Na manifestação do 8 de março deste ano, a data mais presente foi o dia 10, domingo, quando, nas urnas, se joga o futuro dos direitos das mulheres, que alguns temem que possa ser de retrocesso.

Num alinhamento pronto a desfilar em Lisboa, pela Avenida Almirante Reis abaixo, os partidos mais à esquerda eram presença visível, com líderes partidários como Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, e Inês de Sousa Real, do PAN, a integrar o desfile naquele que foi também o último dia de campanha eleitoral para as legislativas antecipadas do próximo domingo.

Para Patrícia Calretas, dirigente da Rede 8 de Março, que com a Plataforma Feminista convocou a manifestação de Lisboa, a preocupação reside nos ausentes.

“Sabemos que do lado do quadrante da esquerda em Portugal é onde se fazem as alterações para a vida das mulheres, portanto, fora de questão votar na direita”, disse à Lusa.

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A dirigente do coletivo feminista mencionou a intervenção na campanha do centrista Paulo Núncio, que integra a coligação Aliança Democrática (PSD/CDS-PP/PPM), e que “disse claramente, em nome da AD que queria reverter o referendo do aborto”, contrapondo que as exigências feministas vão no sentido contrário.

O alargamento do prazo para aborto legal das 10 para as 12 semanas, a criação de uma lista de médicos objetores de consciência, a obrigatoriedade de acesso a um médico que não o seja e o fim do período de reflexão para terminar uma gravidez indesejada, que classificou como “um ultraje para uma mulher”, são algumas dessas exigências.

“[No domingo] eu espero que as mulheres sejam inteligentes e que percebem quem lhes quer tirar os direitos e quem quer manter os direitos e melhorá-los”, disse, acrescentando que “é preciso continuar” a lutar por maior igualdade, porque o que já se conquistou “não é suficiente”.

Num percurso por vezes marcado por chuva, Pedro Costa ia exibindo um cartaz duplo, apelando a mais homens feministas, de um lado, e a um voto em Mariana Mortágua no domingo, do outro, mas pouco crente num bom resultado da sua candidata.

“Domingo sabemos que é a direita que vai ganhar este ano, mas vou votar na [Mariana] Mortágua, porque acredito que as políticas dela são boas para todas as mulheres e para o nosso país”, disse.

O jovem manifestante considerou ser “importante que os homens sejam feministas, porque é importante que as mulheres saibam que não estão na luta sozinhas e que apesar de haver muito machismo ainda há muitos homens que também fazem parte do feminismo e da luta por um mundo igual”, mas admite que o ideal esbarra diariamente com a realidade de uma minoria de homens feministas.

Mafalda Jacinto, estreante nestas manifestações, participou pela primeira vez aos 34 anos, depois de uma reflexão recente sobre “muitas das problemáticas ligadas a uma sociedade patriarcal”, afirmando que “há muita coisa ainda a mudar” Gostava de ver uma maior representação feminina entre dirigentes políticos e na Assembleia da República e diz que o momento histórico que se vive a faz temer pela continuidade de “coisas que se lutou por conseguir”.

O perigo de retrocesso nos direitos das mulheres em Portugal é real? “Espero que não, seria muito grave e se isso acontecer, nós vamos estar cá para lutar ainda mais”, garantiu Mafalda Jacinto.