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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Joacine Moreira não é caso único. Em Portugal há 100 mil gagos, mas o tema ainda é tabu /premium

Joacine Moreira pôs os eleitores a falar de gaguez, mas nem todos concordam que o caso da deputada ajude quem tem o mesmo problema. Os gagos falam em limitações profissionais, sociais e muitos mitos.

Quando, em agosto, Joacine Katar Moreira deu uma entrevista à Rádio Observador, ainda a campanha oficial não tinha começado, era difícil perceber de que forma a gaguez severa da agora deputada iria marcar a sua eleição. A conversa nas Manhãs 360º tornou-se rapidamente viral e mereceu centenas comentários, entre a crítica e a solidariedade. Com ela, a candidata do Livre, que nasceu na Guiné-Bissau e chegou a Portugal aos oito anos, saía do anonimato.

De lá para cá, a sua gaguez tornou-se tema constante. Ao DN, por exemplo, contou o episódio em que decidiu assumir a gaguez, depois de quase ter mudado um pedido num café por ter dificuldade em fazê-lo: “As pessoas na fila atrás de mim estavam à espera, a empregada do café começou a perder a paciência e eu acabei por pedir uma água. Mas, depois, pensei melhor: eu não quero uma água, quero uma Coca-Cola e é isso que vou pedir, não me interessa o que os outros pensam”. Depois admitiu ao Expresso que foi adiando a chegada ao espaço público por gaguejar. “Evitei durante muito tempo a televisão. Achava que as pessoas iam prestar mais atenção à forma como eu falava do que àquilo que eu dizia.” E não se enganou.

Depois do debate dos pequenos partidos, na RTP, a questão tornou-se polémica, com alguns a duvidarem da veracidade do problema, por causa da forma severa como Joacine Katar Moreira gaguejava. Houve quem afirmasse nas redes sociais que se tratava de um “exagero” e uma “fraude”, numa “tentativa de manipular os portugueses”, levando a candidata a defender-se no Twitter.

Nesse mesmo debate, Carlos Guimarães Pinto, líder da Iniciativa Liberal, também falou sobre o facto de ser gago. E logo ao seu lado estava sentado Fernando Loureiro, candidato do Partido Unido dos Reformados e Pensionistas, que também se juntou: “Já somos três aqui”. Na verdade, estima-se que sejam 100 mil em todo o país e há até uma associação que promove encontros, atividades e colóquios, nacionais e internacionais.

A gaguez é um problema maioritariamente masculino e continua a ser tabu — mesmo dentro de algumas famílias. Pode ter múltiplas origens — nomeadamente a hereditariedade — e melhorar ao longo do tempo, mas há ainda muitos estereótipos e mitos à sua volta. Os gagos falam em limitações sociais e profissionais — e nem todos concordam que a visibilidade do caso de Joacine Katar Moreira e a leveza com que a deputada fala do assunto possam ajudar.

Da queda no mar ao susto com um cão

Áurea Mendonça tem 55 anos e começa por dizer, em entrevista ao Observador, que não é “gaga a tempo inteiro”. Isto porque a sua gaguez apenas se manifesta quando está mais nervosa, algo que, garante, já aprendeu a controlar. Ao contrário da maioria dos gagos, Áurea não nasceu assim. Aos cinco anos, estava a aprender a nadar e foi na praia da Barreirinha, no Funchal, de onde é natural, que fez a primeira tentativa de mergulho. Sozinha, sem braçadeiras, colocou-se num pontão e foi empurrada por um grupo de jovens. Caiu à água e acabou por desmaiar. Foi imediatamente socorrida pela mãe e por outras pessoas que estavam no local, demorou a assimilar o que lhe tinha acontecido e, com o susto, tornou-se gaga. “Nunca mais falei como antes”, conta.

Inicialmente tinha reações musculares que acompanhavam a sua dificuldade em comunicar, como fechar os olhos ou abrir muito as mãos e a boca, tiques ultrapassados com ajuda médica. “Nunca fiz terapia da fala, naquela altura era uma prática pouco comum e numa ilha ainda menos”, recorda. No colégio de freiras que frequentou, na Madeira, era caso único de gaguez e, por isso, era “vista como uma menina diferente”.

Aos seis anos, mudou-se para o continente, mas as suas palavras “continuavam a enrolar-se”. Na nova escola,  “sofria horrores” quando os professores a chamavam para ir ao quadro ou lhe pediam para ler algo em voz alta. “Era difícil ter amigos, só nas aulas de ginástica é que sentia que éramos todos iguais.” Nas brincadeiras físicas, como saltar à corda ou ao elástico, podiam contar com ela, mas para dizer piadas ou contar anedotas já não. Ao longo da adolescência, protegeu-se, “não falando muito”, mas, “como corava facilmente”, denunciava rapidamente o desconforto.

A madeirense, já quase sem pronúncia, é agora secretária administrativa e lida com a sua gaguez “de forma mais leve” e sem complexos. “Por vezes, sorrio e digo mesmo que preciso de meter a primeira. Em reuniões acontece muito.” Quando sabe que tem de falar em público, treina o discurso em voz alta, trabalha o raciocínio e aprende a relaxar para conseguir falar pausadamente. “Nas palavras grandes é onde sinto mais dificuldade.”

Áurea enche-se de orgulho quando ouve um político ou um locutor de rádio a gaguejar, sente-se de alguma forma representada, como é o caso da recente eleita Joacine Katar Moreira. “Ela tem uma coragem enorme. A gaguez não é uma doença, é apenas um desafio diário”, afirma, dando o exemplo dos canhotos. Espera que, no Parlamento, Joacine “ganhe o respeito de todos, tenha mais tempo para falar do que os restantes e não seja olhada com pena”. “Tivemos uma secretária de Estado cega, a Ana Sofia Antunes, e não foi por isso que deixou de cumprir as suas funções, pois não?”

Leonel Mendes também não nasceu gago. Este mecânico de 48 anos, da Figueira da Foz, conta ao Observador que foi graças a um susto com um cão solto na rua que regressou a casa a gaguejar pela primeira vez. Tinha quatro anos. “Como era muito falador, os meus pais achavam que aquilo passava naturalmente.” A gaguez continuou, mas nunca teve terapia nem vergonha da forma como se exprimia.

“Claro que uns se riam de mim, outros tentavam disfarçar, mas nunca deixei que isso me afetasse, afinal, só damos a importância que quisermos dar. Sou como sou, é um defeito como outro qualquer.”
Leonel Mendes, mecânico

Para o mecânico, o segredo é mesmo assumir a limitação. “A melhor forma de lidar com a gaguez é andar de mão dada com ela e não a esconder. Não vale a pena disfarçar ou encobrir, ela é como o azeite, vem sempre ao de cima.” Como o azeite e como o vinho do Porto, pois, segundo o Leonel, a gaguez melhora com a idade. “Há dez anos, era muito menos fluente.”

“Tal como o ator Raul Solnado”, encara a gaguez com sentido do humor, garante ser “muito bem resolvido” relativamente a esta sua condição, que não se manifesta quando canta ou diz palavrões no trânsito, e tenta relativizar as situações quotidianas, como o dia em que teve de escrever no papel o que queria comprar numa loja, para que o entendessem. “Não posso exigir que a sociedade não se ria ou ache normal a forma como falo. Sinto que as pessoas percebem o que me vai na alma, mais do que na voz.”

Um jantar para gagos que virou uma associação

Luís Rocha tem 52 anos, é um dos fundadores da Associação Portuguesa de Gagos (APG), nascida em 2005, e o atual presidente da Mesa da Assembleia. “Na Figueira da Foz, começaram a organizar-se jantares informais para gagos. No primeiro tivemos mais de 40 pessoas e rapidamente percebemos que podíamos levar isto mais longe, uma vez que existiam milhares de pessoas a passar pelo mesmo”, explica em entrevista ao Observador. Juntaram-se a terapeutas da fala e formaram um coletivo que hoje promove encontros, atividades e colóquios, nacionais e internacionais. Próximas no calendário estão as XII Jornadas Sobre a Gaguez, em Alqueidão, na Figueira da Foz. Acontecem dia 26 de outubro, à boleia do Dia Internacional da Gaguez, assinalado a 22.

DR

“Temos fóruns online em algumas cidades, como Coimbra, Leiria, Porto, Aveiro ou Lisboa, acompanhamento para famílias e parcerias com escolas superiores que têm cursos superiores de terapia da fala, para que os futuros profissionais possam conhecer as reais dificuldades dos gagos.”

A APG tem cerca de 150 associados, maioritariamente homens, o género mais afetado por esta perturbação. “Segundo os últimos estudos, 1% da população portuguesa sofre de gaguez e a maioria não tem força, vontade ou determinação para lidar com ela, acabando por se isolar e viver este drama de uma forma brutal. Grande parte das escolas não tem terapeutas da fala, nem está informada sobre esta matéria. Os próprios pais não sabem, muitas vezes, o que fazer.”

O responsável defende que a gaguez “seja considerada uma deficiência, para que os sistemas de saúde e educação a olhem de forma mais séria, dando-lhe respostas terapêuticas em tempo útil”, ou seja, o mais cedo possível, na infância. A falta de informação da sociedade e da comunicação social é, na opinião de Luís Rocha, outra das dificuldades sentidas, pois “ainda existem programas que exploram a gaguez, a ridicularizam e a diabolizam”, concluindo que é necessária “uma mudança na perceção social”. “Lembro-me de, um dia, me ligarem de um programa televisivo a convidar alguém da associação para ir lá falar. Ao ouvirem-me, perceberam que não tinha um nível de gaguez elevado e pediram para levar alguém mais gago do que eu.”

A discriminação “não assumida” no mercado de trabalho é outro dos obstáculos. “Ouvimos muitos casos de pessoas que não ficam empregados por serem gagos, mas isso nunca lhes é dito diretamente. Coloco-me na posição do entrevistador e é difícil assumir isso. Duvido mesmo que algum dia aconteça.”

O pesadelo de falar em público e o medo de herdar uma limitação

Além de dirigir a APG, Luís Rocha é também presidente do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património, em Coimbra, e a sua gaguez manifestou-se aos cinco anos, altura em que entrou para a escola. Sociável e comunicativo desde que se lembra, confessa que nunca sofreu de bullying, mas “suava bastante” quando o professor o chamava ao quadro, rejeitando sempre fazer provas ou exames orais, por vergonha e insegurança.

Em Lisboa, licenciou-se em Política Social e, no final do curso, foi convidado para ser professor assistente, mas recusou. “Apresentei mil e um argumentos, a verdade é que, por ser gago, tinha medo de enfrentar os alunos.” Recorda que com 30 anos foi convidado a participar num seminário e, a caminho, sozinho no carro, pensou em desistir. “Passou-me pela cabeça ligar a dizer que o carro tinha avariado. Estava em pânico.” Hoje revela que o seu truque é treinar o discurso como se fosse um ator, “exagerando na entoação e falando com maior entusiasmo”.

“Para nós, falar é duplamente difícil, pois temos de pensar não apenas na forma, mas também no conteúdo e quando há uma palavra que achamos que não conseguimos dizer, temos que encontrar rapidamente um sinónimo. Os gagos são verdadeiros heróis.”
Luís Rocha, presidente da Mesa da Assembleia da Associação Portuguesa de Gagos

É o mais novo de nove irmãos, tem um tio materno gago e um dos seus “maiores medos” era que um dos seus três filhos também o fosse — a gaguez, como veremos, pode ser hereditária. “Sei bem o que senti e o que sofri, não queria que nenhum deles passasse por isto também.” Otimista, o representante da APG reconhece que se têm dado passos importantes no conhecimento desta realidade e considera que a eleição de Joacine Moreira contribuiu para isso mesmo. “Vi publicados nas redes sociais pensamentos débeis e completamente infundados, a insinuarem que ela é uma falsa gaga, o que é ridículo. Custou-me ouvir chamarem-na de coitadinha. Nós não queremos que nos olhem como coitadinhos.”

Luís não espera “milagres”, nem que Joacine seja “a deputada dos gagos”, mas acredita que a representante do Livre possa dar “uma visibilidade que, até aqui, não tínhamos”. “Antes, a gaguez não se discutia, não era um assunto. Hoje, as pessoas têm noção de que um gago pode ter uma vida perfeitamente normal, pois, como ela mesma disse, os nossos pensamentos não são gagos.”

A perturbação em que falar é jogar na lotaria

Segundo Helena Germano, terapeuta da fala e docente do Instituto Politécnico de Setúbal, a gaguez é “uma perturbação na afluência do discurso” que não tem causa nem cura cientificamente provadas, ainda que alguns estudos da neurociência “provem que o cérebro das pessoas gagas funciona de forma diferente”.

Gaguejar pode ser hereditário, uma vez que existe um fator genético que passa de geração em geração, mas está relacionado com aspetos emocionais, neurológicos e comportamentais. É mais comum nos homens e frequentemente detetável durante o período de neuro desenvolvimento, geralmente entre os dois e os cinco anos, “momento em que a linguagem se torna mais complexa”.

A também representante da Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala, explica ao Observador que 5% das crianças gaguejam, algo que acaba por desaparecer durante a adolescência “de forma natural”, sendo que, atualmente, apenas 1% dos portugueses convivem com esta perturbação.

“É importante esclarecer que a gaguez tem uma natureza completamente involuntária e é muito variável ao longo do discurso, o que causa momentos penosos para os gagos e uma sensação de perda de controlo total. Eles sabem perfeitamente o que querem dizer, mas a palavra não flui da forma que desejam.”
Helena Germano, terapeuta da fala

Existem vários níveis de gaguez – ligeiro, moderado e grave – e, apesar de a sua causa ser muitas vezes associada a sustos ou a situações de crise ou conflito, isso raramente acontece. “Até à adolescência, raramente a gaguez tem uma origem traumática. Em idade adulta, pode ter origem num AVC ou traumatismo craniano”, explica a especialista.

Com mais de 30 anos de experiência na terapia da fala, Helena Germano afirma ainda que o esforço, os espasmos ou a tensão muscular associados ao gaguejar não estão relacionados com qualquer lesão cerebral. São “movimentos comportamentais secundários e compensatórios à gaguez”, uma vez que funcionam “como uma fuga ao momento de tensão”, muitas vezes provocado por esta limitação.

Nervosismo, ansiedade, insegurança ou timidez não são, segundo a terapeuta, características que motivem a gaguez, mas podem ser algumas das suas consequências, a par do medo e da vergonha, embora o maior impacto negativo seja mesmo a participação. “Desde logo, na escola, quando nos deparamos com comentários críticos. Depois, na adolescência, onde existem situações bullying, e, mais tarde, nas escolhas de vida, em que muitos optam por profissões menos expostas e não vão a atrás dos seus sonhos.”

Nas sessões da terapia da fala trabalha-se a fluência e a capacidade comunicativa, através de técnicas e exercícios, e ensina-se a controlar os momentos de gaguez. “No caso das crianças, há uma ação mais lúdica, onde é importante enaltecer a auto estima. Já nos adultos, existe um trabalho mais profundo a nível cognitivo, onde é fundamental que aceitem a gaguez e aprendam a viver com ela.”

Helena Germano destaca ainda que “ninguém gagueja de propósito, por preguiça ou para ser engraçado” e que “a maior dificuldade para estas pessoas é nunca saberem como é que a sua mensagem vai ser emitida e recepcionada”.

O caso de Joacine pode ajudar? Nem todos concordam

A prova de que a gaguez continua a ser um assunto tabu é o caso de Luísa Afonso, uma farmacêutica do Porto com 32 anos. Segundo o que a mãe lhe conta, começou a falar tarde e, aos três anos, notaram que hesitava muito nas palavras. “O meu pai é gago, por isso era normal que eu também fosse. Curiosamente, nunca falámos abertamente sobre isto.”

Depois de passar por vários pediatras e psicólogos, Luísa frequentou a terapia da fala durante cinco anos, mas pouco se lembra dos jogos e dos exercícios que por lá fazia. Na escola, era tímida, uma consequência da sua dificuldade em comunicar, e não esquece os “miúdos parvos” que lhe chamavam “trapalhona”.

Aos 15 anos ganhou alguma confiança. Na escola secundária aprendeu a controlar a ansiedade e o desconforto, um cenário que caiu por terra na faculdade. “Quando tinha de fazer apresentações de trabalhos em público, entrava em pânico. Então, aos 21 anos, voltei à terapia. Foram sessões mais viradas para a psicologia, onde aprendi aceitar-me como gaga e a saber que isto é uma condição, mas não um problema.”

Luísa Afonso revela ao Observador que a melhor terapia foi mesmo começar a trabalhar na farmácia onde estagiou. “Gaguejo mais em casa, quando estou relaxada entre família e amigos, do que com pessoas que não conheço de lado nenhum.” Amigos nunca lhe faltaram, mas namorados só teve um. “Sempre tive mais amigos do que namorados, a gaguez era sempre um entrave”.

Sobre a mais recente eleita deputada do Livre, a farmacêutica não concorda que Joacine Moreira “se importe mais com a discriminação racial do com a gaguez”. “Acho que a gaguez a prejudicará mais no Parlamento do que a cor de pele. Não me sinto representada por ela”.

O caso da, agora, deputada Joacine Katar Moreira, do Livre, trouxe ao debate o tema da gaguez, que afeta 1% da população portuguesa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Uma opinião diferente tem José Carlos Domingues, engenheiro civil de 34 anos, natural de Pombal. É gago desde os cinco anos, tem um irmão mais novo na mesma condição, e vê com bons olhos a presença de Joacine na Assembleia da República. Até compara o momento com a estreia do filme “O Discurso do Rei”, em 2010, inspirado na história do rei Jorge VI, que teve de contratar um terapeuta da fala para o ajudar a discursar. “Ela vem colocar a gaguez na ordem do dia e isso é bom”, afirma, esperançoso de que isso traga medidas concretas, uma vez que, sentada no Parlamento, estará agora uma “interlocutora privilegiada” para trabalhar este problema.

José conheceu a APG através do seu terapeuta da fala. “Há a ideia comum nos gagos, de que são as únicas pessoas no mundo com esta condição. Como tive outros elementos na família, nunca passei por este sentimento, mas a maioria dos gagos sente-se sozinha e incompreendida. Partilhar histórias e conquistas funciona como uma importante inspiração e motivação.”

Dora escolheu ser jornalista, Daniel é professor

Quem não se deixa prejudicar pela gaguez é Daniel Neves da Costa. Tem 40 anos e é professor na Faculdade de Economia na Universidade de Coimbra. “Deixo os alunos completamente à vontade para me pedirem que repita alguma informação”, esclarece, acrescentando que também tem alunos gagos. “Sinto que, mais do que dar conselhos, terem à sua frente um professor gago, e que o faz de forma livre e despreocupada, serve de exemplo a não se deixarem inibir.”

“A minha gaguez na sala de aula legitima a existência de outras formas de falar. A gaguez ganha espaço no processo de comunicação que ocorre em aula, não como algo a esconder, a evitar, mas como uma entre as formas diversas de se falar, com uma temporalidade própria e um ritmo único.”
Daniel Neves da Costa, professor

Dora Mota, de Paredes, também escolheu uma profissão onde a comunicação é tudo. Tem 42 anos e vários gagos na família, sendo a única mulher com esta limitação. “Lembro-me de, aos sete anos, estar a falar sozinha e as palavras não me saírem. Aí percebi que era gaga.” Os pais não deram logo importância ao assunto, fez apenas uma ou duas sessões de terapia e, sozinha, aprendeu a falar devagar, a respirar no tempo certo e a comunicar mais com as mãos.

Dos tempos de escola, lembra-se dos colegas que corriam atrás dela e lhe chamavam gaga ou dos que simplesmente se riam quando abria a boca. Foi ao interpretar um papel numa peça de teatro que percebeu que incorporando uma personagem não gaguejava, mas só na faculdade aprendeu a aceitar a gaguez e a desbloquear algumas inseguranças que não a deixavam falar em público. “Sempre fugi de congressos, conferências e apresentações. Falei em público pela primeira vez aos 35 anos”, conta ao Observador.

Optou por ser jornalista e, antes das primeiras entrevistas, treinava sempre em frente ao espelho como fazer as perguntas, controlando “alguns tiques faciais”. “Por causa da gaguez, nunca ponderei fazer rádio ou televisão, por isso escolhi imprensa.” Através da internet conheceu a APG e, segundo Dora, foi, até hoje, o único benefício que ser gaga lhe trouxe. “Permitiu-me conhecer e desabafar com pessoas que me compreendem à primeira, não preciso de lhes explicar nada”.

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