Fotojornalismo

Retrato de uma comunidade que vive pelo lixo e morre pelo lixo exposto por Mário Cruz

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Um rio de lixo nas Filipinas é meio de subsistência e sentença de morte para milhões, uma realidade documentada pelo fotojornalista Mário Cruz, que chega sábado a exposição e livro.

José Sena Goulão/LUSA

Um rio de lixo nas Filipinas é o meio de subsistência e a sentença de morte dos milhões que vivem em barracas à sua volta, uma realidade documentada pelo fotojornalista Mário Cruz, que chega sábado a exposição e livro.

Living Among What’s Left Behind” é o resultado de um trabalho que levou Mário Cruz a viajar até às Filipinas, à cidade de Manila, para fotografar o rio Pasig, atulhado de lixo e declarado morto na década de 1990, mas sobretudo para retratar a vida das comunidades que vivem junto e sobre ele.

Quando se entra na exposição — que vai estar patente até 26 de maio no Palácio Anjos, em Algés –, a primeira fotografia que se vê faz uma espécie de introdução ao tema, mostrando em primeiro plano uma comunidade de barracas à beira de um rio de lixo, em contraste com os arranha-céus de Manila, ao fundo.

São milhões os filipinos, a maioria vindos do interior do país em busca de trabalho e de uma vida melhor em Manila, que acabaram a viver e a sobreviver no meio do lixo e graças ao lixo que eles próprios produzem e a seguir recolhem, num ciclo que faz aumentar catástrofes, como as cheias que atiram ondas de lixo para dentro das casas, e diminuir a qualidade e esperança de vida.

Tentando perceber “que ondas eram aquelas e de onde vinha o lixo”, Mário Cruz viajou até Manila e, com a ajuda da Comissão de Reabilitação do Rio — entidade governamental que tenta tirar o lixo dos rios –, infiltrou-se na comunidade, o que não é fácil, se se atender ao facto de ser uma região onde a ordem é mantida por criminosos, que chegam a armar crianças com armas de plástico para afugentarem visitas indesejadas, como fotógrafos, contou Mário Cruz, durante a apresentação da exposição à imprensa.

“Percebi que é a realidade para milhões de pessoas há muitas gerações. [O rio] continua extremamente poluído e sobretudo nos estuários, onde existe mais densidade populacional e onde muitas vezes já nem se consegue ver a água”, relatou à Lusa.

As casas — barracas de madeira, chapa e ferro — empilhadas e amontoadas sobre o rio são construídas pelos próprios moradores, pelo que, apesar do alargamento dos estuários dos rios, as sucessivas construções têm levado ao seu estreitamento, aumentando a frequência e intensidade das cheias que provocam a morte, sobretudo de crianças, cujos corpos se tornam difíceis de encontrar no meio do lixo.

“A mim interessa-me sempre a parte humana, daí ter-me concentrado nas comunidades, a mim interessa-me sobretudo as consequências, quero ir para além da superfície. O lixo está presente neste trabalho, o rio também está, mas o meu principal foco foi as comunidades, isso interessou-me sobretudo por perceber que são as vítimas e ao mesmo tempo os culpados”, declarou.

“Torna-se curioso porque muita destas pessoas têm o problema do lixo, mas ao mesmo tempo o lixo é a solução para a vida delas: passam grande parte do dia a apanhar materiais para reciclar no rio que eles próprios poluem. Estão presas a este círculo vicioso de poluição-alimento já há muitos, muitos anos”, disse, acrescentando que “é difícil as futuras gerações conseguirem sair deste rio de lixo e desta vida a que parecem que já estão condenadas antes de nascerem”.

A morte também chega até estas pessoas através do seu trabalho, um trabalho que salva e condena, e uma das fotografias, exposta em grande formato numa parede, retrata precisamente “um dos casos mais dramáticos”, o de um jovem de 21 anos, que apanha lixo desde os 3 e que, atualmente, tem os pulmões obstruídos — devido a nano partículas inaladas mas também aos vapores tóxicos libertados por um rio putrefacto, onde por vezes também flutuam pessoas e animais mortos.

A imagem mostra um jovem magro, ligado a oxigénio e deitado numa cama, sobre chão de pedra e gravilha, sem absolutamente mais nada à volta.

Mário Cruz explica: A família do jovem recebe 30 euros por mês, o tratamento de que o jovem precisa custa 300 euros, portanto tiveram que vender tudo o que tinham, incluindo os tapetes.

A fotografia que ocupa posição central na mostra é a imagem que valeu a Mário Cruz a nomeação para um dos três primeiros lugares na categoria ambiente do World Press Photo, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, a de uma criança sobre um colchão que flutua sobre o lixo.

A fotografia está exposta sozinha numa sala, cujo chão está coberto de lixo plástico e sobre o qual os visitantes são convidados a caminhar, uma forma que o fotógrafo encontrou de “alertar e criar impacto”.

Quem visita a exposição, se quiser ver a fotografia de perto, vai ter que enfrentar o problema, vai ter que atravessar o lixo de plástico. Isso é muito importante para nós, que as pessoas saiam daqui com outra ideia de sustentabilidade, que estejam alerta. A maneira como comunico através da fotografia é um bocado isso, é alertar. Eu, ao longo dos anos, tenho gritado muito através da fotografia”.

A exposição é esse alerta, mas é-o sobretudo o livro que vai ser lançado na mesma altura, um “objeto que perturba” e que “não é uma viagem agradável, mas é uma viagem absolutamente necessária”.

As capas foram produzidas através de 160 quilos de lixo, todas foram feitas à mão e cada cópia tem uma capa original.

“Dessa forma queremos continuar a onda de alerta: quando a pessoa tocar no livro vai tocar automaticamente no problema”.

Para este trabalho, Mário Cruz, que sempre trabalhou a preto e branco, explorou outras técnicas, como a cor, da mesma forma que reservou uma parte da exposição para fotografias instantâneas, de retratos das famílias que habitam aqueles locais.

O vídeo também ganha lugar neste espaço, para transmitir alguma ideia de movimento, designadamente para mostrar a dificuldade que os “guerreiros do rio” — responsáveis pela sua limpeza — sentem ao tentar atravessá-lo.

Mário Cruz — que é fotojornalista da agência Lusa, mas desenvolveu este projeto a título pessoal — confessa que gosta de pensar que faz “fotografia de intervenção”, uma fotografia que tem que ser partilhada, por isso espera que os visitantes “fotografem o mais possível e mandem a mensagem para fora, para o maior numero de pessoas”.

“Quando digo fotografia de intervenção é uma fotografia que pretende mudar alguma coisa. Acredito que estas fotografias do rio Pasig podem ajudar a mudar alguma coisa nesse aspeto. O melhor resultado possível era eu conseguir voltar ao rio Pasig daqui a alguns anos e poder fotografar o rio de outra forma”.

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