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Os rostos eram carregados, quase de choque e com algum drama à mistura. “O meu filho está em casa a chorar”, comentava um apoiante de Paulo Rangel. Na sede improvisada do candidato derrotado à liderança do PSD, em Lisboa, após o diretor de campanha ter saído de uma sala reservada para anunciar a derrota, começou a surgir a pergunta, repetida entre abraços comovidos: “Como é que isto aconteceu?

Já depois do discurso de vencido de Paulo Rangel, no hall-bar do Hotel Sana Malhoa, a estrutura tentava descomprimir de uma campanha intensa enquanto procurava respostas para a derrota. Os números mostram muitas surpresas, embora ainda seja cedo para perceber se são motivadas por traições pontuais.

A não-mobilização de montenegristas em zonas estratégicas, o trabalho de formiga de Salvador Malheiro, a estratégia mais acertada de Rio e uma sondagem favorável de última hora são alguns dos fatores que justificam que o eurodeputado tenha perdido uma eleição que tinha na mão. Resultado final: Rui Rio 52,46% (18.811 votos), Paulo Rangel 47,54% (17.047 votos). Há três grandes falhas na campanha de Paulo Rangel que justificam estes números, algumas por culpa própria, outras forçadas pelo contexto.

Falha 1. As estruturas já não são o que eram: o Porto de Rio, o rei Salvador e o galo de Barcelos

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Os resultados mostram que o PSD, tal como até este sábado todos o conheciam, mudou. As estruturas do PSD, em particular as distritais e as concelhias, sempre foram fundamentais na eleição do líder. Esse peso sempre se verificou na história do partido, quer nos tempos na eleição em Congresso, por via dos delegados, quer desde que se realizaram as primeiras diretas, em 2006. Nunca nenhum líder venceu sem ter, pelo menos, o apoio de duas distritais do chamado G4 (Porto, Braga, Aveiro e Lisboa). Desta vez, Rio venceu em três das quatro maiores distritais, mas só tinha o apoio do presidente de uma delas, o seu diretor de campanha, Salvador Malheiro.

Rangel era favorito em praticamente todas as distritais (mesmo que Aveiro estivesse tremida nos últimos dias e Rio estivesse a crescer em Braga), sendo dono de uma aparente hegemonia no aparelho. Mais do que um falhanço dos seus apoiantes — que erraram nos cálculos — Rui Rio conseguiu mesmo furar (e em força) em concelhias e distritais onde a estrutura estava toda com Rangel.

O grande falhanço do Porto

O grande falhanço do eurodeputado foi no distrito onde partia com mais apoio da estrutura: o Porto. Rio sempre acreditou que a popularidade de que gozava no distrito — por durante anos ter sido presidente da autarquia e dominar as estruturas quando era secretário-geral de Marcelo — chegaria para discutir uma vitória portuense. Tinha razão. O presidente da distrital e os presidentes de todas as concelhias, incluindo presidentes de câmara em exercício, estavam com Paulo Rangel, mas foi a partir do Porto que Rio começou a virar o jogo. O mandatário distrital de Rio no Porto, Paulo Rios Oliveira, tinha dito pouco antes da abertura das urnas, no programa Fontes Bem Informadas da CNN, que era muito difícil vencer o distrito, precisamente porque Rangel tinha as estruturas, mas afinal foi fácil de mais.

Rui Rio venceu a distrital por 1201 votos de diferença (3821-2620). A partir daí, seria muito difícil não vencer o país. A vitória foi tão evidente que, em 18 concelhias do distrito, Rangel acabou por ganhar em apenas duas. Delegados de ambas as candidaturas, registam que os militantes que se deslocaram às urnas de voto eram muitas vezes mais velhos, muitos acima dos 65 anos, que não estão por dentro das lógicas de estrutura nem se posicionam na votação de acordo com lugares ou apoios tácitos. A vitória no Porto é, por isso, uma vitória pessoal de Rio.

Aveiro rima com Malheiro (e o erro de cálculo na Feira)

Enquanto nas últimas semanas os apoiantes de Paulo Rangel descansaram à sombra dos apoios que tinham, Salvador Malheiro continuou a desdobrar-se em contactos no distrito de Aveiro. É presidente da distrital, conhece cada um dos caciques locais (sendo ele próprio o maior angariador de votos do distrito), e tomou a batalha como sua. O diretor de campanha de Rui Rio conseguiu uma vantagem de 900 votos no distrito de Aveiro, com um grande impulso dado a partir de Ovar, onde é presidente de câmara.

Só em Ovar, Salvador Malheiro conseguiu 340 votos de vantagem. Os apoiantes de Rangel protestavam na noite eleitoral: “Aquilo em Ovar é percentagens tipo Coreia do Norte. O Malheiro não brinca em serviço. E nós é que somos os caciques”. Rio venceu com 408 votos (87% dos votos) contra apenas 61 de Rangel (13%).

Mas houve outro grande equívoco. Paulo Rangel achou que tinha a maior concelhia do distrito, Santa Maria da Feira (votaram 785 pessoas) por ter o apoio do presidente da autarquia, Emídio Sousa. Na verdade, mesmo contra o autarca (que já era apoiante de Luís Montenegro), Rio conseguiu vencer há dois anos. Na altura, Rui Rio contava com um apoio importante: António Topa, que este ano já se encontrava muito doente na altura em que se definiram os apoios e acabaria mesmo por morrer durante a campanha interna. Ainda assim, muitos dos militantes da ala de Topa (de quem Rio era amigo e sobre quem leu um emocionado voto de pesar no Parlamento) acabaram por trabalhar para Rio — que assim venceu mesmo a concelhia por 87 votos.

Rangel também contava com a concelhia de Aveiro, que acabou por vencer, mas com uma diferença que em nada ajudou a contrariar a força de Rio no distrito: somente por mais 7 votos. Concelhias que eram contra Rio nas últimas diretas, acabaram por ser fundamentais desta vez: Rio venceu Espinho, a concelhia onde Luís Montenegro é militante, e por uma diferença significativa: 91 votos. Pedro Pinto resumiria, na noite eleitoral, estas surpresas que ocorreram um pouco por todo o país da seguinte forma: “Não há traições, há, sim, uma atração especial por Rui Rio.”

“Montenegros” não se mobilizaram por Rangel em Braga (e o peso de Barcelos)

A ala montenegrista do distrito de Braga falhou redondamente a Paulo Rangel. Já havia uma grande desconfiança relativamente ao posicionamento de Paulo Cunha, líder da distrital, que tinha decidido não apoiar nenhum candidato. Circulava até, ainda antes do ato eleitoral, que ao longo do processo o antigo cabeça de lista da candidatura de Montenegro ao Conselho Nacional, terá reunido com Rui Rio — contra quem sempre esteve contra.

Ainda assim, apesar da distância de Paulo Cunha, do lado de Rangel nunca se esperou que Famalicão não desse uma vantagem grande a Rangel, até porque o presidente da autarquia, Mário Passos, estava com o eurodeputado. O mesmo acontecia com o influente empresário “Mito”. Mas os resultados ditaram outra coisa: onde Rangel esperava sair com centenas de votos de diferença, venceu a concelhia por apenas 16 votos.

O único que cumpriu com Rangel foi o seu colega no Parlamento Europeu, José Manuel Fernandes, que conseguiu mobilizar para que o eurodeputado tivesse uma vantagem de 196 votos em Vila Verde, terra onde já foi autarca e que é presidida agora pela sua mulher, Júlia Fernandes.

Na cidade de Braga, os montenegristas não se mobilizaram por Rangel. Apesar do eurodeputado contar com o apoio do presidente da câmara, Ricardo Rio, e com a dupla Hugo Soares-Granja, perdeu a concelhia por 12 votos.

Se houve locais em que a estrutura não funcionou a favor de Rangel, houve sítios em que funcionou a favor de Rui Rio. Em Barcelos, tendo Carlos Eduardo Reis como incansável timoneiro na concelhia, Rio conseguiu uma vantagem de 289 votos. Nos últimos três dias de campanha, esta concelhia tinha mais 320 militantes com quotas pagas, eram mais 732 relativamente às últimas diretas e tornou-se mesmo a segunda maior concelhia do PSD. Sem a vantagem de Rio em Barcelos, Rangel tinha ganho o distrito, mas acabou por perdê-lo por 231 votos. Pequena curiosidade: na concelhia da terra da avó Joaquina de Marcelo Rebelo de Sousa, Celorico de Basto, Rangel venceu por três votos.

Perdendo Braga, Porto e Aveiro, vencer a distrital de Lisboa de nada serviu a Paulo Rangel. A vantagem de 820 votos foram insuficientes para contrariar o hecatombe nos outros grandes distritos.

Falha 2. Estratégia de campanha à antiga e a mensagem anti-PS

A estratégia de Rui Rio mostrou-se mais eficaz que a de Rangel. Desde cedo o eurodeputado percebeu que tinha um problema de notoriedade e tentou ser omnipresente, mas o adversário tinha uma arma mais forte: era o líder em funções.

Rui Rio, salvo dois dias na Madeira, apresentou-se sempre nas sessões como presidente do PSD. A imprensa, por norma, não cobre todas as ações de candidatos à liderança de um partido, mas tem de cobrir as ações do líder da oposição, seja sobre o Orçamento do Estado, as medidas de combate à pandemia ou assuntos da governação. Rio não precisava de mais nada para ter atenção mediática. E não arriscou um milímetro: não caiu no engodo de participar em debates com Paulo Rangel, que poderiam mudar a percepção do partido sobre com quem estaria com mais garra para liderar o PSD.

Como comentava um apoiante de Rangel no Sana Malhoa — já depois da derrota na noite eleitoral — a estratégia de Rangel não resultou: “Nós fizemos uma campanha à antiga, com sessões de militantes, comícios, visitas a hospitais, Rio fez uma campanha 2.0. Os call centers foram muito bem jogados. Falaram com todos os militantes, deram uma palavra de atenção, o que conta muito junto de militantes mais velhos que estão sozinhos em casa e se sentem divorciados do partido”.

A dois meses das eleições, Rangel optou por nunca esclarecer de forma inequívoca o que faria no cenário pós-eleitoral. Não quis dizer se viabilizaria um orçamento do PS, nem se contaria com o PS para viabilizar o seu programa de Governo. Não saiu da expressão “vocação maioritária” ou de admitir governar em minoria. Os militantes do PSD terão percebido, no entanto, que Rangel estava a trabalhar no domínio do quase impossível (uma maioria do PSD), do muito pouco provável (uma maioria de direita na AR sem o Chega) ou do pouco provável (a esquerda permitir que um programa de um governo minoritário do PSD passasse na AR).

Rangel considerou que, quanto se afastasse do PS e de Costa, mais votos teria dos militantes do PSD. Enganou-se. Rio (que admitiu viabilizar dois orçamentos ao PS e que já tinha feito esta crítica a Rangel após as Europeias de 2019) mostrou, mais uma vez, que tinha razão.

Falha 3. Os custos de contexto no “voto livre”: Lisboa, eleições antecipadas e a sondagem da Pitagórica

Quando Rangel começou a fazer contactos mais intensivos no verão — e conseguiu mobilizar a maior parte da estrutura — o horizonte nada tinha a ver com o que viria a acontecer. Esperava-se que Rio tivesse uma derrota estrondosa nas autárquicas, mas conseguiu recuperar Lisboa e Coimbra e ter um “bom resultado”. Esperava-se que a esquerda aguentasse o Governo Costa até 2023, mas o Orçamento foi chumbado e Marcelo convocou eleições para janeiro.

Rio sobre aproveitar tudo isso muito bem. Começou a apostar no binómio melhor líder da oposição-melhor candidato a primeiro-ministro. O líder do PSD tentou convencer os militantes de que seria melhor chefe de Governo, por ter experiência executiva. Rangel acreditava que as bases não iriam nessa conversa e que acreditariam na tese de que Rio só queria ser “vice-primeiro-ministro de António Costa”.

As sondagens, de que Rio tanto se queixou, acabavam por lhe dar vantagem. A 6 de novembro, a sondagem da Católica para RTP já tinha apontado que os portugueses o consideravam mais preparado do que Paulo Rangel para candidato a primeiro-ministro. Logo nesse momento fonte da candidatura de Rangel comentava: “Isto é mau para nós”. Mas o derradeiro golpe foi na quinta-feira, a dois dias das eleições diretas.

Uma sondagem da Pitagórica para a CNN demonstrava que Rui Rio não só teria muito melhor resultado que Paulo Rangel, como até estaria numa situação de empate técnico com António Costa. A história das eleições internas dos partidos (veja-se o caso Costa-Seguro) demonstra que não há nada melhor para um partido virar para um lado do que sentir que um candidato tem mais hipóteses de ser poder do que outro. A mesma fonte da candidatura dizia agora: “Isto é muito mau para nós, vamos ver que efeito tem”.