“Descolonizar a mente” é proposta deste festival, que junta cinema, debates e oficinas, cujo tema desta edição são as várias identidades presentes na sociedade contemporânea. “Não apenas as de género, mas também as culturais, familiares, nacionais, sociais, artísticas, religiosas ou espirituais”, explica Dario Oliveira, fundador, diretor e programador do Porto/Post/Doc.

Num momento de mudança de paradigma social, em que dominam as redes sociais, a necessidade de pertencer a um grupo e uma comunicação vazia, o diretor acredita que o festival “não vem salvar o mundo”, mas espera contribuir para “uma maior discussão sobre a liberdade e o respeito dos vários tipos de identidades”.

Inserido no Programa Transmission, dedicado à música e à cultura pop, “Marianne & Leonard: Words Of Love”, de Nick Broomfield é o filme de abertura, um documentário que conta a história de amor de Leonard Cohen e uma das suas musas. No mesmo ciclo de cinema, o programador destaca a estreia nacional de três documentários do britânico Mike Christie, um dos realizadores em foco, juntamente com Benjamim Rivers, o lituano Audrius Stonys e a alemã Ute Aurand.

“Suede: The Insatiable Ones” é sobre a história da banda Suede, em que o vocalista quase se confessa em frente a câmara, explicando a longevidade e os altos e baixos do grupo. “Um dos meus filmes preferidos deste ano é o “Hansa Studios: Be The Wall 1976-90”, que mostra um dos estúdios mais lendários em Berlim, onde David Bowie, U2 ou Depeche Mode já gravaram. Muita da história da música e da sociedade europeia passa por aquele lugar, que hoje tem uma nova vida”, afirma Dario Oliveira.

“Hansa Studios: Be The Wall 1976-90”, Mike Christie

Já o “New Order: Decades” revela o momento em que os New Order entregam o seu reportório a uma série de música novos, à boleia de programa performativo que aconteceu em Inglaterra. “São três viagens à nossa memória”, sublinha o diretor.

O festival apresentará uma retrospetiva do realizador lituano, Audrius Stonys, autor premiado de obras documentais de carácter híbrido ou ensaístico, como “Earth of the Blind” (1992) ou “Uku Kai” (2006), dois dos setes filmes que serão exibidos. O realizador marcará presença no Porto/Post/Doc para apresentar as sessões e terá ainda carta branca a partir da obra do seu compatriota, Jonas Mekas, falecido recentemente.

Também Ute Aurand, “uma das referências da cinematografia experimental alemã”, vai estar no Porto em novembro. A realizadora apresentará uma seleção de onze curtas metragens da sua obra, onde a família, os amigos e as experiências diárias provam o carácter poético e intimista de um cinema que se foca nos afetos e nas relações humanas.

“Uku Kai”, Audrius Stonys

Competições, debates e oficinas para “formar novos públicos”

É na competição internacional que a organização “joga as cartas mais arriscadas”. Nesta edição, são nove os filmes autorais, muitos deles coproduções oriundas de países como Áustria, Suécia, Alemanha, Irlanda, Marrocos, Tailândia, Indonésia, Malásia ou Estados Unidos da América. Ainda no universo competitivo, o “Cinema Novo” dedica-se ao público escolar, formado em escolas de cinemas artísticas.

“Cinema Falado”, nome roubado ao ensaio de Caetano Veloso, é o ciclo que junta cinema português e galego, entre a ficção e documentário “puro e duro” há estreias absolutas. O programador destaca, por exemplo, a estreia no Porto, depois de ter passado no DocLisboa, de “Zé Pedro Rock’n’Roll”, um documentário de Diogo Varela Silva sobre o lendário guitarrista dos Xutos e Pontapés, falecido 30 de novembro de 2017, aos 61 anos. O filme recorre a imagens de arquivos públicos e pessoais para contar a história do músico, dos Xutos e do rock português.

“Zé Pedro Rock’n’Roll”, Diogo Varela Silva

Dario Oliveira chama de “participantes” ao público do Porto/Post/Doc, afinal eles não chegam só para ver filmes, mas também para intervir em discussões e debates. Da resistência palestiniana à condição não-binária de género, o Fórum do Real terá um programa de 12 filmes paralelos que servirão como ponto de partida para conversas em torno da noção de identidade. No calendário constam três painéis de oradores como o geógrafo Álvaro Domingues, o crítico Pedro Mexia ou a antropóloga Susana de Matos Viegas.

“O primeiro debate, Da Terra, problematizará a relação entre a construção identitária e o território; o segundo, Do Pensamento, visa uma aproximação de teor filosófico ao próprio conceito de identidade e de identidades, no plural; por fim, o terceiro painel, intitulado Das Imagens, pretende refletir sobre o cinema contemporâneo e o seu entretenimento com os mais diversos fluxos identitários, individuais e coletivos”, lê-se na programação.

“Apostar em novos públicos” é uma das prioridades do festival, que tem no Programa Educativo “uma atenção redobrada e ambiciosa”. Há sessões de cinema para maiores de quatro e seis anos e dois workshops. Em “Animanimals”, a realizadora de animação Julia Ocker vai ensinar crianças e adultos fazerem um personagem, e na oficina “Pés na Terra”, a bailarina profissional Myriam Szabo irá explorar o respeito pela natureza numa experiência sensorial que mistura o movimento, as palavras e o corpo.

“Água Mole”, Alexandra Ramires

Para assinalar os 20 anos da Agência da Curta Metragem, que tem promovido a curta portuguesa pelos quatro cantos do mundo, o festival deu carta branca às realizadoras Alice Eça Guimarães e Mónica Santos, que juntas selecionaram do arquivo da agência várias películas nacionais, entre documentários e ficção, que “falam dessa busca incessante das comunidades por uma vida melhor”. José Miguel Ribeiro, Alexandra Ramires, Diogo Costa Amarante e Regina Pessoa foram alguns realizadores escolhidos.

Para Dario Oliveira, diretor do Porto/Post/Doc, o cinema “espelha bem” as questões da identidade, e no festival garante que cada autor fala com “independência, conhecimento e liberdade” sobre o tema.

“Hoje em dia podem anunciar a vontade a morte do cinema, mas o cinema não morreu. Nunca houve tantos cineastas no mundo, como hoje. A forma como se está a fazer chegar os filmes é que esta a mudar bastante. Os festivais são cada vez mais necessários, pois fazem apresentações verdadeiramente cuidadas, filtradas e com curadoria”.

O Porto/Post/Doc acontece entre o Rivoli, Cinema Passos Manuel e o Planetário do Porto, os bilhetes rondam os 5€.