302 surtos ativos em Portugal, dos quais 51 são em lares de idosos. A informação foi avançada, esta terça-feira, pela diretora-Geral da Saúde, numa audição no Parlamento. Graça Freitas garantiu ainda que “não houve inação” relativamente ao surto de Covid-19 no lar de Reguengos de Monsaraz e considerou que estar constantemente a criticar o sistema de informação das autoridades de saúde “não é patriótico”.

“Está na altura de nós não pormos o nosso país sempre nas bocas do mundo a dizer que a nossa informação não é boa. Eu até considero que não é patriótico”, afirmou a responsável pela Direção-Geral da Saúde (DGS) durante a audição conjunta da Comissão da Saúde e da Comissão de Trabalho e Segurança Social, considerando que mais do que defender o trabalho da DGS, é necessário defender o país.

Temos que lutar por aquilo que é nosso e estamos a fazer bem.”

Segundo a diretora-Geral da Saúde, Portugal foi provavelmente “o único país” da Europa que nunca interrompeu a transmissão de dados para o sistema europeu de vigilância epidemiológica, argumentando ainda que o sistema de informação do país “não é perfeito, mas é bastante bom” e tem vindo a melhorar: “Temos um sistema que é robusto.”

A propósito das palavras da responsável pela Direção-Geral da Saúde (DGS), o deputado do PSD António Maló de Abreu pediu a palavra para sublinhar que “todos os deputados defendem o país” e não deixarão de “escrutinar” seja a DGS, seja o Ministério da Saúde: “A crítica nada tem a ver com a crítica ao país, que nós não fazemos”, afirmou o social-democrata.

Em resposta, a diretora-Geral da Saúde garantiu que não se estava a referir aos deputados, mas sim “a aproveitar o momento para fazer um apelo para que se deixe de denegrir a informação que temos”.

Relativamente aos surtos ativos em Portugal, Graça Freitas indicou que, às 00h do dia 29 de setembro, havia 123 surtos ativos na região Norte, 33 na região Centro, 106 em Lisboa e Vale do Tejo, 17 no Alentejo e 23 no Algarve.

Estão todos tipificados”, garantiu.

Destes 302 surtos ativos, 51 são em lares de idosos. Surtos que se concentram essencialmente no Norte e em Lisboa e Vale do Tejo: são 35 na Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, 10 na ARS Norte, dois na ARS Centro, três na ARS do Alentejo e outros três na ARS do Algarve.

A diretora-Geral indicou ainda o número de surtos ativos em escolas no país: às 00h de dia 28 de setembro, havia 12 surtos ativos em escolas que envolveram 78 pessoas. Destes surtos, cinco foram detetados na região Norte, um na região Centro, seis em Lisboa e Vale do Tejo. À data, não havia surtos no Alentejo e no Algarve.

“Nós não estamos tão às escuras como se poderá pensar.”

Lar de Reguengos de Monsaraz: “Não houve inação”

Relativamente ao surto no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, que levou à morte de 18 pessoas, Graça Freitas assumiu que foram encontradas “bastantes deficiências” e “constrangimentos”, mas indicou que houve “um grande esforço” para que isto fosse ultrapassado.

Eu não enjeito nenhuma responsabilidade, mas não atiro responsabilidades para ninguém”, afirmou a diretora-Geral, acrescentando que todos os profissionais envolvidos neste caso, desde os médicos das Forças Armadas aos profissionais do Hospital de Évora, deram “o seu melhor”.

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Graça Freitas garantiu ainda que “não houve inação”, indicando que os problemas foram “sucessivamente corrigidos”, inclusive pelos funcionários do lar.

“Pela leitura [dos documentos] e pelo conhecimento que tive, não houve inação. Foram-se encontrando problemas e foram-se resolvendo. Houve uma melhoria de dia para dia”, afirmou Graça Freitas, acrescentando que “todos os intervenientes foram colmatando as dificuldades que foram encontrando”.

A responsável pela DGS apresentou ainda uma cronologia da testagem, que ocorreu nesta instituição. Segundo Graça Freitas, a primeira vez que se soube da existência de um caso positivo foi na noite de 17 de junho, referindo ainda que se tratou de uma funcionária do lar que teve de ser internada.

A diretora-Geral afirmou ainda que, de acordo com informações retiradas de vários documentos, logo no dia 18 foram deslocados médicos e enfermeiros para o lar que começaram a fazer testes. Nesse dia, foram testadas mais de 150 pessoas, entre profissionais do lar, contactos desses profissionais e utentes.

Nos dias 18 e 19, dos 84 residentes testados, 57% tiveram testes positivos. Depois desta primeira volta de testagem, foram feitos novos testes a 22 e 23 de junho aos utentes que tinham dado negativo e, nessa altura, a taxa de positivos passou para 88% e a 1 de julho, quando “completas todas as testagens”, 95% dos utentes tinham testes positivos à Covid-19.

A intervenção em termos de testagem foi muito rápida”, disse aos deputados Graça Freitas.

A diretora-Geral de Saúde referiu ainda que “provavelmente” antes de ser detetado o primeiro caso no lar, “houve pessoas” com sintomas ligeiros que “se calhar” passaram despercebidos e esta terá sido “uma situação” que propiciou o surto de Covid-19 nesta instituição. Considerou ainda que a intervenção no lar de Reguengos foi “bastante precoce” e com uma política de testagem intensiva.

A responsável pela Direção-Geral da Saúde (DGS) tinha destacado, ainda no início da audição, a importância do “período silencioso da doença”, isto é, do período em que uma pessoa está infetada com o novo coronavírus, mas não sabe.

O grande desafio desta doença é o momento cego para todos nós, em que não sabemos o que se passa. Todos sabemos que mesmo quando há um teste negativo, não é garantia absoluta de que as pessoas não estejam em período de incubação.”

“Ter um plano de contingência, mas que não está sabido, nem interiorizado, nem treinado, é inútil”

Os deputados questionaram ainda Graça Freitas sobre os planos de contingência, em particular em relação ao lar de Reguengos de Monsaraz. Graça Freitas sublinhou a importância da existirem planos de contingência nos lares de idosos, indicando que têm “duas vertentes fundamentais”: as medidas preventivas e indicações para o que fazer quando surge um caso suspeito.

No entanto, ressalvou que de nada serve “o papel” se as medidas previstas nesse plano não estiverem interiorizadas.

“Ter um plano de contingência, mas que não está sabido, nem interiorizado, nem treinado, é inútil”, afirmou Graça Freitas, destacando a figura dos “responsáveis técnicos” dos lares, que considera que têm de estar devidamente informados não só sobre a Covid-19, mas sobre as medidas preventivas.

Sobre “lições aprendidas”, a diretora-Geral da Saúde referiu que uma dessas lições “é estar atento ao mínimo sinal de alerta” para se perceber se existe um caso suspeito.

A rapidez da intervenção é fundamental, quer para quem dá o alerta, quer para quem tem de intervir.”

Graça Freitas afirmou ainda que “o país não vai ser igual no próximo inverno”, referindo que é necessário ter “uma preocupação acrescida” nos locais onde o vírus está mais ativo e que está a ser feito um contacto regular com as autoridades de saúde para se fazer “uma estratificação do risco”, pelo que se entende que a abordagem à pandemia será diferente consoante o risco identificado pelas autoridades.

Relativamente às visitas aos lares de idosos por parte das autoridades de saúde, a responsável pela Direção-Geral da Saúde (DGS) indicou que estas visitas são de “caráter pedagógico” e que, uma vez identificadas “não conformidades”, fazem-se recomendações e são dadas indicações para que sejam corrigidas. Posteriormente são feitas novas visitas para confirmar se foram aplicadas as recomendações.

É um processo em que uma instituição pode ser visitada mais do que uma vez para ver se foram cumpridas as recomendações às não conformidades.”

Taxa de letalidade em Portugal para pessoas com mais de 80 anos é de 17,42

Ainda a propósito dos idosos, Graça Freitas afirmou que a taxa de letalidade em Portugal “compara muito bem” com a de outros países e indicou que a taxa de letalidade para pessoas com mais de 80 anos é de 17,42.

Comparando a taxa de letalidade de Portugal com a de outros países, a responsável pela Direção-Geral da Saúde referiu que o país ocupa a 13.ª posição, ainda que essa posição vá variando “conforme as alturas”.

Quanto às visitas aos lares de idosos por parte das equipas multidisciplinares — que também já tinham sido referidas na audição conjunta da ministra da Saúde e da ministra do Trabalho e Segurança Social —, Graça Freitas indicou que, dos lares recenseados na base de dados para estas visitas, cerca de 80% das instituições em Lisboa e Vale do Tejo terão já sido visitadas e que as instituições do Alentejo e do Algarve já foram todas alvo de visita.

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Quanto às vacinas contra a gripe, Graça Freitas clarificou que a campanha de vacinação é algo que tem de ser feito “gradualmente”. Serão os enfermeiros a fazer a vacina e, no caso dos lares, se as instituições tiverem profissionais de enfermagem suficientes para fazerem a vacinação, serão os centros de saúde a fornecer as vacinas e estes profissionais a aplicarem-nas. Ainda assim, sublinhou que a norma é que a vacinação seja feita por profissionais dos centros de saúde.

A diretora-Geral da Saúde indicou ainda que, para a primeira fase da vacinação contra a gripe — que começou a 28 de setembro —, existem 335 mil doses e que serão suficientes para os grupos de risco, como por exemplo os residentes e trabalhadores dos lares de idosos, os profissionais de saúde e as grávidas.

Testes rápidos: Infarmed tem 4 testes em fase de licenciamento

A diretora-Geral da Saúde falou ainda dos testes rápidos e referiu que o Infarmed tem “quatro testes em fase de licenciamento que cumprem critérios de sensibilidade que são aceitáveis”.

Ainda assim, Graça Freitas sublinhou que estes testes “são bons numa circunstância”: a detetar casos positivos de Covid-19. No entanto, têm uma limitação, isto é, “detetam mal os casos negativos”. Por isto, a diretora-Geral da Saúde referiu que as pessoas que testem negativo nestes testes devem repeti-lo através “de um teste melhor”, ou seja, um teste de PCR.

[A audição da diretora-geral da Saúde na íntegra:]