Tem 71 anos, ao longo dos quais seguiu a seleção espanhola de futebol para todo o mundo: em 1982, a jogar em casa, fez 15.000 quilómetros à boleia para ver os melhores jogos (170 deles dentro de uma ambulância que transportava um morto); esteve no México em 1986; e em 2010, na África do Sul, chegou a ver a vida a andar para trás quando adoeceu e teve de regressar mais cedo a casa, mas conseguiu recompôr-se a tempo de ver Casillas, Iniesta e companhia levantar a taça em Joanesburgo.

Ao todo, Manolo Cáceres esteve em dez campeonatos do mundo de futebol, sempre com um dos bombos de que é inseparável e que lhe valeram o epíteto por que é conhecido em toda a Espanha: Manolo do Bombo. Agora, vítima da crise económica que está a ocupar o lugar da pandemia, pondera pela primeira vez vender o instrumento. “Tenho de vender o bombo para comer”, confessou à agência EFE.

Proprietário de um bar a 100 metros do Mestalla, estádio que serve de casa à equipa do Valência, Manolo diz que vai reformar-se: “Estou no vermelho, já não abro mais o bar. Em junho ponho fim ao contrato de arrendamento porque só iria piorar. Estou a fazer 400 euros e uns trocos, que é o que pago pela hipoteca, mais os custos do apartamento. Com a reforma passo a ganhar 800. Não sei o que vamos fazer, mas tenho de comer e não sei se não vou leiloar o bombo”.

Ao longo das últimas décadas, contou à EFE, recusou sempre desfazer-se dos instrumentos — e se tentaram comprar-lhos, garante, “muitas vezes”. “Disse sempre que não o venderia por nada deste mundo”, rematou. Nunca poderia imaginar que o país e o mundo seriam acometidos por uma pandemia como a que, finalmente, começa a acalmar em Espanha — para passar a revelar outros dramas, como o seu.

“Gastei todo o meu dinheiro no futebol e pelo futebol, mas estou muito orgulhoso de tudo”, assegurou ainda assim, esperançoso numa ajuda por parte do vizinho Valência e preocupado com o orçamento para as viagens que, assim que as competições sejam retomadas, quer continuar a fazer para acompanhar a seleção.

Até lá, e enquanto os estádios permanecem encerrados, diz que vai tocando o bombo todos os dias, às 20h, quando Espanha assoma às janelas e varandas para agradecer com palmas o trabalho dos profissionais de saúde.