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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Fábio Lopes é Conguito. "Peço desculpa, mas não vou deixar de usar este nome" /premium

Com 16 anos, criou um canal de YouTube. O sucesso online abriu-lhe as portas para rádio e para a televisão. Conguito quer ser uma referência para outros jovens, negros ou não, mas não um ativista.

Uma mota dentro do escritório? Sim, desde que caiba na porta. Um influenciador digital, locutor de rádio e quase quase apresentador de televisão com gabinete montado no centro de Lisboa? Isso sempre é inédito. Aos 25 anos, Fábio Lopes senta-se à secretária, como se de um administrativo se tratasse, mas a categoria profissional não podia ser mais ao lado. Há dois anos, começou a procurar casa para deixar a dos pais, nos arredores, e foi este o primeiro achado — uma pequena loja virada para a rua, na zona de Picoas. Casa para morar, encontrou-a agora. Ou seja, mais cedo ou mais tarde, o pequeno esconderijo vai voltar ao mercado.

Podemos tratá-lo por Fábio ou por Conguito, a alcunha com que vingou, primeiro na era dourada do YouTube, mais tarde no Instagram e nas manhãs da Mega Hits. “Quando comecei a ganhar notoriedade, disseram-me que devia começar a ser o Fábio e abandonar o nome Conguito. Mas faz parte de mim, da minha identidade”, admitiu a meio de uma longa conversa — para todos os efeitos — de gabinete.

Desde 2011 que soma popularidade. Tem mais de 61.600 seguidores no Instagram, onde fecha negócios com marcas de todos os quadrantes (de massas instantâneas a preservativos). No Twitter, a audiência sobe para a casa dos 115 mil. Faz parte de uma geração que migrou das redes sociais para os média tradicionais. Longe vai o tempo em que, no quarto e com a câmara da irmã, começou a gravar os primeiros vídeos para o YouTube. Foi há precisamente nove anos e com um chorrilho de temas que ia da professora de matemática às frustrações próprias do cortejo adolescente.

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A partir de 27 de setembro, domingo, o conteúdo será bem diferente — estreia-se no horário nobre da estação pública de televisão, como apresentador digital do “The Voice”. Ao sentimento de abrir caminho contrapõe a recusa de maiores responsabilidades. Mesmo que lho peçam, Fábio não quer ser o rosto nem a voz de um movimento que exige igualdade, agora e já. A alternativa é encorajar outros, negros ou não, a perseguir sonhos e combater o preconceito no dia-a-dia, sempre pela via do diálogo.

Antes de qualquer outra pergunta: Fábio Lopes ou Conguito?
O que quiseres. Acho que é impossível falar do Conguito sem falar do Fábio Lopes e vice-versa. Mas é-me totalmente indiferente, o que te sair primeiro. A não ser que sejas da minha família — aí vou preferir que me trates por Fábio. De resto, é tranquilo.

É uma alcunha que lhe deram em miúdo?
Sim, de quando jogava futebol com amigos. Na altura, já existia outro Fábio e como eu era muito guloso, amava gomas e estava sempre a comprar chocolates e assim, houve um rapaz lá do clube que disse: “Olha, como já há outro Fábio, tu vais ser o Conguito”. Isto também devido às semelhanças com a marca de chocolates, claro. Mas era uma coisa pequena, só no clube é que sabiam. Uns cinco anos depois, chego ao secundário e volto a reencontrar alguns colegas que jogavam à bola comigo nessa altura. Foi a altura em que comecei a fazer vídeos e no YouTube não podia ser o Fábio, nunca teria o mesmo impacto. Era o Conguito, o que até me deixava um pouco mais protegido por trás dessa persona. Só a malta da minha turma é que via, mas de repente passou a ser visto pelos amigos da outra escola e esses começaram a mostrar aos primos e bam! O resto é história.

Isso foi em 2011. O que é que leva um miúdo com 16 anos a criar um canal de YouTube?
Existiam cinco youtubers em Portugal — a Peperan, o Sake, o Nurb, que foram a primeira geração, no fundo. Achei que também tinha algo a acrescentar. Juntei-me com um amigo da minha turma, o Guilherme, e fizemos uns vídeos. Na altura, não se ganhava dinheiro com o YouTube, nada disso. Era uma coisa muito pequena e muito amadora, com a máquina que tirava à minha irmã sem ela saber e muitos tutoriais para aprender a editar. Tudo o que aprendi foi com tutoriais e com as colaborações que fazia com outros youtubers. Mas sim, era só um rapaz do secundário que tinha todas as tardes livres e que queria explorar outras coisas.

"Não me via a fazer nada […] quando toda a gente à minha volta já tinha tudo muito bem definido. O YouTube acabou por ser um escape […]"

Qual era o conteúdo?
Só queria partilhar a minha experiência: dizer que a minha professora de matemática demorava imenso tempo a corrigir os testes, falar da rapariga que não me respondia às mensagens ou sobre não saber cozinhar — íamos fazer uma pizza pré-congelada, mas como é que funcionava o forno da minha casa? Era a vida banal do adolescente, onde tudo parecia um problema gigantesco. Claro que, à medida que fui crescendo dentro do YouTube, o meu conteúdo foi mudando. Aproveitei para explorar as minhas paixões. Sempre estive muito ligado à música e sempre gostei imenso de ir a festivais. Se calhar houve ali uma altura, em 2012 e 2013, em que comecei a explorar muito mais isso no meu canal, a ir a festivais estrangeiros e aos nacionais e a partilhar essa experiência. Isso foi muito importante para perceber o que queria seguir da vida.

No fundo, o conteúdo do canal também acompanhou o seu crescimento.
Entretanto deixei de fazer vídeos para o YouTube, até porque quase que me chateei com a plataforma. Chegou ali uma altura em que começou a beneficiar os algoritmos e quem anunciava começou a ser mais importante do que os próprios criadores de conteúdo. A plataforma evoluiu e já não era para mim.

Numa entrevista recente falou sobre o nascimento do canal, em 2011, e sobre como era um rapaz inseguro. De onde vinha essa insegurança?
O secundário foi uma altura estranha. Fui para Ciências e Tecnologias muito sem saber o que ia seguir no final. Deixei-me levar pelos meus pais e pelos meus colegas e, quando já lá estava, percebi que talvez não fosse bem o que queria. Passei por essa fase toda de incerteza, era uma segurança muito presente na minha vida. Não me via a fazer nada e, na minha cabeça, tudo parecia instável e com pouco futuro, quando toda a gente à minha volta já tinha tudo muito bem definido. O YouTube acabou por ser um escape, ao mesmo tempo que me dava a oportunidade de falar com pessoas que estavam na mesma situação e que se identificavam com o meu conteúdo. Isso foi fantástico. Hoje, sei que o YouTube me salvou, que me ajudou a ultrapassar momentos difíceis.

Quando deixa o YouTube já o faz com a consciência de que tem uma audiência.
Não faço vídeos há dois ou três anos, mas não apaguei o canal. Durante este período, tenho gravado e editado imensos vídeos, está tudo no meu disco externo. Amanhã, se calhar, podem surgir todos no YouTube. Não estou lá, mas é como se fizesse um vídeo ou um direto todos os dias, mas na rádio. Ou então no Twitter a partilhar as mesmas opiniões. Ou no Instagram, com as mesmas aventuras. Estou em quatro ou cinco espaços que me satisfazem. Continuo a ser o mesmo Conguito, um bocado mais crescido, mas a essência esta lá.

Mas houve certamente um momento em que deixou de olhar para o canal como um hobbie das tardes livres e começou a encará-lo com uma estratégia.
Em 2013, as marcas começaram a descobrir os youtubers como opinion leaders ou como pessoas que facilmente chegam a um target devido ao alcance que têm. E era um alcance real naquela altura. Logo nessas primeiras interações percebi que já não era só uma brincadeira, estava a tornar-se num negócio. Aí, temos de conseguir juntar o nosso lado mais descontraído e o nosso lado mais empresarial. Se temos de comunicar esta marca e esta experiência, temos de fazê-lo da forma mais profissional possível. Tivemos de nos adaptar e de crescer e não estávamos à espera disso, pelos menos nós, os da primeira geração. Mas acho que as marcas foram percebendo isso e foram muito gentis dando-nos espaço para criar.

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Essa mudança, mesmo que tenha sido gradual, teve impacto na audiência? Muitos começaram a queixar-se da publicidade e da perda de autenticidade.
No início, sofria muito com isso. Achava que não podia fazer isto ou aquilo, senão as pessoas iam achar que sou um vendido. Ou então ouvia aquela frase: “Tu já só estás a fazer isto por dinheiro”. Depois, cheguei à conclusão de que todos nós precisamos de trabalhar, de ter um rendimento. Mas tinha é de fazer aquilo da maneira mais real. Fiz as pazes com isso e, hoje, se é algo de que gosto, faz todo o sentido associar-me a essa marca e ser pago pelo meu trabalho.

É preciso saber fazê-lo, então.
Lá está. Ao mesmo tempo, tem de ser real e fazer match com a tua identidade. Como criadores de conteúdo, não podemos ser falsos, porque as pessoas gostam de nós pela transparência. Temos de fazer este exercício: gosto disto, disto e disto e nunca vou aceitar fazer algo oposto.

É uma aprendizagem que foi fazendo? Há coisas que hoje não faria?
Não. Isso parte muito da essência do youtuber. No início, nós só falávamos sobre coisas que queríamos falar. Podias seguir uma tendência, mas partilhavas a tua opinião. Se tivéssemos um manual de instruções de um comunicador digital, uma das regras seria: nunca falar sobre algo de que não se gosta ou que não se conhece.

"Acontece regularmente no mundo do entretenimento em Portugal -- quando fazes bem dão-te muitas palmadinhas nas costas, quando estás a fazer mal têm medo e hesitam em dizer. E depois questionas como é que não estavas a fazer aquilo assim tão bem quando as pessoas até te davam os parabéns"

Faz parte de uma geração que ganhou popularidade nas redes sociais e que depois migrou para os meios de comunicação social tradicionais. Como é que essa transição aconteceu no seu caso?
Foi natural. Uma das coisas que aprendi no meu percurso foi que o importante é ter paciência e esperar pelo momento certo. Quando criei um canal no meu quarto, não imaginava que hoje estaria a conversar contigo sobre dez anos de carreira praticamente. A rádio surgiu com um simples telefonema, em 2017, numa altura em que já estava a ficar chateado com o YouTube. Era o Nelson Cunha, diretor da Mega Hits, a dizer: “Olá, Fábio. Tudo bem? Olha, podes vir cá para termos uma reunião?”. Na minha cabeça ia comentar um ou outro festival, o que era fantástico para mim. Quando chego lá, ele diz-me que gostava muito que me juntasse à equipa. Say what? Não tinha formação em rádio, era impensável. E esta tinha sido a primeira rádio a entrevistar um youtuber. Quando o Nurb disse, em 2012, que ia ter uma entrevista na Mega Hits, ficámos todos: “Uau”. Cinco anos depois, estavam a convidar-me para me juntar à equipa. Demorei dois segundos a pensar. Tive um período de formação e de adaptação, como é óbvio. Aprendi com dois génios: o Rui Maria Pêgo e a Maria Correia. Foi a melhor escola que podia ter.

Tinha a ambição de ir parar à rádio?
Não era aquela coisa em que pensava mal acordava. Sempre quis trabalhar para chegar a sítios que me fizessem crescer profissional e pessoalmente. Sempre quis estar ligado a desafios novos e às minhas grandes paixões e uma delas é a música. Ora, a rádio encaixa aqui perfeitamente.

Há uns anos, as pessoas saíam de um curso de comunicação, já com algumas bases. Como é que compensou o facto de ter saído diretamente do quarto para o estúdio?
Não é fácil. Fiquei seis meses a fazer rádio mal, ou seja, não sabia fazer rádio e tinha noção disso. Tive a sorte de ter a minha equipa que me ajudou a comunicar. Ninguém pode pensar que, porque comunica bem no Instagram ou no YouTube, vai funcionar também na rádio ou em televisão. É totalmente diferente. E são pequenos hábitos — na rádio não há “olá, malta” ou “como é que vocês estão?”. É “como é que estás?” — muito mais direto e menos informal. Vinha com muitas muletas, coisas que não desaparecem de um mês para o outro. É uma luta e há dias em que chegas a casa e pensas na quantidade de vezes que dizes “tipo” ou “bué”. Ninguém é assim, as pessoas podem é arranjar desculpas para comunicarem mal.

"Lembro-me de crescer, olhar e pensar que não tinha ninguém com o meu tom de pele na televisão. A partir do momento em que comecei a ganhar alguma notoriedade quis ser uma referência para todos os rapazes e raparigas que se possam identificar. Mas não quero ser uma Angela Davis ou um Martin Luther King […]"

Agora, com o “The Voice”, não está a partir tão do zero como quando chegou à rádio.
Não, mas tenho 25 anos e estou a trabalhar com pessoas que fazem isto há 20 e há 30 anos. Estou disposto a aprender, a ser corrigido, a que me chamem a atenção e a que não me deem só palmadinhas nas costas. Acho que acontece regularmente no mundo do entretenimento em Portugal — quando fazes bem dão-te muitas palmadinhas nas costas, quando estás a fazer mal têm medo e hesitam em dizer. E depois questionas como é que não estavas a fazer aquilo assim tão bem quando as pessoas até te davam os parabéns. Se não estou a fazer bem digam-me, seja a postura, a forma de falar, o olhar, a expressão facial.

Uma das coisas que mais valorizo num projeto é a margem de progressão que tenho. Agora, estou no mundo da música, no mundo da comunicação, na televisão, na RTP1 e tenho 25 anos. Quando cheguei ao YouTube e comecei a ganhar alguma popularidade (comecei em setembro e no final do primeiro período já era o Conguito), muitas das conversas eram quase um presságio: “Cuidado que isto amanhã acaba” ou “Cuidado que amanhã isto pode desaparecer”. Isso criava uma grande ansiedade dentro de mim. É óbvio que isto, como tudo, pode acabar. O importante é gostarmos do que fazemos. Se isso acontecer, tenho a certeza de que vamos ser muito mais felizes.

A chegada ao “The Voice” é um passo importante para a carreira que quer construir, mas também é um marco para a própria televisão, sobretudo porque contamos pelos dedos de uma mão os rostos negros no entretenimento em Portugal. Pensa neste desafio nessa perspetiva?
Penso nisso desde que existo no panorama digital. Lembro-me de crescer, olhar e pensar que não tinha ninguém com o meu tom de pele na televisão. E questionava se um dia conseguiria chegar ali. Também não havia ninguém com a minha voz na rádio. Será que tenho de ser apenas jogador de futebol ou músico? A partir do momento em que comecei a ganhar alguma notoriedade quis ser uma referência para todos os rapazes e raparigas que se possam identificar. Quero ser essa influência positiva, mas não uma cara. Sou este rapaz que fez o seu percurso e que usou aquilo que pode ser visto por alguns como uma fragilidade — ser negro — como uma força. Para mim sempre fez sentido usar precisamente a diferença — tenho o meu tom de pele, adoro a minha identidade, as minhas raízes, a minha cultura — e ver no que dá. Mas não quero ser uma Angela Davis ou um Martin Luther King porque não tenho conhecimento para isso, ponto final.

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Não quer ser um ativista.
Posso fazer tudo o que está ao meu alcance para tornar o mundo num sítio mais inclusivo para todos, mas não posso ser a cara de um movimento. Quando estamos em alturas um bocado mais críticas, em que temos alguns líderes ou pessoas a comentarem, alguns jovens negros pedem-me para ir contra esta ou aquela pessoa, para falar sobre isto e sobre aquilo. Eu não quero entrar neste conflito, a minha missão não é essa. A minha missão é, diariamente, estar aqui a dizer a quem está à minha volta que o que está a acontecer no mundo é mau. Se tiver oportunidade de falar com o diretor de um canal de televisão vou falar.

No início, quando olhava para a televisão e não via um único negro, antecipou que seria difícil chegar lá. Deparou-se com essas barreiras?
Não, sempre tive a sorte de estar rodeado de pessoas inteligentes e que nunca olharam para a cor da minha pele como um problema. Mas também nunca achei que não conseguia chegar lá. Sempre pensei que, se trabalhasse e me esforçasse, mesmo que fosse dez vezes mais que os outros, talvez conseguisse. Tenho noção do meu privilégio — os meus pais emigraram na década de 80 e eu e a minha irmã tivemos uma educação normal –, há muitas pessoas que não têm as condições que tive. Não posso dizer a alguém de outro background para trabalhar o que eu trabalhei para chegar onde eu cheguei, provavelmente vai ter de trabalhar mais. Mas não podemos deixar os sonhos numa gaveta. Tive a sorte do YouTube me ter dado a oportunidade de explorar as coisas de que gosto. Quem está a ir para a universidade, espero que esteja a ir para o curso que o apaixona e não para o que tem mais saída. Quem se está a candidatar a um novo emprego, pode não ser o emprego de sonho, mas que ajude a chegar lá.

"As conversas importantes também acontecem em casa e no trabalho, quando ouvimos uma piada de mau gosto. 'Ah mas agora já não se pode dizer nada' -- é claro que agora já não se pode dizer nada, agora temos de estar cientes de que o que dizemos pode magoar alguém"

O que é que pensa quando ouve um agente político dizer que “Portugal não é racista”.
Acho que essa pessoa tem de sair da sua bolha. Quando alguém diz isso, das duas uma: ou quer atenção mediática ou simplesmente não tem conhecimento do mundo. A melhor forma de evoluirmos é através da colaboração e da conversa. Se alguém diz isso é porque não tem conversado o suficiente, ou então só tem conversado com um tipo de pessoas. Precisamos de pessoas que incentivem o diálogo e que tentem perceber os dois lados da história. Não podemos atacar essa pessoa quando ela diz que Portugal não é racista. Vamos tentar conversar. Se não estiver disposta a isso, vamos ter com quem esteja. Depois ouvimos: “Ah, mas ele diz muitas verdades”. Ele diz muitas verdades? O que é que ele diz que é verdade, ao certo?

E não nos podemos esquecer que as conversas importantes também acontecem em casa e no trabalho, quando ouvimos uma piada de mau gosto.”Ah mas agora já não se pode dizer nada” — é claro que agora já não se pode dizer nada, agora temos de estar cientes de que o que dizemos pode magoar alguém. Vivemos em 2020, step the game up. Se calhar, só queria mandar uma piada, mas essa piada ofendeu o outro. Será que no seu vocabulário, essa pessoa só consegue dizer isso, que não tem mais nada para dizer? Não podemos ter medo de ter estas conversas com os nossos colegas, com os nossos pais, os nossos avós, com os nossos amigos.

Vive atento a esse tipo de situações?
Ao meu redor, sim. Não procuro o conflito, procuro perceber porque é que aquela pessoa disse aquilo. Às vezes percebo porque é que o disse — não tem noção do seu privilégio. E tento conversar, muitas vezes sem sucesso.

O movimento Black Lives Matter levou algumas marcas a reverem termos com que comunicam e a imagem de produtos há décadas no mercado. Em julho, houve uma petição para que a empresa espanhola que detém os bombons Conguitos mudasse o nome e a imagem, ambos com origem num passado colonial. Nunca pensou em rever essa alcunha?
Não. Não é por uma empresa espanhola mudar o nome ou o boneco que deixamos de ter pessoas racistas no mundo. A nossa luta é diferente, diz respeito a um racismo institucional que existe há décadas — não vemos negros representados da mesma forma que não vemos pessoas LGBT representadas. Isso é importante. Quando comecei a ganhar notoriedade, disseram-me que devia começar a ser o Fábio e abandonar o nome Conguito. Mas faz parte de mim, da minha identidade. Pode ter uma conotação negativa, respeito que alguém se sinta mal ou ofendido quando o ouve e peço desculpa por isso.

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Quero ter força suficiente para que Conguito seja uma coisa positiva. Algo que não é visto como ofensa, mas sim associado ao rapaz que anima as manhãs na Mega Hits, que gostam de ver no “The Voice” ou que criou aquela revista de música quando tinha 24 anos. Isso para mim é importante, mas sem nunca desvalorizar quem acha Conguito uma ofensa. Peço desculpa, mas vou continuar a usar este nome. Qualquer que seja a mesa onde me sente, nunca deixo de ser o Conguito e é uma forma das pessoas terem sempre noção do meu background e da minha identidade. Quero chegar à reforma e saber que nunca a perdi.

Está na rádio, nas redes sociais, tem uma revista, um projeto musical e agora também na televisão. Aos 25 anos, parece ter a vida bastante consumida pelo trabalho.
Mas é um trabalho que me diverte. Acordo todos os dias às 5h15 e às 21h30 estou a dormir. Tirando os concertos, não existem assim grandes coisas à noite que me agradem. Tenho sempre vontade de aprender mais e quero perceber aquilo de que gosto e de que não gosto. Participei numa novela, amei a experiência, mas percebi que não era para mim. Participei num filme, amei a experiência e percebi que não era aquilo que queria seguir. Tenho um projeto musical com dois dos meus melhores amigos [Dois Brancos & Um Preto] e a sensação de estar em cima de um palco é fantástica. Não sei se é da minha geração ou não, mas precisamos de estímulos. Quero chegar à reforma e pensar que fiz isto e isto e isto. Mesmo que agora envolva dormir um bocadinho menos. Há tempo para tudo e a forma como o gastamos a ferramenta mais importante que temos na vida. Agora ando com a mania de querer aprender a tocar piano, por isso se calhar vou tentar inserir nesta minha agenda uma hora de piano todos os dias.

Parte do seu rendimento vem do Instagram, onde o vemos a trabalhar com marcas como a Sagres, a Durex e a McDonald’s. Esse negócio ressentiu-se com a pandemia?
Gosto muito de festivais e este ano, infelizmente, não tivemos. Tinha algumas ações fechadas que foram adiadas para 2021. Ao mesmo tempo, tive a sorte das marcas com que trabalho regularmente se adaptarem. Reduzimos as coisas, enquanto outras não fizeram nada durante dois ou três meses, mas disseram que na segunda metade do ano voltávamos a trabalhar. Nos primeiros tempos, eu próprio não quis estar a comunicar nada quando as pessoas estavam a passar por um mau bocado. Ali entre finais de março e inícios de junho não fiz publicidade. Agora já estamos nesta nova normalidade, já tenho feito coisas.

"Quando comecei a ganhar notoriedade, disseram-me que devia começar a ser o Fábio e abandonar o nome Conguito. Mas faz parte de mim, da minha identidade. Pode ter uma conotação negativa, respeito que alguém se sinta mal ou ofendido quando o ouve e peço desculpa por isso"

Fala-se do impacto da pandemia na retração das marcas e no investimento feito nos influenciadores digitais. Como é que isso o afetou financeiramente?
Não consigo quantificar. Sei que as pessoas passaram mais tempo online, por isso as marcas que tinham ações em terreno tiveram de se adaptar. Para alguns influenciadores pode ter sido difícil.  Não posso falar por todos, mas acho que foi uma questão de adaptação mesmo.

Imagina-se a manter esse entusiasmo em torno do trabalho durante os próximos anos?
Não consigo responder em relação ao que vou querer amanhã. Vivo um bocado por impulso. Amo isto hoje, mas se calhar amanhã acordo e penso que já não gosto disto ou que estou saturado. Acho que não vai acontecer, mas é uma possibilidade. Se calhar, daqui a cinco anos, vou continuar na rádio, já não nas manhãs, mas noutros moldes, com um programa ao fim de semana ou ao fim da tarde. Ou estarei na televisão mas noutro formato. Se calhar posso fartar-me e posso estar em Montemor-o-Novo, com um terreno e a perceber imenso de agricultura. Logo se vê o que acontece daqui a uma semana, da mesma forma que logo se vê o que acontece daqui a dez anos.

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