Se alguém não sabia, era difícil acreditar que o debate entre Vitorino Silva e Marcelo Rebelo de Sousa era um confronto entre adversários na corrida a Belém. Foi uma conversa entre amigos, num tom intimista e onde houve espaço para brincadeiras, gargalhadas, troca de apontamentos e, lá no meio, até uma revelação por parte do Presidente da República: foi a pandemia de Covid-19 que o levou a recandidatar-se ao cargo.

Marcelo já tinha saudades de Tino, que fez questão de lembrar que considera o Presidente da República um “amigo”. No frente a frente — provavelmente o mais calmo até agora — o candidato de Rans deu nota positiva ao mandato dos últimos cinco anos, mas não ao ponto de deixar o chefe de Estado com um reconhecimento de excelência. Ficou-se pela “nota 14”. Ainda pediu uma autoavaliação a Marcelo, mas sem sucesso. Os tempos de comentador já lá vão. O “verdadeiro analista político”, segundo Marcelo, é agora Vitorino Silva e pode continuar a sê-lo se depois de 24 de janeiro não se mudar para Belém.

É no seguimento da conversa — que por esta altura quase nem precisava de moderação — que o Presidente da República deixa escapar o que nunca tinha dito: “A minha intenção não era fazer os dez anos em Belém” e “a pandemia foi um fator determinante.” Por diversas vezes Marcelo Rebelo de Sousa tinha mostrado ser a favor de se cumprir apenas um mandato e acabou esta noite por explicar o que o levou a tomar a decisão contrária.

Num cenário de “crise social profundíssima”, Marcelo considera que não podia sair a meio e, entre os objetivos dos próximos anos, está a segurar o Governo. “Até 2023 a legislatura deve durar” e depois disso deixa a decisão nas mãos do povo e insiste que, enquanto Presidente, fará o que os resultados eleitorais demonstrarem: “O povo é quem mais ordena: elege esquerda é esquerda, elege direita é direita.”

E por falar em direita ou esquerda, Tino de Rans está certo de que esta eleição não serve para medir a temperatura ao espetro político. Agora é a vez das pessoas irem a votos. Até porque, tudo depende do contexto e da forma como se olha para a política. Tino explica: “Na minha rua quando subo a casa fica à direita e quando desço à esquerda.”

O candidato de Rans insiste também na ideia de que há três políticos populares nestas eleições. Dois carismáticos, onde se coloca a si mesmo e a Marcelo, mas também um candidato “muito popular” que é André Ventura. “Há o só popular, que sou eu. Depois há o popular populista e depois o populista popular”, explica, enquanto define Marcelo Rebelo de Sousa como o popular populista, algo que faz “se calhar sem se aperceber”.

Marcelo sorri com a explicação, mas confrontado com as direitas que vão a votos nas eleições e após se ter referido à direita de Ventura como “securitária”, esclarece que “um populista diz o que as pessoas querem ouvir e um Presidente às vezes precisa de dizer o que as pessoas não querem ouvir”. Atira ainda uma farpa ao candidato do Chega: “Quem porventura queira aparecer como populista por vezes não aprecia que haja outros que sejam próximos do povo.”

Já o “candidato do Norte” que “quer nortear o país” e que acredita que tem o “voto da sardinha e do caviar” — enquanto Marcelo pode ser prejudicado pelo “medo da abstenção” por ter o “voto dos idosos” — acredita que vai conseguir angariar votos do Partido Socialista, um partido onde esteve e onde, deixa escapar, até fez uma “aposta num cavalo errado” quando deu a mão a António José Seguro.

“Eu tenho a certeza que o PS não vai votar Marcelo, quando se percebeu que o objetivo de Ana Gomes é ficar em segundo… um grande partido não pode ficar em segundo e eu estou sujeito a ter muito voto do PS”, diz. E para isso não são precisos “gurus” ou “grandes equipas ou agências”, assegura Tino de Rans, enquanto abre um conjunto de folhas onde escreve “todos os pensamentos”. As ideias, que têm de ser registadas porque se “evaporam” se não as escrever, foram parar diretamente às mãos do Presidente da República.

Depois dos apontamentos, um lembrete de Marcelo. “Já vi a questão da ressonância magnética”, diz, referindo-se a um problema levantado pelo adversário sobre o Hospital de Penafiel. E por falar em hospitais, “o bebé do ano é de Rans, nasceu à 00h00” e “o hospital serve Celorico de Basto, terra do Presidente”. Na conversa (que seguia cada vez mais intimista) só sobrou espaço para Marcelo fortalecer a ideia de que a sondagem só se faz depois das eleições e para Tino se mostrar confiante de que terá “muitos, muitos votos (…) milhares de votos”.