Se há tema que gera discussão na comunidade médica é científica é a vitamina D, os níveis considerados baixos e a possível suplementação. Ainda esta semana ouvimos os cientistas britânicos a recomendar o reforço de alguns alimentos com vitamina D. Agora, um grupo de cientistas espanhóis diz que o mais importante não é a vitamina D em si, mas o calcifediol (um percursor que acaba por se transformar na vitamina). Ambos os grupos abordavam a questão em relação ao potencial na prevenção ou tratamento da Covid-19, mas a verdade é que há quem defenda a suplementação desta vitamina tanto para doentes que realmente têm carência, como para uma série de outras pessoas com doenças diferentes ou até sem doenças nenhumas (isto, sem demonstração científica da eficácia).

O grupo da Universidade de Córdoba e Hospital Rainha Sofia pegou em trabalhos anteriores que tinham encontrado uma associação entre vitamina D e as doenças que provocam problemas respiratórios e aplicou uma solução de baixo custo e sem efeitos adversos significativos, se usada sob vigilância médica, o calcifediol. Esta molécula é uma prohormona, importante na transformação da vitamina D para ser usada no organismo e é muitas vezes usada para avaliar a disponibilidade de vitamina D no organismo.

“O calcifediol é o que medimos quando queremos saber como funciona o sistema endócrino em relação à vitamina D, porque é a matéria-prima que a produz. Sabíamos que os níveis baixos eram comuns em doenças com síndrome de dificuldade respiratória e que nem a ingestão como suplemento alimentar nem a exposição ao sol eram suficientes para compensá-los”, disse José Manuel Quesada, especialista em endocrinologia e nutrição, citado pelo El País.

A vitamina D é particularmente importante na saúde óssea — daí que seja recomendada a suplementação para doentes com osteoporose (mas não como elemento único). Uma das grandes discussões sobre a vitamina D é a identificação da carência nesta vitamina, ajudado pelo facto de que a população dos países desenvolvidos se exponham cada vez menos à luz do sol — uma forma importante de estimular a produção da vitamina.

Suplementos alimentares. Será que o natural faz sempre bem?

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas os métodos de análise da vitamina no sangue divergem e podem não ser úteis para toda a população. Por exemplo, as afro-americanas apresentam níveis baixos de vitamina D nas análises de sangue, mas não têm ossos fracos nem osteoporose, muito pelo contrário, diz a médica Nina Shapiro, no livro “Faz bem ou faz mal?”, da editora Clube do Autor.

“[Os afro-americanos e outras populações das áreas equatoriais] criaram um mecanismo no sentido de obter menos vitamina D a partir da exposição ao sol, a fim de evitar a toxicidade da vitamina D”, explica a médica.

A exposição solar continua a ser importante para muitos grupos, contando que se tomem outras precauções, nomeadamente relacionadas com o cancro da pele. E ingerir alimentos ricos em vitamina D também (peixes gordos, fígado bovino, queijo e gemas de ovos), mas convém lembrar que a vitamina que nos chega pela alimentação é apenas uma pequena fração daquela que precisamos. Depois, a vitamina que ingerimos não é usada diretamente pelo organismo, portanto suplementar com vitamina D para colmatar uma possível carência não é exatamente o mesmo que ingerir um copo de água para matar a sede.

“Ingerir um suplemento de ómega 3 não é o mesmo que comer peixe”

Já a administração de calcifediol, como foi feito pela equipa espanhola, permite que o composto seja absorvido rapidamente e que as concentrações de vitamina D aumentem rapidamente no sangue, disseram os investigadores. Fica, no entanto, um alerta: o uso de calcifenol deve ser feito sobre vigilância médica porque uma sobredosagem aguda (num curto período de tempo) ou devido a administração prolongada podem causar uma toxicidade grave por hipercalcemia (níveis demasiado altos de cálcio no sangue que podem levar à morte). Ficou confuso com a relação entre vitamina D e cálcio? É que a vitamina D é essencial para ajudar o organismo a absorver cálcio.

O estudo espanhol é ainda preliminar, um estudo piloto com 76 doentes, e o objetivo era analisar se o aumento de vitamina D (depois da administração de calcifediol) podia ajudar a aliviar a hiperinflamação causada pela tempestade citoquínica (uma resposta exagerada do sistema imunitário) desencadeada pela infeção com o SARS-CoV-2. Dos 50 doentes Covid-19 que receberam tratamento com calcifedol, só um foi internado na unidade de cuidados intensivos, contra metade dos 26 que tomaram placebo que por ir para os cuidados intensivos. Agora, para ter certeza sobre a eficácia, é preciso fazer um ensaio clínico alargado, com os doentes divididos entre tratamento e placebo, de forma aleatória e sem saberem em que grupo ficaram.

“Não é um antivírico, mas funciona muito bem. Não cura, mas é fundamental para evitar o problema do colapso da unidades de cuidados intensivo, pois diminui ou faz desaparecer a progressão para uma forma agressiva da doença”, disse Luis Manuel Entrenas, pneumologista no Hospital Rainha Sofia, citado pelo El País.

Os investigadores reforçam que o aumento de vitamina D pode servir para tratar doentes Covid-19, mas que as pessoas em geral não devem tentar aumentar os níveis como forma de prevenir a doença: não resulta e os riscos são maiores que os benefícios (como já vimos com a hipercalcemia). Depois, a exposição solar sem proteção e nas horas críticas pode provocar cancro de pele. E a alimentação, como falado, é o que menos contribui para os níveis de vitamina D (o que não quer dizer que não se deva ter uma alimentação equilibrada) e não chega para tratar os doentes: era preciso ingerir dois quilos de fígado, ou nove gemas de ovo ou cinco litros de leite todos os dias, exemplificou José Manuel Quesada.