Rádio Observador

Exploração Espacial

Eles estiveram um ano no espaço. O que terão para nos contar?

Os dois astronautas que mais tempo ficaram fora da Terra regressam a casa esta terça-feira. Com eles trazem respostas a muitas perguntas da ciência. E a outra questão: será que já podemos ir a Marte?

NASA

Esta história não tem planetas desconhecidos nem fenómenos sobrenaturais. Nem tem letras amarelas com a música d’A Guerra das Estrelas no fundo. E muito menos explosões ou monstros verdes. Mas tem heróis. As suas aventuras começaram há pouco menos de um ano, quando a NASA gritou “descolagem, o ano no espaço começa agora: Scott Kelly e Mikhail Korniyenko já estão a caminho na Estação Espacial Internacional”.

Tudo começou às 19h42 (hora de Lisboa) de 27 de março de 2015. A noite já tinha caído no cosmódromo de Baikonur, mas a missão Soyuz TMA-16M estava de nariz apontado para o céu. Já muita história se tinha escrito sobre a primeira base de lançamentos de foguetes do mundo: daquela cidade do Casaquistão já tinha partido o primeiro satélite artificial da Terra – o Sputnik-1, em outubro de 1957; e o primeiro homem a viajar no espaço – Iuri Gagarin, em abril de 1962. Naquela noite, os protagonistas eram outros: o astronauta Scott Kelly e o cosmonauta Mikhail Korniyenko foram lançados para uma estadia de um ano no espaço, a mais longa do ser humano fora da Terra. Esta terça-feira, a aventura chega ao fim.

Expedition 43 Russian Cosmonaut Mikhail Kornienko of the Russian Federal Space Agency (Roscosmos), top, NASA Astronaut Scott Kelly, center, and Russian Cosmonaut Gennady Padalka of Roscosmos wave farewell as they board the Soyuz TMA-16M spacecraft ahead of their launch to the International Space Station, Friday, March 27, 2015 in Baikonor, Kazakhstan. As the one-year crew, Kelly and Kornienko will return to Earth on Soyuz TMA-18M in March 2016. Photo Credit (NASA/Bill Ingalls)

Expedição 43, composta por Mikhail Kornienko, Scott Kelly e Gennady Padalka a bordo da missão Soyuz TMA-16M Créditos: NASA/Bill Ingalls

Ao longo dos últimos 340 dias, Scott Kelly deu-nos um novo olhar sobre a Terra nas redes sociais, mostrando o pôr-do-sol visto lá de cima, as enormes tempestades nos Estados Unidos, as ilhas da Polinésia Francesa que “são tão remotas como belas”. Ao mesmo tempo, cá em baixo, uma equipa de especialistas norte-americanos e russos tentam, analisando-o, responder a uma pergunta: o que acontece ao corpo humano quando se fica tanto tempo no espaço? Uma interrogação que parece saída de mais um filme protagonizado por Matt Damon algures em Marte… e que, na verdade, tem mais em comum com ele do que parece: estudar os efeitos do espaço em Scott Kelly e Mikhail Korniyenko permitirá prever o que pode acontecer à equipa de astronautas que um dia chegar pela primeira vez ao planeta vermelho.

Os cientistas sabem, por exemplo, que o formato do olho de um astronauta altera-se quando ele permanece durante longos períodos de tempo no espaço, mas esse efeito só foi estudado para uma janela temporal de seis meses. Os fluidos corporais também mudam quando expostos à microgravidade e isso pode afetar a pressão intracranial. Outra preocupação da NASA está relacionada com o sistema imunitário: a agência espacial não tem a certeza até que ponto os astronautas ficam mais vulneráveis à aterosclerose, inflamação das veias sanguíneas que as pode obstruir. Mas sabem que a exposição à microgravidade, às radiações e a contextos de isolamento e stress trazem consequências que precisam de ser contornadas. “O sistema imunitário pode ser negativamente afetado por muitos fatores associados ao voo. A própria microgravidade pode inibir diretamente o funcionamento das célula imunitárias”, explicou o imunologista Brian Crucian num vídeo de 2014.

scott kelly

O astronauta Scott Kelly numa missão Soyuz. Créditos: NASA

A monitorização destas questões vai ser possível graças a três estratégias delineadas pela NASA. A primeira obriga os dois astronautas a manterem um exercício que seja útil para que os psiquiatras estudem a sua saúde mental: Scott Kelly, por exemplo, escolheu manter um diário que envia para a equipa da NASA e onde relata o quotidiano de quem passa quase um ano com os pés fora do planeta azul. A par desse diário usa diariamente as redes sociais, nomeadamente o Twitter e o Instagram, que não servem apenas para nos dar a conhecer lá por cima, mas também como uma análise ao estado psicológico do norte-americano. A segunda estratégia inclui exercícios físicos: a microgravidade pode atrofiar os músculos e contribuir para a perda de massa nos ossos, por isso dois estudos vão tentar encontrar novas formas de proteger o corpo dos dois cientistas.

É a terceira estratégia que mais suscita a atenção do público. Cá na Terra está um terceiro astronauta debaixo de olho da NASA: Mark Kelly, o irmão gémeo de Scott. Através das análises e exames que Scott tem feito a bordo da Estação Espacial Internacional, os cientistas vão poder comparar as alterações que existem entre dois humanos geneticamente idênticos expostos a condições muito diferentes. Do ponto de vista da Física, este é um fenómeno que já havia sido previsto pelo Paradoxo dos Gémeos, criado a partir da Teoria da Relatividade Restrita, que diz que, devido à dilatação do tempo, um homem que viaje no espaço voltará mais novo a casa do que o seu irmão gémeo que fique na Terra. Isto é teoricamente verdade porque para o astronauta na Estação Espacial o tempo vai passar 3 milissegundos mais devagar do que para o seu irmão. O que Mark Scotty explicou ao The Guardian é que “o tempo vai passar mais devagar para o Scott porque ele vai estar a viajar a uma maior velocidade relativa do que eu”.

BAIKONUR, KAZAKHSTAN - MARCH 26: Expedition 43 NASA Astronaut Scott Kelly, left, and his identical twin brother Mark Kelly, pose for a photograph Thursday, March 26, 2015 at the Cosmonaut Hotel in Baikonur, Kazakhstan. Scott Kelly, and Russian Cosmonauts Mikhail Kornienko, and Gennady Padalka of the Russian Federal Space Agency (Roscosmos) are scheduled to launch to the International Space Station in the Soyuz TMA-16M spacecraft from the Baikonur Cosmodrome in Kazakhstan March 28, Kazakh time (March 27 Eastern time.) As the one-year crew, Kelly and Kornienko will return to Earth on Soyuz TMA-18M in March 2016. (Photo by Bill Ingalls/NASA via Getty Images)

Scott Kelly (à esqueda) com o irmão Mark, à direita. Créditos: Bill Ingalls/NASA via Getty Images

Mas há mais: é que Scott Kelly pode simultaneamente voltar mais novo e mais velho que o irmão Mark, se se provar que os raios cósmicos têm influência no material genético. De acordo com alguns cientistas, esses raios podem diminuir a esperança de vida por acelerarem a degradação dos telómeros, que são partes dos cromossomas responsáveis por manter a sua estabilidade. Os cromossomas têm formato de um X e os telómeros encontram-se nas suas extremidades. Além de manterem a estrutura da sequência de ADN, podem (não há certezas) estar envolvidas no processo de envelhecimento porque encurtam-se de cada vez que as células se replicam e o ADN é copiado para a nova célula. Ou seja, apesar de mais novo na idade, Scott pode estar mais velho fisicamente falando.

Em experiência, pelo menos, estará. Ao longo de um ano, Scott Kelly fez nascer uma flor no espaço e comeu uma alface plantada nas alturas. Nem todos os homens se podem orgulhar de ter posto (mais?) vida fora da Terra. É por isso que o astronauta de 51 anos admite à CNN que vai ter saudades do cubículo onde viveu “como se estivesse a acampar, mas com mais higiene”: “Já voei no espaço quatro vezes, por isso vai ser difícil (…). Eu tenho estado aqui mesmo muito tempo e às vezes, quando penso nisso, sinto que tenho vivido toda a minha vida cá em cima”, explicou Scott Kelly.

Há muito para fazer cá em baixo, porque a aventura no espaço termina, mas é na Terra que se desenvolve a sequela. Ao fim de um ano a nadar no vácuo, Scott Kelly terá de se readaptar à gravidade, treinar as funções motoras, recuperar a orientação. Antes de tudo isto há um momento de tensão. Em três horas e meia, os dois astronautas vão ter de sair da Estação Espacial Internacional e enfrentar as temperaturas ardentes da cápsula que os levará a atravessar a atmosfera terrestre, a mais de 850 km/h. Depois a velocidade diminui suavemente até alcançar a 5,5 km/h, mesmo antes de aterrar. “Quando se olha para o espaço enorme entre nós e a velocidade envolvida, torna-se um assunto muito sério (…), mas estaremos prontos na próxima terça-feira”.

Quem passou um ano a seguir a aventura de Scott Kelly no espaço vai sentir falta das magníficas imagens que o astronauta deixava nas redes sociais. O Observador recolheu algumas das mais impressionantes. Veja-as na fotogaleria e recorde o fim da mais longa missão tripulada do mundo – ou então veja como ela está apenas a começar.

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