A turbulência tomou conta do mapa geopolítico e há uma guerra que já teve data marcada mas não começou. Este domingo, o conflito entre a Ucrânia e a Rússia voltou a marcar a atualidade internacional e o mundo teve esperança ao saber que foi produtiva a conversa entre Emmanuel Macron, presidente da França, e Vladimir Putin, o presidente da Rússia. Foi um “último esforço para evitar uma invasão russa da Ucrânia”, disse o Palácio do Eliseu. O Kremlin continua a dizer que a Rússia é “último país a querer sequer falar de guerra”. Porém, os EUA continuam a dizer que Putin já ordenou uma invasão. Foi mais um dia de impasse entre avanços diplomáticos e ameaças bélicas que continuam a deixar o mundo em suspenso.

Paris—Moscovo—Kiev—Washington: diplomacia em várias frentes

As chamadas telefónicas de Macron com Putin, Zelenskyy e Biden

Este domingo, Emmanuel Macron voltou a ser a cara dos esforços diplomáticos para tentar evitar um conflito entre a Ucrânia e a Rússia. A manhã começou com uma chamada telefónica com Vladimir Putin, o presidente russo. Ao todo, estiveram a falar durante uma hora e 45 minutos, segundo o comunicado do palácio presidencial francês.

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De acordo com o Eliseu, a chamada foi um “último esforço para evitar uma invasão russa da Ucrânia” e poderá ter produzido efeitos: os líderes concordaram em convocar uma reunião do Grupo de Contacto Trilateral, que foi criado em 2014 com o objetivo de encontrar uma solução diplomática para o conflito de Donbass e junta representantes da Ucrânia, da Rússia e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Além disso, tanto Macron como Putin concordaram na “necessidade de favorecer uma solução diplomática para a crise atual e fazer tudo para alcançá-la” .

Putin e Macron acordam trabalhar para alcançar cessar-fogo no leste

Depois, Macron falou com Volodymyr Zelensky, o seu congénere ucraniano, durante 30 minutos. Ao final do dia na Europa, como avançou a Reuters, o líder francês falou com Joe Biden, o presidente dos EUA.

Além das informações já descritas, pouco se soube sobre o que foi falado por Macron. No entanto, em mais um dia em que alguns anteviam o início de um conflito armado, o líder francês foi o sinal de que as linhas diplomáticas ainda estão abertas.

O aviso do Kremlin sobre o calendário para o início da guerra

Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, deixou um aviso ao ocidente: parem de anunciar datas de uma possível invasão. “Leva diariamente a um aumento da tensão e quando a tensão atinge um pico, como acontece agora na linha de contacto [a região de Donbass, no sudeste da Ucrânia, onde se situam as zonas separatistas pró-russas], qualquer faísca, qualquer incidente ou provocação podem levar a consequências irreparáveis”, disse o russo.

Kremlin avisa Ocidente para parar de anunciar datas de possível invasão

Além disso, Peskov reiterou que a Federação Russa não tem intenção de atacar ninguém e que, por ter passado por “muitas guerras, é o último país da Europa a querer sequer falar de guerra”. Na semana passada, Joe Biden disse que estava convencido de que o seu homólogo russo, Vladimir Putin, estava decidido a levar a cabo um ataque à Ucrânia “nos próximos dias”. A mesma mensagem foi veiculada por outros líderes do ocidente.

O reacender do Grupo de Contacto Trilateral

O Grupo de Contacto Trilateral pode ser a chave para a paz. Criado após a anexação da Crimeia, foi este o grupo responsável por, em 2015, criar o protocolo Minsk II, que cessou os conflitos em Donbass. Com o escalar deste conflito, mostrou-se que este acordo era frágil, mas a sua reativação mostra que as conversações são outra vez uma via para evitar um escalar do conflito.

Zelensky apela a cessar-fogo imediato após falar com Macron

No Twitter, Zelenskyy não só disse que apoiava a reativação deste grupo como apelou a um cessar-fogo imediato, para que a via diplomática pudesse vingar.

As palavras duras de Charles Michel sobre um ramo de “um ramo de oliveira” a Moscovo

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, foi outra das caras da via diplomática que se quer alcançar para evitar uma invasão. “A grande questão permanece: o Kremlin quer o diálogo?”, questionou Michel durante a Conferência de Segurança de Munique este domingo.

Foi com esta questão dura que o líder europeu voltou afirmou que não se pode “oferecer eternamente um ramo de oliveira enquanto a Rússia faz testes de mísseis e continua a reunir tropas na fronteira ucraniana”. Sem nunca referir a necessidade de intervenção bélica no caso de uma invasão russa, Michel prometeu ainda que quer “usar todas as ferramentas a nível diplomático, esgotar todas as opções”.

Ocidente não pode estender eternamente “ramo de oliveira” à Rússia

O apelo de Kamala Harris

A vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, regressou este domingo a Washington D.C. depois de ter estado em Munique para a Conferência de Segurança. À saída da Alemanha, disse aos jornalistas que os EUA ainda esperam que seja possível resolver as tensões pela via diplomática.

“Esperamos sinceramente que ainda haja um caminho diplomático para sair deste momento. Dentro do contexto do facto de que a janela ainda está aberta, embora definitivamente a fechar, mas dentro do contexto de um caminho diplomático ainda aberto, o efeito dissuasor, acreditamos nós, ainda tem méritos”, disse Harris.

Fazendo um novo apelo para dissuadir a Rússia de uma possível invasão, Kamala Harris afirmou que o seu país preparou “algumas das maiores sanções, se não as mais fortes”, que podem ser aplicadas. “Serão dirigidas a instituições, a instituições financeiras particulares e indivíduos”, adiantou Harris. A vice-presidente norte-americana afirmou ainda que, “dependendo do que acontecer nos próximos dias”, os EUA vão “reavaliar as necessidades da Ucrânia” e a capacidade que os norte-americanos terão para ajudar o país.

A disponibilidade de Biden para estar com Putin

Joe Biden tem sido a principal cara dos avisos de que uma invasão russa está iminente. Este domingo, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, disse que o Presidente dos EUA está pronto para encontrar-se com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, “a qualquer momento e em qualquer formato”, se isso evitar uma guerra na Europa.

Biden pronto para encontro com Putin e evitar guerra

O lamento do Papa Francisco

É um esforço diplomático simbólico mas mostra mais um líder mundial a apelar à paz. Pelo segundo domingo consecutivo, o líder da Igreja Católica, o Papa Francisco, pediu o fim da tensão. Além disso, e apesar de nunca referir a Ucrânia e a Rússia, apontou o dedo aos protagonistas do conflito dizendo que é lamentável que haja “povos e populações que se orgulham de ser cristãos que vêem os outros como inimigos e pensam em fazer guerra uns contra os outros”. Francisco lembrou ainda uma mensagem cristã que promove a paz: é importante “amar o inimigo”.

Tanto a Rússia como a Ucrânia são países maioritariamente cristãos ortodoxos — e, aliás, as diferenças políticas entre diferentes ramos do Cristianismo ortodoxo têm sido uma das grandes fontes de tensão entre os dois países, como o Observador explica neste artigo. Resta saber se a mensagem do Papa será ouvida.

A crise Rússia-Ucrânia também se joga nas igrejas. Pode a intervenção do Papa ajudar?

As ameaças bélicas que continuam a alarmar o leste da Europa

Rússia não parou exercícios militares, apesar do que tinha dito

Os exercícios militares conjuntos da Rússia e da Bielorrússia, que deveriam terminar este domingo, vão continuar para além do calendário previsto, anunciou o Ministério da Defesa Bielorrusso. “A Bielorrússia e a Rússia, devido à atividade militar junto às fronteiras e à escalada em Donbass, decidiram continuar uma verificação conjunta de forças”, disse o governo de Minsk.

No sábado, no âmbito dos exercícios militares conjuntos entre Rússia e Bielorrússia, Moscovo testou mísseis balísticos de grande dimensão, incluindo mísseis com capacidade para transportar armas nucleares — o que contribuiu em grande medida para uma grande subida das tensões militares na região.

Segundo declarações este domingo de Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, a permanência russa na Bielorrússia é “prenúncio de invasão”.

O encerramento do ponto de controlo fronteiriço em Donbass

Ainda não se sabia como iam correr as chamadas de Macron com os líderes da Ucrânia e da Rússia quando foi divulgada a informação de que os ucranianos decidiram que as operações num dos sete pontos de controlo fronteiriço (também conhecidos como “checkpoints”) entre o território ucraniano e a região do Donbass, controlada pelos separatistas pró-russos, foi fechado.

Porquê? Tem sido um local onde se ouviram várias explosões nos últimos dois dias e poderá ser o ponto principal de tensão entre Ucrânia e Rússia, o que pode ser indício que a Ucrânia está já convencida de que o pior vai acontecer.

NATO diz que permanência russa na Bielorrússia é prenúncio de invasão

A nova data para o início da guerra, desta vez vinda da Rússia

Na última semana muito se tem citado “A Guerra de 1908”, do comediante Raul Solnado, quanto aos anúncios de líderes ocidentais que revelam uma data de início para o eventual conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia. No entanto, este domingo, foi o deputado russo Viktor Vodolatsky, membro do partido de Putin (o Rússia Unida) e um dos principais responsáveis parlamentares russos pelas relações internacionais, que avançou uma data para a abertura das “portas da guerra”.

Segundo Vodolatsky, a Ucrânia pode atacar a região de Donbass, que é controlada por separatistas pró-russos, nas próximas 48 horas. Ou seja, nesta segunda-feira.

As acusações de que a Ucrânia matou dois civis em Lugansk

Os separatistas pró-russos que controlam a região de Lugansk disseram este domingo que o exército ucraniano matou dois civis na cidade de Pionerskaya, uma povoação controlada pelos rebeldes nas proximidades da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia.

“Como resultado das agressões pelos militantes de Kiev, dois civis foram mortos e cinco casas foram destruídas“, disse a milícia da autoproclamada República Popular de Lugansk, num comunicado citado pelo The Guardian.

No sábado, tinha sido o exército ucraniano a divulgar a morte de dois soldados ucranianos. Em momentos de tensão, poderão ser casos destes que podem acender o conflito, dizem os especialistas.

EUA voltam a dizer que militares russos já têm ordens para invadir a Ucrânia — o dado que levou Biden a tomar posição

Os serviços de inteligência dos EUA souberam na semana passada que o Kremlin já tinha dado ordens para que os seus militares invadissem a Ucrânia, avançou este domingo o The New York Times citando “fontes oficiais” do exército norte-americano, o que terá motivado Biden a afirmar que a Ucrânia ia ser invadida.

Além disso, neste domingo, o correspondente para a segurança nacional da CBS, o veterano David Martin, reafirmou esta tese no programa “Face the Nation”: os serviços de informações norte-americanos têm a informação de que os militares russos receberam ordens para concretizar uma invasão da Ucrânia.

CNN, por outro lado, cita fontes da Inteligência dos EUA para avançar um dado concreto que mostra como todas as peças podem estar já em posição para um conflito armado: a Rússia tem cerca de 75% das suas forças militares posicionadas para intervir no conflito com a Ucrânia.

Evacuações, soldados mortos, explosões por explicar e o Ocidente reunido em Munique. Tensão Rússia/Ucrânia sobe para níveis históricos