A polémica teve início no dia 25 de abril, quando o New York Times (NYT) publicou um cartoon onde Donald Trump surge representado com um kipá (símbolo judaico) na cabeça e uns óculos escuros sendo guiado por um cão com a cara do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Rapidamente o jornal norte-americano foi alvo de acusações de antissemitismo, incluindo críticas de Donald Trump e do seu filho mais velho, tendo decidido retirar o desenho em questão e emitido uma nota editorial a pedir desculpa pela publicação.

Esta terça-feira, o NYT voltou a abordar o assunto através de um editorial dedicado ao tema do antissemitismo, onde também explicou como é que aquele cartoon foi parar ao jornal. “O desenho foi escolhido através de um serviço de distribuição por um editor que não reconheceu o seu antissemitismo”, escreve o NYT, acrescentando que, quando o cartoon foi publicado, percebeu-se a “evidência de um profundo perigo — não apenas de antissemitismo mas também da dormência face ao seu aparecimento, da maneira subtil como este antigo e duradouro preconceito é mais uma vez trabalhado para chegar à visão pública e conversa comum”.

O editorial do The New York Times foi publicado esta terça-feira

No editorial, o The New York Times diz ainda que “as imagens antissemitas são particularmente perigosas agora”, uma vez que o número de ataques contra judeus americanos mais do que duplicou entre 2017 e 2018, de acordo com um relatório da Liga Antidifamação. O jornal dá também o exemplo de vários casos de ataques a judeus realizados nos Estados Unidos e na Europa nos últimos tempos por “homens que se identificam como supremacistas brancos”. “Durante décadas, a maioria dos judeus americanos sentia-se segura para praticar a sua religião, mas agora passam por detetores de metais para entrar em sinagogas e escolas”, acrescentou o jornal no artigo de opinião.

Este é também um período de crescente crítica a Israel, grande parte direcionada para o lado direito do seu governo e parte dele até mesmo questionando a própria fundação de Israel como um Estado judeu. Temos sido e continuamos a ser apoiantes de Israel e acreditamos que as críticas de boa-fé devem trabalhar para fortalecê-la a longo prazo, ao ajudá-la a permanecer fiel aos seus valores democráticos. Mas o antissionismo pode claramente servir como uma cobertura para o antissemitismo. — e algum do criticismo a Israel, como o cartoon demonstrou, é expressamente aberto em termos antissemitas”, escreveu o NYT.

Na altura em que o cartoon foi publicado, e depois de o jornal ter pedido desculpa, Donald Trump sublinhou que o NYT também lhe devia a ele próprio um pedido de desculpas “por todas as notícias falsas e corruptas que publicam diariamente”. Agora, no editorial, o jornal ataca e critica a pouca ação do Presidente dos Estados Unidos contra os grupos antissemitas no território norte-americano. “O Presidente Trump fez muito pouco para despertar a consciência nacional contra ele [o antissemitismo]”, atirou o NYT, acrescentando que Trump “praticou uma política de intolerância pela diversidade” e que “os ataques a alguns grupos minoritários ameaçam a segurança de todos os grupos minoritários”.

No último parágrafo do editorial, o NYT afirma que o facto de ter ficado em silêncio em 1930 e 1940, quando “o antissemitismo se ergueu e banhou o mundo de sangue”, é um “fracasso que ainda assombra este jornal”. “As desculpas são importantes, mas a obrigação mais profunda do The Times é concentrar-se em liderar o jornalismo sem pestanejar e a clara expressão editorial dos seus valores. Nos últimos anos, a sociedade tem mostrado sinais saudáveis ​​de maior sensibilidade a outras formas de fanatismo, mas, de alguma forma, o antissemitismo muitas vezes ainda pode ser descartado como uma doença apenas nas franjas da sociedade. Isso é um erro perigoso. Como os eventos recentes mostraram, é um problema muito mainstream”, terminou.

António considera decisão do The New York Times “preocupante”

Depois de a polémica estalar, o autor do desenho — que não sabia que o seu cartoon tinha sido publicado no jornal norte-americano — veio negar as acusações de antissemitismo. “É uma crítica à política de Israel, que tem uma conduta criminosa na Palestina, ao arrepio da ONU, e não aos judeus“, explicou o cartoonista António numa nota publicada no jornal Expresso.

A política de Benjamin Netanyahu, quer pela aproximação de eleições, quer por estar protegido por Donald Trump, que mudou a embaixada para Jerusalém reconhecendo a cidade como capital, e que permitiu primeiro a anexação dos Montes Golã e depois da Cisjordânia e mais anexações na Faixa de Gaza, significa um enterro do Acordo de Oslo, representa um aumento da violência verbal, física e política“, explicou o cartoonista.

António acrescentou ainda que se trata de “uma política cega que ignora os interesses dos palestinianos. E Donald Trump é um cego que vai atrás. A estrela de David [símbolo judaico] é um auxiliar de identificação de uma figura [Netanyahu] que não é muito conhecida em Portugal”.

Sobre a decisão do The New York Times em retirar o seu desenho, o cartoonista considerou “preocupante”. “Porque não é um jornal qualquer. O The New York Times ser vulnerável a grupos de pressão é uma coisa que não gostaria de ouvir. Mas pronto, é um facto. Provavelmente tem a ver com as suas linhas de financiamento, não sei. É um espetáculo triste”, explicou em declarações à SIC na segunda-feira.