O ilustrador Albert Uderzo, co-autor da famosa série de banda desenhada Astérix, morreu esta terça-feira. Tinha 92 anos. A informação foi avançada à Agência France Press por familiares. “Ele morreu enquanto dormia na sua casa em Neuilly, de ataque cardíaco não relacionado com o coronavirus”, confirmou o genro, Bernard de Choisy, adiantando que Uderzo se sentia “cansado” há já algumas semanas.

Uderzo criou Astérix — a história de uma irredutível aldeia de gauleses que conseguem evitar a conquista pelos romanos graças à poção mágica que o druida Panoramix prepara — com o escritor e argumentista René Goscinny em 1959, para o jornal Pilote. O primeiro álbum da famosa série, Astérix, o Gaulês, foi publicado dois anos depois, sendo seguido por Astérix e os Normandos. Lançado em 1966, este último vendeu mais de um milhão de exemplares. Nesses anos, a série tornou-se tão famosa que o primeiro satélite francês, lançado em 1965, se chamou Astérix-1.

Mais de 60 anos depois da criação da história dos “irredutíveis gauleses”, a banda desenhada permanece uma das mais populares de sempre. As aventuras do pequeno Astérix e do seu grande e forte companheiro Obélix venderam perto de de 400 milhões de exemplares em todo o mundo e inspiraram mais de uma dezena de filmes, com personagens reais e animadas. A série está traduzida em mais de 107 línguas e dialetos, incluindo o mirandês.

O Le Monde chama a Urdezo “um monumento, em todos os sentidos das palavras”, que agora desaparece. Outro jornal francês, Le Figaro, descreve-o como um “gigante de talento monstruoso”.

Uderzo e o “irmão” Goscinny nos anos 70 (STAFF/AFP via Getty Images)

Albert Uderzo nasceu a 25 de abril de 1927 em Fismes, uma pequena vila na região de Marne. Tal como Goscinny, que era filho de um polaco e de uma ucraniana, Uderzo também nasceu no seio de uma família de imigrantes. O seu pai, italiano, era carpinteiro de profissão. Albert, que nasceu Alberto, decidiu anos mais tarde retirar o “o” do seu nome e torná-lo “mais francês”. A má imagem que os italianos tinham naqueles tempos, fez com que Uderzo tivesse uma infância por vezes difícil, como o próprio veio a admitir.

Quando tinha dois anos, a família mudou-se para Clichy-sous-Bois, nos arredores de Paris, e foi aí que Uderzo, que sonhava em ser palhaço, cresceu e passou alguns dos melhores anos da sua vida. O grande sentido de humor sempre foi uma das principais características de Uderzo, e isso transparecia nos desenhos que fazia.

O talento para as artes gráficas evidenciou-se muito cedo. Na sua autobiografia, Uderzo se raconte, conta como, no jardim de infância, deixou a educadora impressionada com um desenho que fez a partir de uma fábula de La Fontaine. A professora, que era casada com o diretor da escola, apressou-se a mostrá-lo ao marido, que ofereceu ao pequeno Albert uma caixa de lápis de cor. Foi assim que, já em casa, a família descobriu que Uderzo era daltónico.

A carreira de ilustrador arrancou na década de 1940, quando publicou os primeiros desenhos no jornal juvenil OK, sob o nome Al Uderzo. Em 1951, conheceu René Goscinny, de quem se tornou imediatamente amigo. Trabalhavam em conjunto na série Astérix durante cerca de 20 anos, até à morte de Goscinny. O argumentista morreu inesperadamente em novembro de 1977, aos 51 anos, de ataque cardíaco. O último álbum em que participou, Astérix entre os Belgas, saiu em 1979.

A partir dessa data, Uderzo passou também a escrever o enredo dos álbuns de banda desenhada. Em 1981, em A Odisseia de Astérix, desenhou uma das personagens à semelhança de Goscinny como forma de homenagear o companheiro e “irmão”, como lhe chamava.

Uderzo deixou de trabalhar em Astérix em 2011, altura em que a série passou para as mãos do argumentista Jean-Yves Ferri e do ilustrador Didier Conrad. “Estou um pouco cansado, os anos passaram e pesam”, disse na altura. “Decidi deixar isto a autores mais jovens, que têm talento suficiente para que as personagens sobrevivam.” Uderzo tinha então 84 anos.

Astérix e Obélix apareceram pela primeira vez em Portugal nas páginas da revista Foguetão, na edição de 4 de maio de 1961. Seis anos depois, foi editado em português o primeiro álbum, Astérix, o Gaulês. A série continua a ser publicada por cá, pela editora ASA.