Durante pelo menos 17 dias, uma orca em vias de extinção carregou a sua cria morta à nascença na própria cabeça. Ainda que a prática seja habitual em golfinhos, orcas e outros mamíferos marinhos, os especialistas garantem que este foi o luto mais longo que já presenciaram. Este domingo, a orca terminou o luto e voltou a nadar em conjunto com a comunidade.

A 24 de julho, a cria de Tahlequah ou J35 – os nomes dados pelos investigadores à orca – morreu pouco depois de nascer. A partir daí, durante mais de duas semanas e mil milhas, a orca transportou o cadáver da cria ao longo do Oceano Pacífico, junto à costa dos Estados Unidos e do Canadá. Foi Ken Balcomb, diretor e fundador do Centro de Investigação de Baleias dos Estados Unidos, que viu a orca de 20 anos a nadar novamente com a restante comunidade.

“J35 passou pela minha janela hoje com outras baleias e parece vigorosa e saudável. A terrível experiência de vê-la transportar a cria durante pelo menos 17 dias e mil milhas terminou, graças a Deus”, afirmou Ken Balcomb em comunicado.

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O caso de J35 atraiu atenção para a cada vez mais iminente extinção das orcas: nesta comunidade de 75 orcas divididas em três grupos que vivem entre o sul da ilha de Vancouver, no Canadá, e o estado norte-americano de Washington, há três anos que não nasce uma cria viva. Nas últimas duas décadas, nasceram 40 e morreram 72.

Ainda que as orcas tenham normalmente vidas longas – em 2016, uma orca morreu na zona de Seattle aos 106 anos -, precisam de voltar a reproduzir antes de que fiquem demasiado velhas para conseguir, de facto, dar à luz. Se isto não acontecer, as comunidades cada vez mais envelhecidas vão ficando progressivamente mais reduzidas com o passar dos anos, até que a última orca morra. A surdez provocada pelo barulho dos barcos tem agravado o principal problema destas comunidades: a escassez de salmão chinook, a principal fonte de alimentação. E mesmo quando encontram um salmão, as orcas são permanentemente envenenadas.

As barragens, a poluição e a pesca têm afastado as populações de salmão chinook desta zona do Pacífico. Tanto os ambientalistas como a indústria da pesca têm pedido a remoção das barragens construídas ao longo do rio Snake, a que atribuem a responsabilidade do declínio do peixe existente no oceano.

“A questão ambiental refletida na história de J35 é que tanto os Estados Unidos como o Canadá devem redobrar os esforços para restaurar a existência de salmão selvagem quanto alimentação para as orcas residentes nesta região”, explicou Ken Balcomb ao The Guardian.