Surgiu sob a capa do anonimato nas redes sociais e ninguém sabe ao certo quantos membros tem ou sequer quem os lidera. O Movimento Zero apareceu há cerca de seis meses e é um grupo sem rosto composto por agentes da GNR e PSP que luta por melhores condições de trabalho. Mas o movimento tem sido associado à extrema-direita e isso está a preocupar as forças policias, que têm marcada para quinta-feira, dia 21 de novembro, uma manifestação à porta da Assembleia da República. O Movimento Zero já fez saber que vai lá estar.

O aviso surgiu sob forma de alerta interno. Um grupo denominado “Comissão de Polícias pela dignidade e dignificação da Polícia” enviou na quinta-feira um comunicado à PSP e GNR onde chama à atenção para a ligação “indisfarçável” do Movimento Zero à extrema-direita e ao partido Chega, liderado por André Ventura. E alerta também para a presença deste grupo não-identificado no protesto de quinta-feira.

“Dizem [o Movimento Zero] querer transformar uma ação devidamente autorizada numa ação nunca antes concretizada. O que quer isto dizer? Arruaça?”, interroga o texto da comissão, citado pelo jornal Público. O comunicado alerta para a possibilidade de violência e confronto entre polícias na manifestação. E reforça também o perigo da alegada ideologia extremista dos membros do grupo: “Nós não podemos aceitar a tolerância para com aqueles que perfilham a intolerância como opção de vida e da sociedade”.

O presidente da Associação de Profissionais da GNR — que organiza a manifestação, em conjunto com a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia — está preocupado com os movimentos sem rosto que têm surgido dentro das forças de segurança. César Nogueira afirma que a culpa é do Governo: “O surgimento de grupos sem rosto só acontece e é necessário porque o Governo nada tem feito para os polícias. Tudo o que possa acontecer é da responsabilidade do Governo. Sempre”, afirma o representante dos Guardas, em declarações à Rádio Observador. César Nogueira garante que não sabe quem compõe a Comissão de Polícias, que redigiu o comunicado.

César Nogueira desconhece também a composição do Movimento Zero — diz apenas que são membros da GNR e PSP que estão “descontentes” — ou a respetiva ideologia. Admite, no entanto, a possibilidade de uma ligação ao extremismo: “Tanto podem ter ligações à extrema-direita como podem ter ligações à esquerda. Como estão envolvidos vários milhares de profissionais, nem todos terão a mesma ideologia”.

A opinião do presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT) vai no mesmo sentido. António Nunes explica, em declarações à Rádio Observador, que os membros do Movimento Zero podem ter vários tipos de ideologia e que estes grupos “inorgânicos” tendem a cair para o “populismo e radicalismo”. António Nunes alerta, no entanto, para um perigo maior: os “infiltrados”.

A constituição destes grupos, que são mais ou menos organizados nas redes sociais sem um enquadramento tradicional, estão suscetíveis de serem infiltrados por elementos extremistas que não querem levar por diante um processo reivindicativo, mas sim fazer uma alteração de ordem pública. E esta é que é a preocupação maior que se deve ter com este tipo de movimentos”, considera António Nunes, que garante ainda que o OSCOT está “atento”.

E pode este tipo de extremismo e desordem acontecer já na próxima quinta-feira, na Assembleia da República? O presidente do OSCOT alerta que sim.

César Nogueira também admite que a situação pode resvalar: “A nossa intenção é partirmos da manifestação com a razão e acabarmos também com ela. Agora, é lógico que pode acontecer uma coisa ou outra”. O representante dos Guardas apela a uma manifestação “pacífica” e a uma “postura digna de polícias”.

Esta manifestação acontece quase exatamente seis anos depois do primeiro protesto conjunto da PSP e GNR, também à porta da Assembleia. Na altura, os polícias furaram o cordão de segurança e avançaram sobre a escadaria. Um grupo de manifestantes envolveu-se depois em confrontos com a Polícia de Intervenção.

Em declarações à Rádio Observador, o presidente da Associação de Profissionais da GNR garante que, este ano, os profissionais não têm a intenção de ocupar a escadaria. “Não resolveria nada”, considera César Nogueira.

O Movimento Zero fez a primeira aparição pública em julho, na cerimónia de aniversário da PSP. Vários polícias, que vestiam t-shirts brancas, viraram as costas ao discurso do diretor nacional da PSP.

Hoje, o Movimento Zero tem mais de 52 mil gostos na página do Facebook, na qual alertam para injustiças e falta de condições de trabalho.