“Temos três adversários geopolíticos: Rússia, China e Irão“. Foi assim que o apresentador Sean Hannity lançou o mote para a segunda parte da primeira entrevista de Donald Trump no regresso à Casa Branca. O Presidente norte-americano mostrou que tinha estudado bem a lição de política internacional e partilhou as prioridades em cada uma dessas relações para os próximos quatro anos. Como bónus, ainda pôs em cima da mesa outros dois casos que não lhe são desconhecidos: Ucrânia e Coreia do Norte.
A segunda parte da entrevista da Fox News foi gravada na quarta-feira, na mesma altura que a primeira. No entanto, só foi transmitida na quinta-feira à noite (madrugada de sexta em Portugal). A divisão temática é percetível, uma vez que a segunda parte teve um foco claro em política externa, enquanto a primeira parte saltitou entre temas. Além disso, foi bastante mais curta e durou menos de meia hora, o que prova que quantidade nem sempre é qualidade: Donald Trump manteve-se focado nos temas e apresentou ideias, mesmo quando não detalhou formas de as levar adiante.
Sem surpresas, acabou por regressar a lemas como “isso nunca teria acontecido se eu fosse Presidente“, apontou as fraquezas que encontra nos seus adversários e elogiou os seus pontos fortes. Também sem surpresas, soube levar várias vezes a entrevista para a área da economia, campo onde joga em casa.
Pequim. A guerra comercial, a conversa “muito boa” com Xi e o trunfo de Trump
Foi precisamente nessa área que a conversa começou, com Donald Trump a abrir logo para a questão da guerra comercial com a China em três dimensões. A primeira foi a energia. “Temos mais petróleo e gás natural do que qualquer outro país. O que é ótimo porque a China não tem isso e tem de o comprar”, afirmou o Presidente. “Devíamos dar energia ao mundo inteiro — gás limpo e poderoso, não é como o vento [a energia eólica] que vai e vem, é feito na China e mata pássaros”, sugeriu mais à frente.
O segundo choque com a China fez-se bem perto de casa, no canal do Panamá. “A coisa mais cara que alguma vez fizemos foi construir o canal do Panamá e depois o Jimmy Carter vendeu-o por um dólar. E esse acordo não era para que a China dominasse o canal”, argumentou, com a habitual referência ao “mau negócio” de Carter e à necessidade de “recuperar” o canal.
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O terceiro ponto da relação com a China é aquele que Donald Trump considera mais importante: as tarifas. “Nós temos algo que eles querem”, afirmou o Presidente, explicando que a China escoa produtos para o mercado norte-americano e que a imposição de tarifas iria desencorajar esta dependência. “Quando eu impus as tarifas, ganhámos muito dinheiro. Temos um grande poder sobre a China que são as tarifas. Não as quero usar, mas são um grande poder”, ameaçou.
Enquanto com uma mão ameaça aumentar tarifas à China — esta semana falou na possibilidade de aplicar taxas de 10% nas importações –, a outra, estende-a a Xi Jinping. Questionado sobre a conversa telefónica que teve com o Presidente chinês ainda antes de tomar posse, Trump respondeu que “foi muito boa”. “É um país ambicioso, com um Presidente ambicioso. Não quero ser ingénuo e dizer que éramos amigos, mas éramos amigáveis, tínhamos uma boa relação”, elaborou.
A passagem por Pequim fez-se sem referências à discussão por causa do TikTok. Na primeira parte da entrevista, Trump já tinha desvalorizado preocupações de espionagem através da aplicação, detida pela chinesa ByteDance. O chefe de Estado norte-americano mostrou-se bem ciente da guerra comercial, mas só o tempo dirá se a relação amigável com Xi é arma suficiente para utilizar numa guerra comercial ou se as ameaças de tarifas se transformam em ações.
Moscovo. A desnuclearização, as novas tecnologias militares e as conversas com Putin
De Pequim a Moscovo, Donald Trump falou do Presidente russo no mesmo tom com que falou de Xi Jinping: mencionou a “boa relação” que tiveram no passado e voltou a repetir que quer falar com ele. Porém, se as preocupações com a China são comerciais, as preocupações com Moscovo são militares.
O Presidente garantiu que a Rússia só tem mísseis hipersónicos, porque “uma pessoa má lhe deu o desenho [norte-americano] durante a administração Obama”. A acusação contra Moscovo de roubo desta tecnologia já vem da primeira administração Trump mas nunca passou de uma mera acusação. Mas o Presidente norte-americano utiliza-a como uma justificação para pôr os olhos no futuro e na evolução da tecnologia.
“As batalhas já não se lutam em campo?”, começa por questionar Hannity. “Não necessariamente, mas serão lutadas de formas muito diferentes, incluindo em escritórios, os drones estão a tornar-se importantes. A tecnologia está a mudar e nós temos de estar na liderança“, considerou.
Trump ameaça Rússia com mais sanções se não houver acordo de paz na Ucrânia
Questionado especificamente sobre a guerra na Ucrânia e a ameaça de novas sanções se Vladimir Putin não puser um fim “imediato” à guerra, Trump recorreu à sua expressão favorita. “A guerra nem teria acontecido se eu fosse Presidente. Eu falava com Putin e a Ucrânia era a menina dos seus olhos“, declara, continuando com as acusações habituais contra Joe Biden e da sua má gestão. Contudo, faz uma ressalva menos habitual. “Não quero pôr as culpas todas nele [Biden]. Putin não o devia ter feito”, acusa.
O republicano recusou responder se já dialogou com Vladimir Putin, como tem afirmado que quer fazer. Momentos depois, voltou a falar sobre o chefe de Estado russo, para comprovar a sua “boa relação” e as muitas conversas que dizem ter tido. “Eu até cheguei a discutir a desnuclearização da Rússia e dos EUA com Putin e íamos trazer a China connosco”, garante.
No final de contas, Donald Trump relatou pelo menos duas conversas com Putin — que dá a entender que foram apenas duas de muitas mais. Mas a conversa parece só ter uma direção. Porque do lado do Kremlin, a única reação até agora aos pedidos de diálogo e às ameaças de sanções foi desvalorização e silêncio.
Kiev. A coragem, a teimosia de Zelensky e a dependência dos Estados Unidos
Foi Donald Trump que trouxe Kiev à baila, para justificar o seu interesse pela guerra na Ucrânia.”Eu não quero saber da Ucrânia, da Rússia ou dos Estados Unidos em particular. Eu estou a falar das pessoas. Milhares de pessoas morreram numa guerra que nunca devia ter começado”, declarou, sublinhando o número elevado de mortos do lado ucraniano.
Porém, a empatia pelo povo ucraniano pareceu não se estender ao seu líder. Logo depois de condenar Putin pela invasão de fevereiro de 2022, Trump ressalvou: “[Zelensky] também não devia ter permitido que isto acontecesse. Ele não é nenhum anjo“, acusou. O que devia o Presidente ucraniano ter feito? Procurado uma resposta diplomática, logo à partida, em vez de tentar tentado lutar contra um inimigo muito mais poderoso, argumenta Trump.
Se, momentos antes, a preocupação de Donald Trump eram as perdas humanas, entretanto mostrou outra preocupação: o custo financeiro e militar para Washington desta decisão. “Ele estava muito corajoso. Eles eram corajosos porque tinham o dinheiro norte-americano. Podíamos ter tido um acordo fácil, mas ele disse ‘não, eu quero lutar'”, critica Trump, mudando a voz para parodiar Volodymyr Zelensky. “E nós escoámos o equipamento”, remata, em tom novamente crítico.
Teerão. O “fanatismo” religioso, o perigo do nuclear e o poder da negociação
Dos três países que Hannity pôs em cima da mesa, Trump definiu logo uma “boa relação” com os dois primeiros. “O Irão é uma questão diferente, muito perigosa, que pode dar muitos problemas”, reconheceu o Presidente norte-americano.
Os problemas surgem a partir de duas direções. O primeiro é o facto de não serem um Estado laico e terem um líder religioso como líder supremo, o Ayatollah Ali Khamenei. Ou, nas palavras bastantes mais simplificadas de Donald Trump, serem “fanáticos religiosos”. O norte-americano argumenta que a questão religiosa torna mais difícil a negociação com Teerão.
Irão espera que Trump adote “postura realista” em relação a Teerão
O outro ponto é a questão nuclear. E de quem é a culpa de o Irão ter desenvolvido o seu próprio programa nuclear? De Joe Biden, claro está. “Se tivéssemos tido uma eleição justa [em 2020], teríamos tido um acordo uma semana depois da eleição”, considera Trump. O perigo de Teerão desenvolver uma arma nuclear é, argumenta, o facto de criar um precedente para os restantes Estados. “[O nuclear] é muito perigoso. E muito caro”, atira.
Ainda assim, e apesar do “perigo”, Trump recusa responder a questões sobre se apoia ataques israelitas às infraestruturas nucleares do Irão.
Questionado sobre se “confia” em Teerão para negociar com eles, Trump dá uma resposta evasiva: “Há formas de termos a certeza, temos de verificar dez vezes”. Apesar de não parecer confiante na sua capacidade de dissuadir a ameaça iraniana através do diálogo, Donald Trump garante que tem precedentes para esse tipo de negociações.
Porque é que Trump começa o segundo mandato “superconfiante”?
Pyongyang. O caso de “sucesso”
“Quando eu falei com o Obama [em 2016] e perguntei qual era a maior ameaça, ele disse a Coreia do Norte. Eu resolvi isso”, garante Trump. Insistindo na qualidade da sua relação com o líder norte-coreano, o chefe de Estado norte-americano promete voltar a estender a mão a Kim Jong-Un. “Ele até é um tipo inteligente“, elogia.
É essa inteligência que o distingue dos líderes iranianos, os “fanáticos religiosos”. Por um lado, Donald Trump dá a entender que, se o seu poder de dissuasão funcionou com Kim, pode funcionar em qualquer lado, até no perigoso Irão. Por outro lado, diz que o seu relacionamento com Kim existe porque ele não é como os líderes iranianos. O poder da comparação entre a Coreia do Norte e o Irão perde-se.
Os bastidores da cooperação entre administrações Biden e Trump para alcançar acordo de cessar-fogo
Tendo em conta todas as dificuldades geoestratégicas que Donald Trump enfrenta no regresso à Casa Branca, o novo Presidente podia só querer ressalvar o seu currículo. Currículo esse que ficou bem mais preenchido desde a semana passada, quando a entrada de Trump em cena parece ter contribuído para a assinatura do cessar-fogo em Gaza. Mas em Telavive Washington sempre teve amigos.
A verdadeira prova de fogo começa agora. Trump prometeu pôr fim à guerra da Ucrânia em 24 horas. Como seria de esperar — e já passaram três dias desde que chegou ao cargo — as promessas hiperbólicas não se cumpriram. Agora, Trump quer usar uma mistura de amizade (em formato telefonema) e ameaças (em formato sanção) para cumprir todos os objetivos que definiu na campanha eleitoral. A primeira entrevista deixou claras as intenções, mas as ações é que vão ditar o sucesso da política externa da administração Trump.