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“Somos mais, muitos mais. Se as pessoas de esquerda forem votar haverá duas mulheres à frente de Ventura.” O apelo surge quase no fim do mais longo discurso de Marisa Matias desta campanha presidencial, na noite desta quinta-feira, no comício virtual da Alfândega do Porto. E se o comício quase parecia o fim da campanha, também teve duas estreias. Para começar, e pela primeira vez, o comício virtual foi abaixo devido a uma quebra de eletricidade, mas Marisa levou o momento na desportiva e até atribuiu a culpa a António Capelo, o ator que estava a discursar. E, segundo, Marisa Matias deu nome aquele a que durante toda a campanha chamou de “candidato da extrema-direita”. Hoje, Marisa disse “Ventura”.

Quase parecia uma despedida. Marisa Matias recordou a grande maioria dos momentos da campanha, os nomes das pessoas que por ela passaram e deixou uma pergunta no ar: “Que esperança é esta que nos levanta? Essa esperança é a emergência. A emergência Covid, desemprego, racismo, climática, liberdade.” No fim, a resposta: “O que nos junta é a alegria e a responsabilidade da vida.” E a responsabilidade a que Marisa se refere chama-se combate à extrema-direita, porque considera que esta forma de pensar a vida “incomoda o conservadorismo e o insulto grosseiro daqueles que quiseram fazer da campanha um ataque às mulheres”.

“Enganaram-se tanto, é que atacaram as filhas da liberdade”, atira, insistindo num voto “com vontade, contra a boçalidade, contra o ódio porque o ódio é a pior das doenças”, mas também por ser a “ignorância dos que têm medo”. São, diz, uns “pseudo-valentes” quando se trata de “insultar mulheres, de desprezar imigrantes, de ignorar os desempregados, de fazer negócio com a saúde privada têm quem lhes faça frente”. Consigo, enaltece, “não fica ninguém para trás”.

Catarina Martins tinha estado ali, naquele mesmo púlpito, minutos antes para alertar para o mesmo problema. “Donald Trump acabou, mas os seus seguidores andam por aí”, afirmou. “Imitaram-no em tudo, nas provocações e mentiras constantes, na agressividade contra as mulheres e os imigrantes, no desprezo pelos pobres, na proposta de baixar os impostos aos mais ricos, na cruzada para entregarem aos negócios privados os serviços públicos, usam a mesma técnica da prosápia ‘vou esmagar toda a esquerda’ e do deslumbramento, ‘sou o enviado de Deus’, insultando assim toda a gente”, apontou a coordenadora do Bloco de Esquerda, num longo ataque à extrema-direita, que estava longe de terminar.

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A bloquista acusa estas pessoas de “quererem crise e de se alimentarem dela”, enquanto “fazem almoços Covid na campanha eleitoral, manifestações contra uso da máscara, votam contra todas as medidas sanitárias nesta emergência, desejam um país de conflito e ódio, insulto e desprezo”. Para Catarina Martins, “votar no domingo é responder à crise” e “dia de deixar bem claro que em Portugal não há caminho para os aprendizes de Trump”.

“A Marisa incomoda muito estes aprendizes de Trump, pelo batom vermelho de mulher determinada e corajosa, pelo programa de solidariedade e futuro, pelo compromisso. Um país onde vota Marisa é onde aprendizes de Trump não têm caminho”, aponta, chamando de “arruaceiro” a Ventura pelos insultos “às mulheres” e a “pessoas pela cor da pele”.

E Catarina Martins avisa que nem “a chuva e frio de rachar” podem travar os portugueses. É preciso ter “muito cuidado quando sairmos de casa” e fazer com que votar seja um “lugar seguro” porque “não votar representa um enorme perigo” e, no domingo, tem de se “travar política vinda de um passado violento”.

No penúltimo dia de campanha, Marisa Matias fez ainda uma homenagem a Ricardo Jorge, em que lembrou António Arnaut e o amigo José Semedo – entre muita emoção -, e insistiu que “faltam investimentos, equipamentos e pessoas” e que, ainda assim, “o SNS está a cumprir” e “a democracia será incompleta enquanto não conseguirmos cuidados para toda a gente”. Mais críticas aos privados, ao plafond destes hospitais para os doentes Covid-19 e ainda a quem “preferiu o negócio da doença” em tempos de pandemia.

Com ou sem vírus, a tradição mantém-se e Marisa vai a Alcouce

Paulo Novais/Lusa

No dia antes das eleições, era hora de cumprir a tradição e de voltar a casa, à pequena aldeia de Alcouce onde Marisa cresceu. Chove e muito, mas nada trava a intenção de mostrar o sítio de onde vem, os problemas do mundo rural, onde chegou a viver sem ter acesso a água ou luz. Por estes dias, ainda falta a rede.

A primeira paragem é a casa dos pais. Subiu, bateu à porta e desceu as escadas. A pandemia não permite que seja de outra forma. Enquanto a mãe não vem à porta, é Kiko, o vizinho cão, que recolhe as atenções. Chega a mãe de Marisa, a conversa não se alonga, até porque os microfones estão ligados. “O pai?”, pergunta. “O pai foi a uma consulta de rotina, está tudo bem.” Se está tudo bem, é altura de continuar pelas ruas e ruelas de calçada. Antes de descer, o desabafo: “Espero não cair outra vez. A minha mãe partiu duas costelas nestas escadas.”

As atenções estão reforçadas e está na hora de seguir. A próxima paragem é em casa de Fátima, mãe de duas amigas de infância. “Tu és uma grande mulher, uma mulher sabedora, inteligente compreensiva”, elogia. Marisa retribui: “Vocês é que me ensinaram.” Faltava o “abraço grande, grande, grande” e já no fim da conversa, Fátima não deixa Marisa ir embora sem ouvir um recado: “Dá metade da tua delicadeza ao André Ventura.” Marisa ri e diz que “já não vai lá”. “Acho que ele não queria, acho que ele não quer”, insiste.

Ali bem perto é ‘Celina’ quem vem à porta com um jornal de Marisa na mão, António também está por lá, mas os 83 anos já pesam e “está meio surdo”, não vem à porta. Está na hora da “costureira da aldeia”. Queria abrir mais a janela para ver melhor Marisa, mas não consegue. Era a Francelina que fazia os vestidos de Marisa quando era pequena. Hoje, fica em casa para ver se “o malvado” não chega. “Tem de ser.” Mas pelo menos vê Marisa, se não viesse “ficava triste”.

Quando chega a casa da Tia Isabel e da prima Ana, que acabou de fazer o turno da noite no Hospital da Universidade de Coimbra, Marisa lembra que hoje se vive “muito melhor”, apesar de ainda haver falta de serviços e cuidados. A candidata quer mostrar de onde vem, como foi criada, mas também quer mostrar que não é fácil confinar em sítios como este, onde muitos serviços não chegam. “O país não são só cidades.”

Em tempo de pandemia, os ‘comes e bebes’ que costumam ser tradição ficam adiados e a visita é relâmpago. Mas Marisa volta, volta sempre porque, diz, ficam “abraços por dar”.