O jornal El País analisou dezenas de páginas da internet e perfis em diversas redes sociais para sustentar a tese de que a máquina de fabrico de notícias tendenciosas com origem na Rússia, que já tinha plantado notícias falsas por altura das eleições presidenciais norte-americanas e francesas, também está a funcionar a todo o vapor na Catalunha, difundido “notícias falsas e meias-verdades” sobre o processo independentista catalão.

Faltam duas semanas para o referendo marcado pela Generalitat (governo catalão) mas Madrid está em guerra aberta com Barcelona. O Tribunal Constitucional espanhol já declarou a eventual consulta popular como ilegal, por ir contra o princípio de unidade territorial. Mas, segundo o El País, os russos estão a dar uma ajudinha aos revoltosos, publicando notícias em páginas às quais o jornal espanhol “pró-rússia” como a RT (antiga Russia Today, uma estação de televisão financiada pelo governo russo)

“Após campanhas secretas em favor da Brexit, Marine Le Pen e da extrema-direita alemã, o Kremlin viu na independência catalã outra oportunidade para aprofundar as fraturas europeias e consolidar a sua influência internacional, utilizando sites onde publicam apenas vozes a favor do referendo, ativistas como Julian Assange e uma legião de bots, bem como milhões de perfis automatizados em redes sociais capazes de converter uma mentira numa tendência partilhada milhões de vezes”, escreve o El País.

O jornal dá como exemplo uma das 42 notícias que o site RT publicou desde 28 de agosto sobre a crise na Catalunha, na qual se lê: “A UE respeitará a independência da Catalunha, mas o país terá que passar por um processo de adesão”. Ora, a posição da União Europeia é a de reiterar a chamada “doutrina Prodi” ( nome de um antigo presidente da Comissão Europeia: Romano Prodi) que estipulou que um Estado só teria acesso à União Europeia se respeitar as premissas constitucionais do antigo país.

Na semana passada, o atual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, preveniu que iria considerar “as decisões do Tribunal Constitucional espanhol e do parlamento espanhol” antes de reconhecer uma declaração de independência da Catalunha.

Mas se esta notícia da RT pode, de facto, ser refutada depois um rápido fact-check, os outros exemplos que o jornal oferece passam muito por acusar dois homens em particular de promoverem agendas opostas ao governo de Madrid — e ao próprio El País que já se declarou contra as intenções da Generalitat: Julian Assange e Edward Snowden.

O problema, contudo, pode não ser a mensagem mas a forma “batoteira” como ela atinge um número desproporcional de partilhas, que a análise do jornal considerou impossível de atingir sem a utilização de seguidores falsos. De facto, uma análise detalhada de uma amostra de 5.000 seguidores do Assange no Twitter, fornecida pelo TwitterAudit ao El País, revela que 59% desses são perfis falsos.

Um dos exemplos citados pelo jornal como “promoção de ideais próximos da Rússia” também menciona o nome de Julian Assange. Dia 12 de setembro, o fundador do Wikileaks publicou na rede social Twitter um aviso que previa “ou nascimento da Catalunha como país ou guerra civil”.

Esse tweet foi partilhado 1,700 vezes e de acordo com os dados da Audiense , uma plataforma de análise social, apenas em setembro, Assange obteve quase 940 mil menções no Twitter , a grande maioria com repercussões sobre a independência com palavras-chave como #Catalunha , #1oct , #Catalonianreferendum ,#O1º ou #Rajoy.

Numa semana em que a justiça espanhola e a Generalitat entraram em rota de colisão frontal, o tweet mais influente do mundo sobre o assunto foi o de Julian Assange de 15 de setembro onde o ativista fazia um claro pedido: “Peço a todos que apoiem o direito da Catalunha à autodeterminação. A Espanha não pode permitir que se normalizem atos repressivos para impedir a votação”. A mensagem obteve 12.023 partilhas. Também Edward Snowden, o maior delator de segredos da segurança interna norte-americana da história, foi alvo das investigações do El País.

“A repressão da Espanha a declarações, políticas e manifestações desconfortáveis ​​na Catalunha é uma violação dos direitos humanos”, uma das frases pró-independência mais “populares” no Twitter. Escreveu-a Snowden e a sua opinião angariou mais 8.000 partilhas e 8.000 “likes”.

Um outro exemplo de como perfis falsos podem estar a empolar a popularidade e a “contaminação” destas notícias é também obra de Assange. Há cerca de uma semana, o ativista australiano colocou online um link para um artigo de Justin Raimondo, diretor do site AntiWar e anti-globalização ativista que apoiou Trump. O artigo intitula-se “Catalunha: uma praça espanhola da Tiananmen?”e compara os protestos em Barcelona — e a ação das autoridades espanholas — com aqueles que aconteceram em Pequim em 1989, que foram duramente reprimidos pelo regime chinês e onde morreram centenas de pessoas.

Logo depois, perfis anónimos com milhares de seguidores que tendem usaram a mesma comparação entre Barcelona e Tiananmen. Por exemplo @Ian56789 , com 30.300 seguidores, ou @UncleRuthless , com 5.179, ambos suspeitos de serem bots, ou perfis que apenas debitam mensagens pré-programadas, segundo a junção de palavras-chave que vão buscar notícias específicas e as reproduzem a uma velocidade que ultrapassa em muito aquela conseguida por um humano.