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Numa arruada em Paranhos na passada segunda-feira, Rui Moreira não escondeu a vontade de conquistar a única freguesia social democrata na cidade. “Não é uma questão de cobiça, mas para termos uma política integrada da cidade”, justificou, sublinhando que para “cerzir a coesão do Porto são precisos líderes de freguesia que se articulem connosco”. Para o atual autarca do Porto, o desenvolvimento integrado torna-se mais difícil quando os líderes locais “são pessoas muito mais envolvidas nos jogos partidários e apologistas de projetos diferentes para o Porto”.

O braço de ferro subtil tem como protagonista Alberto Machado, deputado e líder da Distrital do PSD do Porto, que não se recandidata nestas autárquicas por limitação de mandados. O nome que se segue é o de Miguel Seabra, presidente da Concelhia local social democrata e antigo presidente da junta de Paranhos, entre 2001 e 2009, uma sucessão que para Moreira “assume um perfil russo de circulação de pessoas, com a passagem de testemunhos de presidentes aos seus vices”.

“Desta vez o candidato já não é Alberto Machado, ainda que ele queira fingir que é. Se virem os outdoors e os materiais do PSD ele aparece sempre em primeiro lugar e Miguel Seabra em segundo. Alberto Machado é assim um bocadinho o Putin da junta de freguesia, tanto que pôs lá quem o antecede e o sucede”, explicou o independente ao Observador, na série de entrevistas ‘A última chamada’.

O cartaz do PSD à junta de freguesia de Paranhos

Para o movimento de Rui Moreira ganhar esta junta de freguesia é “relevante”, mas não “dramático” para conseguir a maioria absoluta na cidade no próximo domingo. “É relevante principalmente para a população de Paranhos que muitas vezes não consegue compreender o porquê de uma determinada estratégia. Na questão da cultura, por exemplo, nós temos um conjunto de programas como o ‘Cultura em Expansão’, em que temos ligação às ligações de bairro e levamos a cultura um pouco por todo o Porto e fazemos isto em articulação com as juntas de freguesia, em Paranhos nunca conseguimos encantar a junta de freguesia em colaborar connosco. Tentámos fazer algumas iniciativas, mas nunca houve mobilização por parte da junta porque o PSD/Porto tem uma visão relativamente à cultura não sei se diferente do nosso ou se não tem visão para a cultura”, critica o atual presidente da Câmara do Porto.

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“Esta obsessão de Rui Moreira por Paranhos é curiosa e um fetiche, mas vai ter azar”

Durante a última semana de campanha, o candidato do PSD à autarquia, Vladimiro Feliz, passou três vezes por Paranhos em arruadas, prova de que a aposta nesta que é a maior freguesia da cidade, com mais de 50 mil habitantes, é mais do que evidente. Feliz considera que Rui Moreira tem “uma obsessão por Paranhos”, mas mantê-la não será sinónimo de uma vitória no domingo. “A vitória é ganhar a câmara e ganhar mais freguesias. Esta obsessão do Dr. Rui Moreira por Paranhos é curiosa, ele tem um fetiche com o PSD que ainda não compreendemos, já quem é Campanhã fez uma aliança com o Partido Socialista. Em Paranhos vai ter azar porque vai perder e vai perder mais juntas de freguesias na cidade, não tenho dúvidas nenhumas.”

Alberto Machado é um nome forte na cidade, deputado e atual líder da Distrital do PSD no Porto, é também o número dois da lista de Vladimiro Feliz para a autarquia, e comanda os destinos da junta de Paranhos desde 2009. Surpreendido com as críticas de Rui Moreira sobre o cartaz onde surge ao lado do atual candidato, Miguel Seabra, Machado fala em “nervosismo” por parte do independente. “Não estava à espera destas críticas, acho que isso é baixa política, nós aqui em Paranhos funcionamos com uma equipa desde 2001 e já aí a minha cara estava no cartaz juntamente com muitos outros dos nossos colegas”, explica ao Observador.

Alberto Machado tem 43 anos e é responsável pela freguesia de Paranhos desde 2009, sendo um dos rostos mais fortes do PSD na cidade (FOTO: RUI OLIVEIRA/OBSERVADOR)

Rejeitando a ideia de que a fotografia induz os eleitores em erro, Alberto Machado garante que a equipa dará “continuidade” ao trabalho desenvolvido nos últimos anos, onde as políticas de proximidade são “uma imagem de marca”, contrastando com a própria autarquia. “A nossa política de proximidade tem sido uma imagem de marca que o PSD conseguiu implementar em Paranhos e que deixa muito nervosos os elementos da candidatura do Dr. Rui Moreira, principalmente o Dr. Rui Moreira, que é uma pessoa distante e pouco próxima das pessoas”, acusa.

Já sobre as farpas do atual autarca relativamente à falta cooperação na cultura com a presidência da junta, Alberto Machado admite que as visões de ambos nessa matéria são radicalmente diferentes. “Nesse aspeto ate tendo a concordar com o Dr. Rui Moreira porque em Paranhos não somos adeptos de uma cultura de elites. Somos provavelmente a junta de freguesia que mais atividade tem, mas é uma atividade eclética e diversificada, desde as raízes mais populares a uma cultura mais erudita. É dentro dessa paradigma que temos vindo a trabalhar, defendendo uma cultura para todos e não uma cultura só para alguns nichos que o Dr. Rui Moreira tem promovido na cidade.

Miguel Seabra, candidato a Paranhos pelo PSD, recorda que esteve sempre ligado ao projeto local desde 2001, colaborando com a equipa de Alberto Machado, por isso mesmo, surgirem juntos no cartaz faz “todo o sentido”. “É uma prática comum do partido, desde 2001 que no cartaz aparecem várias pessoas da equipa e não é apenas aqui em Paranhos. É uma tradição nossa colocarmos as pessoas mais relevantes da freguesia no nosso cartaz, se recuarem no tempo é fácil verificar isso, por isso não é motivo para nenhum tipo de nervosismo.”

Para o próximo domingo, o candidato e atual presidente da Concelhia do PSD no Porto garante estar “extremamente confiante” nos números alcançados em Paranhos. “Sentimos muito apoio na rua, vemos que as pessoas conhecem e reconhecem o trabalho que o PSD tem feito aqui, iremos ter um bom resultado.” Já sobre o resultado a nível autárquico, Miguel Seabra considera que as sondagens “não revelam de forma alguma” o que o partido tem sentido nas ruas do Porto durante o período de campanha.

Miguel Seabra é presidente da Concelhia do PSD/Porto, dirigiu Paranhos entre 2001 e 2009 e volta a concorrer à junta nestas eleições (FOTO: RUI OLIVEIRA/OBSERVADOR)

“A preocupação de Rui Moreira com as juntas de freguesia acontece de quatro em quatro anos”

Durante os 12 anos que foi presidente da junta de Paranhos, Alberto Machado afirma que a câmara municipal foi “extremamente centralista”, não transferindo para as freguesias algumas competências capazes de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. “Grande parte dos problemas das pessoas são problemas que compete à autarquia resolver, questões na via pública, passeios em mau estado, árvores que não são podadas e ruas que não são limpas”, exemplifica.

Prova disso, diz, foi a carta que sete presidentes de junta escreveram a Rui Moreira a reclamar mais atenção, competências e financiamento por parte da autarquia. “A preocupação do Dr. Rui Moreira relativamente às juntas de freguesia acontece de quatro em quatro anos em período eleitoral, porque durante o mandato não tem qualquer cuidado nem atenção. É a triste realidade.” Alberto Machado fala ainda da forma “displicente” que Moreira trata as freguesias da cidade e acusa-o de escolher rostos novos para Paranhos “sem qualquer ligação à freguesia e sem qualquer experiência autárquica”.

Miguel Seabra, que pretende cumprir um mandato de 12 anos, concorda com Alberto Machado e dá exemplos concretos. “Infelizmente, ao contrário do que acontece em Vila Nova de Gaia ou em Lisboa em que as autarquias delegam algum tipo de competências às juntas, no Porto este centralismo por parte do Dr. Rui Moreira é lamentável. Gostávamos de ter alguns jardineiros para poder tratar de alguns jardins desleixados e  poder fazer pequenas reparações na via pública, até porque não há um dia em que não caia um idoso nesta freguesia pelo estado dos passeios.”