O Presidente da República condecorou postumamente a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen com o título do Grande-Colar da Ordem Militar de Santiago da Espada, que é quase exclusivamente entregue a chefes de Estado estrangeiros.

A escritora já tinha recebido em vida — em 1998 — a Grã-Cruz desta Ordem Militar, que distingue cidadãos com indiscutíveis méritos literários, científicos e artísticos. Sophia de Mello Breyner faz assim parte de uma galeria de distinguidos que incluía a escritora Agustina Bessa Luís, o poeta e ensaísta Vasco Graça Moura, o político e professor Diogo Freitas do Amaral, a pintora Paula Rego e a fadista Amália Rodrigues.

Agora, Marcelo decidiu atribuir-lhe o título de Grande-Colar, que é entregue maioritariamente a chefes de Estado estrangeiros (Presidentes da República e Reis) e que José Saramago também recebeu excecionalmente em 1999. O então presidente da República Jorge Sampaio requereu um decreto-lei especial para poder conceder este título ao escritor, na sequência da sua distinção com o Prémio Nobel da Literatura. Saramago era, até aqui, o único distinguido com este título que não tinha exercido funções de chefe de Estado. Agora, Sophia junta-se-lhe e torna-se a primeira mulher que não foi chefe de Estado a receber a condecoração.

Entre os anteriormente agraciados com a distinção agora atribuída a Sophia estão o Rei Juan Carlos, de Espanha, a Rainha Isabel II, do Reino Unido, e o antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

Título só se justifica face a “feitos de natureza extraordinária”

O fundamento para a atribuição terá sido apresentado presencialmente e informalmente por Marcelo num discurso de anúncio da decisão, antes do espetáculo no Teatro Nacional de São Carlos em que justificou a distinção:

“Entende o Presidente da República que merece a honra excecional da atribuição do Grande-Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada – desse modo ficando a ser, simbolicamente, a primeira mulher portuguesa e a primeira mulher não chefe de Estado a receber tal grau superlativo”.

Marcelo Rebelo de Sousa disse que ao longo destes cem anos se assistiu “à presença constante de Sophia”, que é lida hoje como era no século passado, “sempre rodeada de unanimidade”. “Isso mesmo se traduziu no facto singular de ser o único escritor do nosso tempo acolhido, e acolhido também unanimemente, no Panteão Nacional”, salientou.

Segundo o Presidente da República, “mais do que homenagear um poeta, importará reconhecer os seus poemas, reconhecer que continuam presentes, agradecer a sua importância”. “Não há nenhuma homenagem mais decisiva do que essa, descobrir que um escritor que viveu e escreveu num tempo situado, limitado, continua vivo noutros tempos, noutras circunstâncias”, considerou.

Marcelo Rebelo de Sousa descreveu os textos de Sophia de Mello Breyner como “lapidares, mas densos, luminosos, mas atentos às sombras, laboriosamente escritos, mas quase naturais, como se fossem ditados ou ouvidos”. “E ao mesmo tempo são poemas inequívocos na recusa das águas turvas das palavras ocas, da poesia como jogo verbal arcádico, técnico, em circuito fechado, sem referência ao mundo, ao mundo visível e ao mundo invisível”, acrescentou.

O título honorífico atribuído por Marcelo Rebelo de Sousa a Sophia de Mello Breyner destina-se, por regra, a chefes de Estado estrangeiros. Só é possível abrir exceções perante “antigos chefes de Estado e pessoas cujos feitos, de natureza extraordinária e especial relevância para Portugal, os tornem merecedores dessa distinção”.

(Mais) Uma condecoração surpresa

O anúncio aconteceu de surpresa antes de um espetáculo no Teatro Nacional São Carlos, incluído no programa de celebração do centenário do nascimento da escritora. O concerto aconteceu precisamente no dia (6 de novembro) em que se assinalam os 100 anos de nascimento de Sophia e a presença de Marcelo estava anunciada na sua agenda, pública no site da Presidência da República. Não se sabia de antemão, contudo, que o Presidente entregaria um título honorífico póstumo à poeta e ficcionista.

O título foi entregue por Marcelo Rebelo de Sousa à filha da escritora, Maria Andresen Sousa Tavares, antes do espetáculo. Esta não é a primeira vez que Marcelo Rebelo de Sousa decide condecorar autores em eventos de homenagem, sem anúncio prévio. Há pouco mais de um mês, a 28 de setembro, o Presidente da República tinha entregue ao escritor António Lobo Antunes, também sem aviso oficial anterior, o título Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, no encerramento de um colóquio sobre a sua obra na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Autora de uma vasta obra publicada, que passou pela poesia, com maior frequência, mas também pela tradução e pela prosa (entre contos, livros infantis, obra ensaística e escrita para teatro), Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro de 1919 no Porto e morreu a 2 de julho de 2004 em Lisboa.