Rádio Observador

Fotojornalismo

Retrato de uma comunidade que vive pelo lixo e morre pelo lixo exposto por Mário Cruz

128

Um rio de lixo nas Filipinas é meio de subsistência e sentença de morte para milhões, uma realidade documentada pelo fotojornalista Mário Cruz, que chega sábado a exposição e livro.

José Sena Goulão/LUSA

Um rio de lixo nas Filipinas é o meio de subsistência e a sentença de morte dos milhões que vivem em barracas à sua volta, uma realidade documentada pelo fotojornalista Mário Cruz, que chega sábado a exposição e livro.

Living Among What’s Left Behind” é o resultado de um trabalho que levou Mário Cruz a viajar até às Filipinas, à cidade de Manila, para fotografar o rio Pasig, atulhado de lixo e declarado morto na década de 1990, mas sobretudo para retratar a vida das comunidades que vivem junto e sobre ele.

Quando se entra na exposição — que vai estar patente até 26 de maio no Palácio Anjos, em Algés –, a primeira fotografia que se vê faz uma espécie de introdução ao tema, mostrando em primeiro plano uma comunidade de barracas à beira de um rio de lixo, em contraste com os arranha-céus de Manila, ao fundo.

São milhões os filipinos, a maioria vindos do interior do país em busca de trabalho e de uma vida melhor em Manila, que acabaram a viver e a sobreviver no meio do lixo e graças ao lixo que eles próprios produzem e a seguir recolhem, num ciclo que faz aumentar catástrofes, como as cheias que atiram ondas de lixo para dentro das casas, e diminuir a qualidade e esperança de vida.

Tentando perceber “que ondas eram aquelas e de onde vinha o lixo”, Mário Cruz viajou até Manila e, com a ajuda da Comissão de Reabilitação do Rio — entidade governamental que tenta tirar o lixo dos rios –, infiltrou-se na comunidade, o que não é fácil, se se atender ao facto de ser uma região onde a ordem é mantida por criminosos, que chegam a armar crianças com armas de plástico para afugentarem visitas indesejadas, como fotógrafos, contou Mário Cruz, durante a apresentação da exposição à imprensa.

“Percebi que é a realidade para milhões de pessoas há muitas gerações. [O rio] continua extremamente poluído e sobretudo nos estuários, onde existe mais densidade populacional e onde muitas vezes já nem se consegue ver a água”, relatou à Lusa.

As casas — barracas de madeira, chapa e ferro — empilhadas e amontoadas sobre o rio são construídas pelos próprios moradores, pelo que, apesar do alargamento dos estuários dos rios, as sucessivas construções têm levado ao seu estreitamento, aumentando a frequência e intensidade das cheias que provocam a morte, sobretudo de crianças, cujos corpos se tornam difíceis de encontrar no meio do lixo.

“A mim interessa-me sempre a parte humana, daí ter-me concentrado nas comunidades, a mim interessa-me sobretudo as consequências, quero ir para além da superfície. O lixo está presente neste trabalho, o rio também está, mas o meu principal foco foi as comunidades, isso interessou-me sobretudo por perceber que são as vítimas e ao mesmo tempo os culpados”, declarou.

“Torna-se curioso porque muita destas pessoas têm o problema do lixo, mas ao mesmo tempo o lixo é a solução para a vida delas: passam grande parte do dia a apanhar materiais para reciclar no rio que eles próprios poluem. Estão presas a este círculo vicioso de poluição-alimento já há muitos, muitos anos”, disse, acrescentando que “é difícil as futuras gerações conseguirem sair deste rio de lixo e desta vida a que parecem que já estão condenadas antes de nascerem”.

A morte também chega até estas pessoas através do seu trabalho, um trabalho que salva e condena, e uma das fotografias, exposta em grande formato numa parede, retrata precisamente “um dos casos mais dramáticos”, o de um jovem de 21 anos, que apanha lixo desde os 3 e que, atualmente, tem os pulmões obstruídos — devido a nano partículas inaladas mas também aos vapores tóxicos libertados por um rio putrefacto, onde por vezes também flutuam pessoas e animais mortos.

A imagem mostra um jovem magro, ligado a oxigénio e deitado numa cama, sobre chão de pedra e gravilha, sem absolutamente mais nada à volta.

Mário Cruz explica: A família do jovem recebe 30 euros por mês, o tratamento de que o jovem precisa custa 300 euros, portanto tiveram que vender tudo o que tinham, incluindo os tapetes.

A fotografia que ocupa posição central na mostra é a imagem que valeu a Mário Cruz a nomeação para um dos três primeiros lugares na categoria ambiente do World Press Photo, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, a de uma criança sobre um colchão que flutua sobre o lixo.

A fotografia está exposta sozinha numa sala, cujo chão está coberto de lixo plástico e sobre o qual os visitantes são convidados a caminhar, uma forma que o fotógrafo encontrou de “alertar e criar impacto”.

Quem visita a exposição, se quiser ver a fotografia de perto, vai ter que enfrentar o problema, vai ter que atravessar o lixo de plástico. Isso é muito importante para nós, que as pessoas saiam daqui com outra ideia de sustentabilidade, que estejam alerta. A maneira como comunico através da fotografia é um bocado isso, é alertar. Eu, ao longo dos anos, tenho gritado muito através da fotografia”.

A exposição é esse alerta, mas é-o sobretudo o livro que vai ser lançado na mesma altura, um “objeto que perturba” e que “não é uma viagem agradável, mas é uma viagem absolutamente necessária”.

As capas foram produzidas através de 160 quilos de lixo, todas foram feitas à mão e cada cópia tem uma capa original.

“Dessa forma queremos continuar a onda de alerta: quando a pessoa tocar no livro vai tocar automaticamente no problema”.

Para este trabalho, Mário Cruz, que sempre trabalhou a preto e branco, explorou outras técnicas, como a cor, da mesma forma que reservou uma parte da exposição para fotografias instantâneas, de retratos das famílias que habitam aqueles locais.

O vídeo também ganha lugar neste espaço, para transmitir alguma ideia de movimento, designadamente para mostrar a dificuldade que os “guerreiros do rio” — responsáveis pela sua limpeza — sentem ao tentar atravessá-lo.

Mário Cruz — que é fotojornalista da agência Lusa, mas desenvolveu este projeto a título pessoal — confessa que gosta de pensar que faz “fotografia de intervenção”, uma fotografia que tem que ser partilhada, por isso espera que os visitantes “fotografem o mais possível e mandem a mensagem para fora, para o maior numero de pessoas”.

“Quando digo fotografia de intervenção é uma fotografia que pretende mudar alguma coisa. Acredito que estas fotografias do rio Pasig podem ajudar a mudar alguma coisa nesse aspeto. O melhor resultado possível era eu conseguir voltar ao rio Pasig daqui a alguns anos e poder fotografar o rio de outra forma”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)