Tinham passado seis meses da independência de Timor quando, em 2002, a diocese de Díli emitiu um comunicado surpreendente: o Nobel da Paz e administrador apostólico de Díli, Carlos Filipe Ximenes Belo, acabara de renunciar ao cargo e o pedido tinha sido aceite pelo Papa em 24 horas. Motivo: estava cansado, estaria doente e precisava de um “longo período de recuperação” — que viria a fazer em Portugal. Grande parte das pessoas acreditaram nesta versão até esta quarta-feira, quando o jornal holandês The Groene Amsterdammer publicou uma investigação que divulga relatos de homens que terão sido por ele abusados sexualmente quando eram crianças, nas décadas de 80 e 90. Muitos, porém, já sabiam que o cansaço e a doença não eram as verdadeiras razões. O Observador apurou que, em Timor, pelo menos desde 2007, estas suspeitas já eram conhecidas entre as forças de segurança. E, pelo menos desde 2010, a hierarquia da Igreja em Portugal também ficou a saber, pouco antes da visita do Papa Bento XVI.

A notícia do The Groene Amsterdammer veio, ainda assim, apanhar muitos de surpresa. A ministra dos Negócios Estrangeiros de então, Teresa Gouveia, foi uma delas. “Sempre associei a sua vinda [para Portugal] a motivos de saúde”, disse por telefone ao Observador. E foi isso mesmo que foi sendo proclamado nas notícias que iam saindo sobre o bispo. A verdade é que Ximenes Belo deixou o cargo vazio em Díli e, em janeiro de 2003, alojar-se-ia num mosteiro salesiano na zona de Aveiro. Esse “longo período de recuperação” duraria um ano e meio, altura em que decidiu ir em missão para Moçambique e auxiliar um padre local no trabalho com crianças.

“Faço trabalho pastoral ensinando o catecismo a crianças, dando retiros aos jovens. Desci do topo para a base”, disse num evento em Banquecoque para o qual foi convidado enquanto Nobel, numa declaração registada pelo UCA News.

Nessa altura, o bispo ainda não tinha terminado a sua missão em Moçambique, mas anunciou que, mal a acabasse, voltaria a Timor para visitar familiares próximos. No entanto, em 2006, desta vez ao Jornal de Notícias, afirmou que só poderia regressar ao país quando a Santa Sé o permitisse. “Regresso imediatamente, se tiver autorização da Santa Sé e um chamamento dos dois colegas bispos de Timor, de Xanana Gusmão, Mari Alkatiri, Ramos-Horta e dos comandantes da Polícia e do Exército. Estou disponível para ser o reconciliador, dirimir diferenças étnicas, ideológicas, religiosas ou mesmo políticas”, explicou. Mas não há registo de que ali tenha regressado.

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