O “todo poderoso” cardeal Tarcisio Bertone — o influente secretário de Estado do Vaticano (equivalente a primeiro-ministro) no papado de Bento XVI — decidiu mudar-se para uma casa quando abandonou o governo vaticanista. O luxo, os mais de 700 metros quadrados (100 no exterior), e os dois milhões de euros que terá custado deixaram desconfortável o Papa Francisco. Mas afinal, sabe-se agora, havia mais: parte desse dinheiro foi desviado de fundos do hospital pediátrico Bambino Gesù e dois ex-dirigentes vão ser julgados pelo tribunal do Vaticano pelo desvio de dinheiro.

O antigo presidente do hospital, Giuseppe Profiti, e o antigo tesoureiro, Massimo Spina, vão agora julgados por desvio de fundos, enquanto Bertone continua a viver na casa de luxo (a 50 metros da muito mais modesta residência do Papa) — não irá sentar-se no banco dos réus.

O procurador responsável pelo caso, Giampiero Milano, acusa os dois homens de terem “utilizado de forma ilegal e a favor do empresário [Gianantonio] Bandera, dinheiro pertencente à Fundação Bambino Gesù, dinheiro de que podiam dispor devido às funções que detinham”. De acordo com a acusação, “foram pagos, para fins totalmente extra-institucionais, 422.055,16 euros, utilizados para as obras de restauro de um edifício propriedade do Governo do Vaticano e destinado à residência do secretário de Estado emérito [Tarcisio Bertone] e para beneficiar a empresa de Gianantonio Bandera”. Tudo terá acontecido, segundo o La Repubblica, entre novembro de 2013 e maio de 2014.

Bertone diz que não conhecia a origem das verbas

O caso veio a público quando o jornal L’Espresso noticiou que a remodelação da penthouse de Bertone tinha sido feita com 400 mil euros da Fundação Bambino Gesù, que tem por objetivo angariar fundos para o hospital de crianças. O antigo “primeiro-ministro” vaticanista (entre 2006 e 2013) disse que não sabia da origem das verbas, mas fez um donativo (alguns jornais sugerem que por pressão de Francisco) de 150 mil euros ao hospital.

Logo quando comprou a mansão, Bertone tentou justificar-se: “O apartamento é espaçoso, como é normal nas residências nos antigos palácios do Vaticano, e completamente restaurado à minha custa”. O La Repubblica escreveu na altura que o Papa Francisco ficou “furioso” com a compra de Bertone, mas o antigo secretário de Estado afirmou que Francisco lhe telefonou, mas para manifestar a sua “compreensão e o desagrado pelos ataques que me foram dirigidos a propósito do apartamento”.