedesportos/PPTV de Joaquim Oliveira a renegociar todos os contratos que detinha com os clubes, graças aos quais mantinha a hegemonia e um monopólio de mercado.

Foi o próprio Oliveira a sugerir o novo modelo que a Concorrência, os clubes e a Liga aceitaram: os acordos que eram, regra geral, de longa duração — e à conta dos quais Oliveira dava crédito a vários clubes –, tiveram de ser reduzidos.

A opção proposta pelo empresário foi o limite de três anos e a eliminação de duas cláusulas habituais: a de direito de preferência e a de suspensão no caso de descida de divisão. Todos os clubes renegociaram com a Olivedesportos, passando os contratos a ser válidos de 2015/2016 a 2018/2019, data em que terminava o acordo de transmissão na Sport TV.

2018/2019, época a partir da qual, aliás, ficavam livres para negociar os direitos televisivos, o que estão a fazer agora diretamente com as operadoras e sem a intermediação habitual até aqui da Olivedesportos/PPTV. Fora deste pacote estava apenas o Benfica, que tinha deixado a ligação a Oliveira há já 3 anos, após a criação da BTV, canal a partir do qual transmitia os jogos do clube.

Apesar de não ter sido ainda revelado por parte da NOS onde vão ser transmitidos os jogos dos clubes com os quais tem acordo a partir de 2019-2020 — e, no caso do Benfica, já na próxima época –, tudo aponta para que a operadora ceda a transmissão à Sport TV, canal que detém a 50% com Joaquim Oliveira.

Resta saber o que fará a MEO com o FC Porto. E quais os negócios que se seguem uma vez que há sete clubes sem a situação definida na atual I Liga: V. Guimarães, Boavista, Estoril, Rio Ave, Moreirense, Tondela e U. Madeira. Muita coisa pode ficar por esclarecer até 2018, data do fim dos contratos destes clubes com a Olivedesportos/PPTV, uma vez que não é garantido que todos permaneçam no escalão principal do futebol português nos próximos três anos, nem tão pouco quem subirá.