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Margarida Simões terá sido sequestrada pelo namorado perto de Barcelona e trazida à força para Portugal

Margarida Simões terá sido sequestrada pelo namorado perto de Barcelona e trazida à força para Portugal

De escondida em Barcelona a sequestrada numa garagem em Paio Pires. A história de três anos de abusos e agressões /premium

Dada como desaparecida na Catalunha, Margarida Simões foi trazida para Portugal e presa numa garagem, sem roupa ou comida. Terá sido vítima do namorado, numa relação marcada por abusos e agressões.

Terá sido um sentimento misto o dos familiares e amigos de Margarida Soares Simões quando, na passada segunda-feira, 19 de agosto, perceberam que não a conseguiam contactar. Por um lado, ficaram com medo de que lhe pudesse ter acontecido alguma coisa. Por outro, pensaram que ela talvez tivesse — mais uma vez — simplesmente “desaparecido” com o namorado.

Não era a primeira vez que a jovem, de 25 anos, passava dias sem dar notícias para depois regressar como se nada fosse. Ainda assim, o facto de não ter levado o carregador do telemóvel ou uma muda de roupa quando, naquela tarde, saiu de casa dos tios, emigrados em Sant Pere de Ribes, cidade 40 km a sul de Barcelona, para “tomar café” fez soar os alarmes. Isso e as circunstâncias que, menos de um mês antes, a tinham levado a refugiar-se ali.

Margarida Simões tem 25 anos e é licenciada em Sociologia. Esteve desaparecida durante três dias

Foi depois de, no dia 26 de julho, ter formalizado uma queixa de violência doméstica junto da PSP do Seixal que a licenciada em Sociologia decidiu mudar de número de telemóvel e fugir.

Detalhe: essa também terá estado longe de ser a primeira vez que foi agredida pelo namorado, cinco anos mais velho, entretanto detido e esta quinta-feira presente a juiz no Tribunal do Seixal, indiciado por crimes de sequestro agravado, ofensa à integridade física e violência doméstica.

“Ele bateu-lhe várias vezes. Uma vez fez uma queixa, mas retirou. Mas em julho apresentou a queixa e deixou ficar, porque foi realmente grave. A mim disseram-me que ele «quase a matou»”
Amiga de Margarida Simões

Segundo confidenciou ao Observador uma fonte próxima — que, por medo, prefere não ser identificada —, as agressões que motivaram a referida queixa terão sido “apenas” as mais graves: “Ele bateu-lhe várias vezes. Uma vez fez uma queixa, mas retirou. Mas em julho apresentou a queixa e deixou ficar, porque foi realmente grave. Disseram-me que ele «quase a matou»”, conta.

De Sant Pere de Ribes às agressões numa bomba de gasolina

O alerta foi dado pela polícia catalã, os Mossos d’Esquadra, às 19h de terça-feira, dia 21. A portuguesa estava desaparecida desde a véspera e tinha sido vista pela última vez nos arredores do castelo de Sant Pere de Ribes — qualquer pista sobre o seu paradeiro seria bem-vinda.

Sabe-se agora, de acordo com as declarações prestadas pela própria Margarida às autoridades portuguesas esta quarta-feira à tarde, que terá sido sequestrada pelo namorado, de 30 anos, e trazida de carro, à força, de regresso a Portugal, onde terá estado, até conseguir escapar, presa na garagem de casa dele, em Paio Pires, a quase 1200 quilómetros de distância e a escassos 5 minutos do apartamento onde vivia com a mãe, na Arrentela.

Desde o momento em que regressaram à zona do Seixal até à tarde desta quarta-feira, Margarida terá sido repetidamente agredida e “colocada na garagem completamente nua”, revelou fonte policial ao Observador. De acordo com a mesma fonte, a jovem terá ainda dito às autoridades que acreditava que “ia ficar no local até morrer de fome e à sede”. Não foram revelados os contornos da fuga, sabe-se apenas que Margarida terá conseguido fugir, percorrendo a pé o caminho até à praceta onde mora com a mãe, que ligou para o 112.

“Ofensas à integridade física não estão em questão — existirão —, mas, para haver um sequestro, ela teve de vir de Barcelona obrigada. É preciso perceber como é que se encontraram em Barcelona — porque ele só sabia onde ela estava porque ela lhe disse — e o que aconteceu a partir daí.”
Fonte da Polícia Judiciária

No Hospital Garcia de Orta, onde chegou perto das 18h, depois de receber a assistência dos bombeiros, a jovem foi submetida a uma bateria de exames e respondeu às primeiras perguntas da Polícia Judiciária, que entretanto tinha tomado conta do caso. Ao que o Observador apurou, o casal manteria uma “relação atribulada já há muito tempo” e a investigação já terá conseguido recolher imagens de videovigilância captadas nos últimos dias numa bomba de gasolina em Portugal — alegadamente durante a viagem forçada de Barcelona para Paio Pires — onde serão visíveis várias agressões do suspeito contra Margarida Simões.

Ainda assim, a investigação mantém todas as hipóteses em aberto, admitindo, por exemplo, que Margarida possa não ter sido, de facto, sequestrada em Barcelona: “Ofensas à integridade física não estão em questão — existirão –, mas para haver um sequestro ela teve de vir de Barcelona obrigada. É preciso perceber como é que se encontraram em Barcelona — porque ele só sabia onde ela estava porque ela lhe disse — e o que aconteceu a partir daí”.

“É importante começarem a perceber que violência não é amor. Com muita pena minha, a Margarida não me ouviu”

A dúvida das autoridades é pertinente e enquadra-se na situação de violência no namoro de que, garante ao Observador uma amiga da jovem, Margarida seria vítima há quase três anos, praticamente desde o início da relação. “Ele batia-lhe por tudo e por nada… É mesmo violento, às vezes era só porque ela falava com amigas ou assim”, revela.

Apesar dos avisos das amigas e colegas — Margarida estudou no Colégio Atlântico e na Escola Secundária Dr. José Afonso, ambos na Arrentela, e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, e é descrita como “uma miúda muito simpática, simples e amiga de toda a gente” –, a jovem nunca terá conseguido por totalmente cobro à relação abusiva.

“Ele chegou a apontar-lhe facas ao pescoço, aparecia-lhe à porta de casa, do trabalho, etc, a ameaçá-la de morte. É um ciclo vicioso que ela deixou andar muito.”
Amiga de Margarida Simões

“Primeiro ele pediu-lhe para apagar o Facebook, depois o Instagram, depois começaram os «de quem é a mensagem?». E foi por aí… Há muitas raparigas que pensam «foi só um estalo» ou «ele só é ciumento porque me quer proteger» quando não é isso que se passa. Eles isolam-nas; ameaçam os amigos e família; ameaçam-nas de morte e elas veem-se encurraladas . É importante começarem a perceber que violência não é amor. Com muita pena minha, a Margarida não me ouviu. Nem a mim nem a todas as outras amigas que lhe diziam isto.”

Na verdade, de acordo com esta amiga, terá sido Margarida a revelar o seu próprio paradeiro ao namorado de quem fugiu — o que vai ao encontro da tese revelada por fonte da PJ ao Observador. “A Margarida fugiu para Barcelona para casa de uma tia. E, passados uns dias, ligou-lhe e combinou um encontro, porque queria estar com ele. Ele fez o que os agressores fazem: afastam toda a gente, proíbem as vítimas de fazer tudo, fazem com que elas só se deem com eles… Porquê? Porque, quando as vítimas se sentirem sozinhas, só vão querer saber dos agressores. Das únicas pessoas com quem se dão.”

Ainda assim, garante a mesma amiga, Margarida não terá entrado no carro de forma voluntária: “Em vez de ir ao encontro, ele parou o carro ao pé dela e disse-lhe que ou ela entrava ou ele matava-a a ela e às amigas”. Os episódios de violência passados — “Ele chegou a apontar-lhe facas ao pescoço, aparecia-lhe à porta de casa, do trabalho, etc, a ameaçá-la de morte. É um ciclo vicioso que ela deixou andar muito” — consubstanciam a teoria, e o facto de a jovem ter acreditado que o homem seria efetivamente capaz de passar das ameaças aos atos.

De acordo com o que o Observador apurou, tanto junto de fontes policiais como de amigos da vítima, a relação de Margarida com o suspeito entretanto detido seria não apenas “atribulada”, mas também “proibida” ou “ilícita”, justamente por ele viver maritalmente com outra pessoa, com quem terá um filho de cerca de 3 anos. A tudo isto juntar-se-á ainda um quadro de consumo de drogas, mais uma vez relatado tanto por fontes policiais ao Observador como por fontes próximas da vítima: “A Margarida sempre fumou só tabaco. Nem drogas leves a vi consumir, honestamente. Mas ele é toxicodependente. As amigas dela disseram-me que, às vezes, ele batia-lhe só porque estava drogado”.

Com Carolina Branco

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