A novela começou antes da pausa para os compromissos internacionais. Cristiano Ronaldo foi substituído no jogo da Juventus com o AC Milan, saiu diretamente para o balneário visivelmente desagradado, viajou para Lisboa para se juntar à concentração da Seleção Nacional e em Itália depressa se delineou um plano para abafar, conter e resolver a situação. Quando voltasse a Turim, o jogador português iria pedir desculpa aos colegas, reunir informalmente com o vice-presidente Nedved e o diretor desportivo Fabio Paratici e deixar o assunto fechado.

Entretanto, Cristiano Ronaldo marcou um hat-trick contra a Lituânia e mais um golo ao Luxemburgo, chegou aos 99 pela Seleção e ajudou a carimbar o apuramento direto para o Euro 2020. Fernando Santos garantiu que “nunca teve dúvidas” de que o capitão português estava apto e pronto a jogar, o próprio Ronaldo chegou a atirar, durante o passeio matinal da equipa, que estava “muito bem” e pronto para “abrir o jornal nacional” mas a verdade é que no passado domingo, depois da dura vitória que valeu então a presença no Europeu, a verdade acabou por vir ao de cima.

“Tenho jogado limitado nas últimas três semanas. Não houve polémica nenhuma, vocês [jornalistas] é que a criaram. Tentei ajudar a Juventus. Ninguém gosta de ser substituído mas entendo, porque eu não estava bem. Nestes dois jogos também não estava a 100%. Sacrifiquei-me em prol da equipa. Aqui na Seleção podíamos ficar de fora e sacrifiquei-me também pela Seleção”, revelou o jogador, reconhecendo que saiu durante o jogo com o AC Milan porque não estava bem fisicamente. Passou quase uma semana, Ronaldo regressou a Itália e este sábado era dia de jogo contra a Atalanta, a surpreendente equipa de Gian Piero Gasperini que está em quinto na Serie A e que esta temporada já empatou com o Nápoles e o Manchester City na Liga dos Campeões. Maurizio Sarri, porém, apressou-se a dizer que Cristiano Ronaldo seria poupado este fim de semana.

“Nestes jogos não estava a 100%. Sacrifiquei-me em prol da equipa”. Cristiano Ronaldo quebra o silêncio sobre os problemas físicos

“No primeiro jogo com Portugal [com a Lituânia] ele já se sentia melhor, mas no segundo jogo [no Luxemburgo] voltou a ter os mesmos problemas que tivera connosco. Estamos a tentar recuperá-lo física e até mentalmente. Preparámos um plano de treino para ele e o objetivo é recuperá-lo para o jogo com o Atl. Madrid, para a Liga dos Campeões. Está a fazer um programa à parte, mas é quase certo que não jogará amanhã [sábado]. É quase 99% certo que não jogará”, disse Sarri na conferência de imprensa de antevisão da jornada, abrindo desde logo o jogo para reconhecer que o plano é ter Cristiano Ronaldo totalmente apto para a importante receção a Simeone e companhia a meio da semana.

Ainda sobre a reação do jogador português à saída contra o AC Milan, o treinador italiano limitou-se a garantir que não existia qualquer “necessidade de esclarecimentos”. “Eu já cá andava nos anos 90 e, entre os diletantes de então, as reações dos que eram substituídos eram as mesmas. Se fosse esclarecer a situação, passava a vida a fazer isso. Isto não é um problema”, concluiu Sarri. Certo é que este sábado, contra a Atalanta, Cristiano Ronaldo não constava da convocatória e a Juventus entrava em campo com Higuaín e Dybala na frente, apoiados por Bernardeschi nas costas.

Face às restrições físicas de Cristiano Ronaldo, Dybala foi titular contra a Atalanta

Na primeira parte, a Atalanta foi constantemente superior à Juventus e chegou a beneficiar de uma grande penalidade, cometida por Khedira por mão na bola, mas Musa Barrow acertou na trave e desperdiçou a ocasião (17′). A equipa de Gasperini jogou sempre com as linhas muito subidas, pressionando e empurrando o conjunto adversário para a própria grande área, e a Juventus só conseguiu mesmo criar algum perigo já dentro dos últimos cinco minutos antes do intervalo, através de um livre direto de Pjanic que passou ao lado (41′). Já sem Bernardeschi, que saiu lesionado no primeiro tempo e foi substituído por Ramsey, a equipa de Maurizio Sarri estava ao intervalo empatada com uma Atalanta que estava apostada em conquistar os três pontos — rematou 12 vezes, um número que a Juventus não permitia desde dezembro de 2017, há quase dois anos.

Na segunda parte, a Atalanta conseguiu chegar à vantagem com um golo de Gosens, que cabeceou ao segundo poste depois de um lance de insistência de Musa Barrow, o jogador que no primeiro tempo falhou a grande penalidade (56′). Sarri procurou alongar a equipa no relvado, ao fazer entrar Douglas Costa e Emre Can para os lugares de Bentancur e Khedira, mas o conjunto de Gasperini ia mantendo os setores subidos o suficiente para conter as investidas adversárias e resguardar a vantagem. Ainda assim, a Juventus acabou por conseguir dar a volta ao resultado em menos de dez minutos, já dentro do último quarto de hora, com dois golos de Higuaín: o avançado argentino, que se mudou para Itália este verão à boleia da mesma viagem de Sarri do Chelsea para Itália, resolveu praticamente sozinho um jogo muito difícil para a equipa de Cristiano Ronaldo que poderia até ter colocado em causa a liderança da Serie A. Até ao fim, Higuaín ainda construiu praticamente sozinho uma jogada de contra-ataque que deu o terceiro golo, por intermédio de Dybala.