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Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens

Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens

Abusos sexuais. "Eu serei o primeiro a ir à polícia", diz o arcebispo de Évora /premium

Em entrevista ao Observador, o arcebispo de Évora fala do retiro dos bispos portugueses com o cardeal Seán O'Malley. Diz que o povo de Deus sentiu-se "criminosamente traído" e defende tolerância zero.

A questão dos abusos sexuais não foi o tema central do retiro anual de Quaresma dos bispos portugueses, que decorreu na semana passada em Fátima, mas o assunto foi impossível de evitar naquele encontro espiritual dos líderes católicos de Portugal. Não só porque o retiro aconteceu apenas duas semanas depois da cimeira inédita no Vaticano, onde quase duas centenas de líderes da Igreja de todo o mundo se reuniram para discutir o problema dos abusos sexuais, mas sobretudo porque o pregador convidado foi o cardeal norte-americano Seán O’Malley, arcebispo de Boston e presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores.

Abusos sexuais. Cardeal de Boston esteve em Fátima e falou de tolerância zero aos bispos portugueses

Durante cinco dias, os cerca de 40 bispos católicos portugueses ouviram as propostas de reflexão apresentadas por O’Malley sobre diversos temas, entre os quais a proteção dos menores. O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, falou com o Observador em Fátima, no final do retiro, para explicar os principais pontos que estiveram em cima da mesa durante aqueles dias, que foram uma “atividade espiritual, de oração e de contemplação”, mais do que uma reunião para tomar decisões. A presença do cardeal norte-americano, ainda assim, foi fundamental para os bispos portugueses conhecerem, na primeira pessoa, a história do homem que assumiu a diocese de Boston em 2003, após o escândalo dos abusos divulgados pelo Boston Globe, e que se tornou na principal figura do Vaticano para o combate aos abusos sexuais na Igreja.

“Percebemos nitidamente a sua objetividade, numa consciência absolutamente clara de que a tolerância é zero em todas as circunstâncias”, resume o arcebispo de Évora. D. Francisco Senra Coelho — que foi nomeado arcebispo de Évora no verão passado — explica ainda que, na sua diocese, nunca se viu confrontado com situações de abuso sexual. Mas, se tal vier a acontecer, será “o primeiro a ir à polícia”, garante. “Perante uma criança, uma pessoa normal só tem um instinto: defendê-la“, sublinha. D. Francisco Senra Coelho destaca ainda a importância do trabalho dos meios de comunicação na exposição dos casos de abuso sexual que nunca vieram a público e na denúncia dos atos de encobrimento da Igreja: “Gostava de prestar uma homenagem à comunicação social, que fez um trabalho muito importante de despertar a sociedade, de nos alertar, de trazer um tema para a mesa que é fundamental. Foi um trabalho que não posso deixar de apreciar e de agradecer”.

D. Francisco Senra Coelho é arcebispo de Évora desde junho de 2018 (Fotografia: site da Arquidiocese de Braga)

Arquidiocese de Braga

De que é que falaram neste retiro?
Nós não estivemos numa atividade pastoral, de tipo programatório ou de avaliação. Nós estivemos numa atividade espiritual, de oração e de contemplação. De silêncio, de retiro de Quaresma. Portanto, todos os temas foram colocados no sentido de nos encontrarmos com Deus, de fazermos um percurso com a sua palavra, de termos uma vivência de revisão de vida, cada um no seu âmbito pessoal. Muitos, certamente, passaram pelo sacramento da reconciliação ou da confissão. Fazíamos a oração das laudes e das vésperas, através da Liturgia das Horas da Igreja, celebrávamos a Eucaristia… Foi uma vivência muitíssimo rica. É evidente que estávamos a ouvir um homem que fala com a sua circunstância e conhecemos, de facto, a sua experiência no âmbito que aborda, de toda a questão ligada à proteção de menores, muito concretamente à vivência que ele assumiu nas dioceses de Fall River e depois de Boston. Mas não foi esse o tema que nós estivemos a abordar especificamente. Percebemos nitidamente a sua objetividade numa consciência absolutamente clara de que a tolerância é zero em todas as circunstâncias, de que devemos fomentar, na vida da Igreja, por todos os meios e com todas as forças, a segurança das nossas crianças, que não podemos nunca permitir que uma criança seja utilizada por qualquer forma de violência ou de violação. Percebemos nitidamente que tem de ser um assunto trabalhado de uma maneira especializada, que são circunstâncias que não se improvisam. Por isso, nós temos de fazer acontecer a segurança das nossas crianças na Igreja a partir de uma prevenção especializada, que, enfim, todos temos de adquirir.

Juntar-se o episcopado português todo não é assim uma coisa tão frequente. Estamos a falar de um retiro por ano, mais uma assembleia plenária, portanto não há assim tantas oportunidades para estarem todos juntos a discutir o que se pode fazer em comum no país. Este tema foi tratado?
Não foi tratado especificamente. O retiro é um tempo de silêncio, em que cada um faz deserto espiritual, com o oásis da oração. Procurar ir à fonte e beber água viva e dessedentarmos a nossa vida, que, muitas vezes, como a de todas as pessoas, é muito exigente e árida.

O que ouviram o cardeal O’Malley dizer-vos sobre este tema?
O cardeal O’Malley não tratou este tema especificamente. O cardeal O’Malley deixou, nas entrelinhas das suas experiências, com toda a sua personalidade, com toda a sua riqueza, entender a sua vivência. E a sua vivência é esta: tolerância zero, uma atenção muito profunda à prevenção, uma prevenção que gera segurança, uma segurança que tem de ser a grande preocupação da Igreja. Dos bispos e de todas as comunidades cristãs, que precisamos de readquirir a confiança do povo de Deus. O povo de Deus, certamente, nestas circunstâncias, sentiu a sua confiança abalada.

Pré-publicação. “Se tivesse sido vítima de um padre pedófilo estaria aqui hoje? Ainda seria católico?”

Sentiu-se traído por alguns.
Pois com certeza. Muito traído e gravemente traído e criminosamente traído. Não devemos ter medo das palavras, não é? Por outro lado, a circunstância que se percebe nitidamente na sua experiência, de que não podemos improvisar, tem de ser um trabalho a partir de um caderno de compromissos que a Igreja nos propõe — como sabemos, fruto deste encontro do Papa com os bispos —, e, nas entrelinhas da sua conversa, na sua respiração, digamos assim, percebe-se isto também: que é muito mais importante um grama de prevenção do que um quilo de curativo. Porque quando na prevenção se consegue aquilo que é o objetivo, que é a segurança das nossas crianças e adolescentes… Quando temos de resolver os problemas, é sempre já em situação de sofrimento. No entretanto, como digo, foi uma constatação de alguém que traz consigo a sua vivência. Mas não é próprio de um retiro ter um tema sobre isso.

D. Manuel Clemente veio da reunião no mês passado. Já partilhou algumas coisas convosco?
Aqui no retiro, o senhor D. Manuel Clemente foi um de nós, em silêncio.

Mas, noutras circunstâncias, já houve alguma partilha?
Até ao momento, não fez ainda uma reunião connosco, mas sabemos que vamos ter o plenário em breve, isso está tudo agendado e programado. Eu penso que os temas, com a profundidade destes que estamos a abordar, têm evidentemente uma circunstância de urgência e até, porventura, de socorro. Não são para se adiar indevidamente. Mas também não são temas para se tratar numa perspetiva de sensacionalismo, de querermos fazer uma lavagem de imagem, de entrarmos em metodologias mediáticas baratas, para fazer uma proposta à sociedade que pretende convencer. Nós estamos convencidos. Absolutamente convencidos. Nós sofremos muito, não tenham dúvida disso. Nós temos circunstâncias que nos fazem procurar com toda a seriedade tudo o que é uma resposta, uma prevenção e um cuidado com as vítimas. O carinho, o respeito, o apoio que as vítimas têm o direito a esperar de nós.

No mês passado, o Papa Francisco esteve reunido no Vaticano com 190 líderes católicos (incluindo o patriarca de Lisboa) para discutir os abusos sexuais na Igreja

AFP/Getty Images

Como é que isso se faz concretamente? Por exemplo, em Évora?
Eu estou há seis meses em Évora, mas fui padre em Évora 28 anos e formei-me em Évora. Portanto, estive em Évora 34 anos e saí de Évora para Braga quatro anos como bispo auxiliar. Nunca ouvi falar neste assunto. Afirmo numa questão de seriedade e de consciência. Nunca ouvi falar deste assunto. Não esgoto o conhecimento nem me arvoro que sou uma pessoa que está informada de tudo. Mas nunca ouvi falar, nem como padre nem como bispo.

Mas há mecanismos na diocese? Linhas de apoio, por exemplo. Se houver um caso, como se faz?
Há sobretudo uma grande atenção, há um cuidado muito grande, há uma preocupação de todos os agentes da pastoral, a começar pelos presbíteros e pelos diáconos, de estarmos atentos e vigilantes, com todas as pessoas que cuidam das crianças. E, até ao momento, não fomos ainda confrontados com nenhum destes casos. Quando formos confrontados com estes casos, seguiremos rigorosamente, sem qualquer cedência nem qualquer encobrimento. Seremos os primeiros a apresentar a quem de direito, a nível das autoridades civis e canónicas, o assunto.

Serão os primeiros a ir à polícia?
Sim, senhor. Eu serei o primeiro a ir à polícia. Não tenha dúvida disso. E, por outro lado, farei tudo o que estiver ao meu alcance para apoiar as vítimas que possam surgir disso. E, por outro lado também, procurarei, evidentemente, por todos os meios, esclarecer a situação. Mas peço a Deus e à sensatez humana, à decência que nos pertence ter neste tema tão belo que é a nossa relação com os pequeninos, que eles mereçam sempre de nós a nossa vida, a dádiva da nossa vida. Perante uma criança, uma pessoa normal só tem um instinto: defendê-la. Fazer tudo por ela. Não é possível uma reação destas sem uma profunda circunstância de doença.

"Eu, como a maior parte da hierarquia da Igreja, não imaginava que fosse uma situação tão complexa. Ou seja, com circunstâncias tão marcantes e com números tão elevados. Eu não imaginava isso. Não tinha esse conhecimento nem imaginava"
D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora

Acompanhou a cimeira no Vaticano?
Sim, ia acompanhando normalmente pela comunicação social, com atenção e cuidado.

Que ideias é que lhe vieram à cabeça? O que pensou fazer na sua diocese?
Antes de tudo, é importante perceber uma coisa: penso que eu, como a maior parte da hierarquia da Igreja, não imaginava que fosse uma situação tão complexa. Ou seja, com circunstâncias tão marcantes e com números tão elevados. Eu não imaginava isso. Não tinha esse conhecimento nem imaginava. Portanto, fiquei surpreendido, fiquei desperto e fiquei atento e indignado com uma situação de encobrimento que aconteceu, de muitas pessoas que certamente não tiveram preparação para lidar com este assunto. Mas eu gostava de dizer uma coisa que me parece que é importante: quem vive há dezenas de anos, já com experiência social e envolvência familiar, sabe que este problema, há 30 ou 40 anos, não era abordado. Falar da pedofilia era uma coisa absolutamente evitada em todos os setores. Na família, na escola, na comunicação social. Era uma espécie de…

Tabu?
Eu não diria tabu. Mais do que tabu. Era uma espécie de situação asquerosa, de tal maneira nefasta que nem se devia falar porque era pegajosa. E então não era frequente falar. Podemos dizer que, no nosso crescimento e desenvolvimento, era um termo que não se ouvia, não existia praticamente. E talvez quando se abordasse, ou alguém se lamentasse, se dissesse: “Cala-te. Não fales disso, porque isso é mau para ti, na medida em que tu vais ficar com um estigma na sociedade. No fundo, tu corres um risco”. Ser violado, no fundo, também era um espécie de algo mau para o violado. Ele próprio evitava falar. Gostava de afirmar que a Igreja não está fora do mundo nem do contexto. Portanto, a Igreja reagia como toda a gente reagia. Se o senhor me perguntar se devia ter mais luz, se devia ir à frente na defesa dos direitos humanos e dos direitos da criança, e que devia ter uma iluminação evangélica e ser muito diferente no seu comportamento, estou de acordo consigo.

O cardeal norte-americano Seán O'Malley foi o pregador convidado do retiro dos bispos portugueses, na semana passada em Fátima

Getty Images

O próprio Papa diz que não é por haver o problema nos outros setores da sociedade…
Sim, mas não devemos, de maneira nenhuma, descansar no setor da Igreja e não estar atentos a este complexo mundo das violações dos direitos humanos, da violação da mulher, da violação das crianças. Eu penso que é importante termos uma verdadeira paixão pela defesa da criança, pela defesa de todos os que são mais desprotegidos, e não temermos o caminho da verdade. Aí, eu gostava de prestar uma homenagem à comunicação social, que fez um trabalho muito importante de despertar a sociedade, de nos alertar, de trazer um tema para a mesa que é fundamental. Foi um trabalho que não posso deixar de apreciar e de agradecer. E de alertar que, de facto, nós não podemos, em nome do rigor de análise e de uma hermenêutica correta, julgar procedimentos de há 20 ou 30 anos com os olhos de agora. Mas isso em aspeto nenhuma da sociedade se pode fazer. Isto é um princípio básico da hermenêutica e da heurística histórica do próprio jornalismo. Isto seria uma falta de profissionalismo se fizéssemos isso.

Os casos de Portugal que têm vindo a público são todos dos últimos 10, 15 anos, todos após 2001 e das mudanças que houve despertadas pelos casos de Boston. Acha que os bispos portugueses vão estando mais atentos a este problema?
Eu penso que estamos atentíssimos. Eu penso que não estamos atentos, estamos absolutamente vigilantes. Nós amamos as nossas crianças, amamos o nosso povo, nós damos a vida, trabalhamos arduamente. Estão aí as estruturas da Igreja a dizê-lo, a nível sócio-caritativo, na dimensão da promoção humana. Nós não podemos descansar. Temos de estar de sentinela, como aquele que está acordado às 4h da manhã, temos de estar de sentinela…

"Se o senhor me perguntar se devia ter mais luz, se devia ir à frente na defesa dos direitos humanos e dos direitos da criança, e que devia ter uma iluminação evangélica e ser muito diferente no seu comportamento, estou de acordo consigo"
D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora

Com as lâmpadas acesas…
As lâmpadas acesas! Nós estamos numa situação de sofrimento, de tristeza solidária com todas as vítimas que sofrem, e queremos que a Igreja seja um lugar seguro e que seja um lugar de afeto, no sentido mais belo do termo. Onde a pessoa que precisa de ser amada seja amada do modo mais humano e maternal e paternal possível. E, como tal, estamos de sentinela, de vigilância. Não estamos numa atitude traumatizada, de entrarmos numa atuação de suspeita, e de começarmos a ver em todos os cantos um pedófilo. Não podemos entrar em doença. Mas temos de estar atentos.

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