Entre as muitas novidades que o serviço de streaming da Disney traz, há uma que brilha mais. “The Mandalorian” chega a Portugal – tal como o serviço – quase um ano depois de se ter estreado nos Estados Unidos. A primeira série em live action do universo “Star Wars” poderia ser um acontecimento exclusivamente por isso: é a primeira. Mas, tal como as séries de animação que existiram anteriormente, é um bom passo ao lado na narrativa principal que une os filmes. E isso é mais do que um simples extra.

Na cronologia (por vezes complexa) da história, “The Mandalorian” acontece cinco anos depois de “O Regresso de Jedi” e tem como protagonista Din Djarin (Pedro Pascal), um caçador de prémios que viaja pela galáxia à procura do seu sustento. Um deles é uma criança, um inesperado “Baby Yoda”, que se tornou numa das personagens – e memes – mais referenciadas no final do ano passado. E talvez ainda o seja neste ano, quando os episódios da segunda temporada chegarem no final de outubro.

Din é um pouco o que já tinha sido Jango e Bobba Fett, pai e filho: viajantes pela galáxia, a tentar manter o sustento nem sempre (ou quase nunca) seguindo as regras, mas com inevitáveis consequências nos acontecimentos que vão regulando a galáxia. Neste caso específico, a história de Din Djarin acontece depois do fim do Império Galático e antes do surgimento da Nova Ordem.

O espírito está muito próximo da trilogia original, do western e dos filmes de aventuras, mais solto e com as mangas arregaçadas para ser entretenimento. “Star Wars” é hoje demasiado grande para arriscar e falhar, mas “The Mandalorian” é muito bom a disfarçar esse risco. Uma viagem no tempo ao “Star Wars” que nos distraía do “futuro da galáxia”. Ao telefone, Baz Idoine, um dos diretores de fotografia da série (em seis dos oito episódios), explicou-nos melho o que esperar de “The Mandalorian”.

[o trailer de “The Mandalorian”:]

Como que começou o seu envolvimento com a “Guerra das Estrelas”?
Tenho uma ótima relação com o Greig Fraser, que é um diretor de fotografia com quem colaboro há muitos anos. Ele convidou-me para a segunda unidade da fotografia do “Rogue One” [spin off da série original, estreado em 2016] e essa foi a minha porta de entrada na “Guerra das Estrelas”. Foi um salto maravilhoso para mim, até porque é um ótimo filme. Depois de trabalhar no “Rogue One” fui convidado para o “The Mandalorian”. Foi a cereja em cima do bolo.

Entrou logo no início?
Sim, antes de começarmos a filmar. Fui convidado para ser o co-diretor de fotografia, para preparar a série. Fui convidado pelos produtores e pelo Greig Fraser.

Como diretor de fotografia nesta sérrie, quais foram as suas principais preocupações?
É uma série de televisão, mas abordámo-la como se fosse um filme, um filme de oito episódios. “The Mandalorian” é cinemático, em widescreen, tinha de passar a mesma sensação dos filmes. Um dos desafios foi precisamente esse, passar algo para o pequeno ecrã que transmitisse a sensação de cinema, tal como os outros “Guerra Das Estrelas” no passado. O outro desafio foi trabalhar esta história fantástica e fazer com que coubesse em oito episódios.

Dos dois episódios que vi fico com a sensação de que os géneros trabalhados – westerns, filmes de aventura – estão muito ligados ao que vimos na trilogia original. E há qualquer coisa de Indiana Jones por aqui… será?
O George Lucas inspirou-se em filmes de cowboys e samurais dos 1950 e 1960s quando criou a trilogia original. É bom que lembremos isso, porque em alguns momentos quisemos mesmo passar essa sensação que existe, por exemplo, nos filmes do Indiana Jones.

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Houve, então, a preocupação de que “The Mandalorian” tivesse um espírito de filme de aventuras
Sim, queríamos que tivesse a sensação da trilogia original da “Guerra das Estrelas”, dentro do mesmo estilo de fotografia, mas também de histórias. Era um dos nossos objetivos principais.

Os cenários da série são muitos e distintos. E foram conseguidos ao rodar em diferentes locais. Para um diretor de fotografia, esse elemento deve ser especialmente desafiante, não?
Atualmente, não se vive sem efeitos especiais, porque há muita batalha no espaço e naves que têm de ser destruídas. Devemos isso à equipa da Industrial Light and Magic. Mas filmámos muito em exteriores, tentámos filmar o máximo possível em exteriores, para dar a sensação do filme original. Obviamente que não nos foi permitido ir a Tatooine, porque não nos foi possível sair deste planeta [risos]. Mas filmámos muito no deserto.

E que papel teve na escolha desses locais?
Fizemos muita procura digitalmente, passei muito tempo a ver locais em realidade virtual, a olhar para fotografias, à procura dos locais ideias para usar como cenários. Foi uma intervenção constante.

Há pouco referiu que tiveram o objetivo de filmar como se fosse um longo filme. Como é que isso influencia o trabalho da fotografia?
Eu e o meu colega na direção de fotografia, Greig Fraser, temos estilos muito semelhantes. Conseguimos manter essa sinergia e fluência ao longo dos oito episódios: existe uma “voz” fotográfica. Também era um desafio trabalhar com diferentes realizadores, mas isso tornou tudo mais empolgante, porque eles também traziam os seus pontos de vista. O Jon Favreau e o Dave Filoni criaram, escreveram e produziram a série e fizeram um ótimo trabalho ao manter sempre tudo ligado e ao garantir que as visões diferentes eram ouvidas, mas que ficavam em linha com a visão deles.

[veja mais imagens de “The Mandalorian”:]

Houve a preocupação em fazer de “The Mandalorian” algo mais exótico do que a última trilogia?
Não queríamos que fosse diferente dos filmes, porque o universo faz parte deles. Mas há esse lado exótico, claro, porque é diferente daquilo que nós conhecemos, é diferente da Terra. Estamos a falara de uam personagem que é um cançador de recompensas e que, por isso, viaja por toda a galáxia. E à medida que avançamos na temporada, visitamos mais planetas, ambientes diferentes, que contribuem para essa sensação mais exótica.

Já era fã de “Guerra das Estrelas” antes de trabalhar em “The Mandalorian”, presumo?
Claro. Vi o original quando saiu, na Nova Zelândia. Não havia filas à volta de quarteirões, como se fala que aconteceu em Nova Iorque e Los Angeles, mas havia muita excitação. Vi o filme muitas vezes, quando era mais jovem. Adoro o universo, vi sempre todos as sequelas horas ou poucos dias depois de chegarem aos cinemas. Daí que tudo isto seja um sonho tornado realidade. Trabalhar com tantas personagens… ou filmar uma cena com cem stormtroopers a correr na minha direção, no meio de uma batalha… Foi fantástico.