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(artigo em atualização ao longo do dia)

Nuno Melo pega no megafone que os “jotas” carregam todos os dias e faz um anúncio: “Atenção, este é um momento inédito de qualquer campanha: o senhor Ribeiro diz que oferece uma cerveja a cada um! Bora lá!“. Foi assim que a arruada final do CDS, no centro do Porto, teve cerveja de borla: finos, para ser mais preciso. Em tempos perigosos para os políticos aceitarem ofertas, Nuno Melo não valoriza o “aproveitamento indevido de vantagem”. É o último dia de campanha e é dia de mostrar força no Porto, com tambores, banda, bandeiras e cânticos de toda a espécie.

Quanto ao “senhor Ribeiro”, não se importa com o prejuízo. Enquanto tira finos em série para servir toda a comitiva do CDS, responde ao Observador que não é militante do CDS mas é simpatizante “há muito tempo”. E conhece Nuno Melo, que “pára numa casa [um restaurante] em Famalicão” onde Albertino Ribeiro costuma ir com a família. Por isso, pela “admiração” que tem ao candidato, não se importa com a quantidade de cerveja que está a ser servida a troco de nem um cêntimo. Prejuízo? “Não há nenhum, a vida é dinâmica, temos de fazer coisas”, diz ao Observador.

De cerveja na mão, Nuno Melo segue feliz: “Isto faz-me lembrar os tempos do cortejo em Coimbra”, comenta com o Observador. Na verdade, aquela que foi a última arruada da campanha (maior e mais prolongada do que a arruada da Rua Augusta, que foi sobretudo para “inglês ver”), em muitos momentos pareceu mais um desfile do que uma forma de contactar com a população. Vários eram os turistas que apareciam pelo caminho e que, por não serem eleitores, rejeitavam o papel. “Holla”, limitavam-se a dizer. A presença de espanhóis era tanta que até levou Nuno Melo a fazer uma comparação com o PP espanhol (não com o Vox), apesar de o PP ter tido um mau resultado nas urnas no país irmão. Mau para o PP, sim, mas se o CDS “tivesse a mesma percentagem de votos do que o PP”, isso era uma maravilha.

Com início na Praça do Leões, junto à reitoria da Universidade do Porto, a rota do CDS estava toda pensada para não colidir com a arruada do PSD, que iria começar praticamente à mesma hora, mas na rua de Santa Catarina — onde a do CDS deveria terminar. Por isso, o caminho dos centristas foi sinuoso e cheio de curvas e contra-curvas, sinais vermelhos e muitos carros pelo caminho. “Calma”, dizia o diretor de campanha, Pedro Morais Soares. Era preciso abrandar o passo. Coordenaram agendas?, pergunta o Observador. “Não, mas sabemos as horas a que as outras [arruadas] começam e não nos interessa cruzar, queremos falar com as pessoas”, responde Nuno Melo.

Seria precisamente num cruzamento com a rua de Santa Catarina que a mancha azul e branco encontraria a mancha cor-de-laranja — mas de forma discreta. Os laranjas iam lá no cimo da rua, os azuis desceram para o lado contrário. “Agora é costas com costas”, atirou Nuno Melo antes de subir para um pilarete para fazer de maestro para as suas tropas. Era hora de medir forças em ruído e cantorias. De bandeira nacional em riste, o CDS cantou: “Sou/Do CDS eu sou/Para todo o lado eu vou/Até Nuno Melo ganhar”.

“Saio da campanha de consciência tranquila”

No último dia de campanha, Nuno Melo sabe que “mais não podia ter feito”. Em jeito de balanço — mesmo quando ainda falta uma arruada importante no Porto e um jantar de encerramento em Aveiro — Nuno Melo começou o dia em Penafiel a fazer um último apelo para os eleitores “não ficarem em casa”. Ficar em casa é o mesmo do que dar um voto aos extremismos, voltou a dizer o candidato à margem da visita a uma empresa de roupa para homem, em Penafiel, Porto.

Já ontem, pelo jantar, Assunção Cristas tinha dramatizado o apelo ao voto. É o tudo por tudo. “É a última oportunidade que temos de combater os extremismos”, disse Nuno Melo, sublinhando que “cada abstenção potencia o aumento dos votos dos extremismos, que são em regra muito mais militantes do que os militantes e simpatizantes dos partidos tolerantes”. O slogan agora, dirigido aos que “se reveem no lado direito da moderação” é “não fiquem em casa”. Como dizia Cristas ontem à noite, “levem a tia mais idosa a votar”, telefonem aos amigos e vizinhos, e convençam toda a gente a ir votar.

Num discurso que soa quase a derrotista, Nuno Melo diz que sai da campanha ” consciência completamente tranquila” e com a sensação de dever cumprido: “Mais não podíamos ter feito”.

“Eu não sei o que vai acontecer domingo, mas mais não podemos fazer. Começámos mais cedo do que os outros, fomos a mais sítios do que os outros, fizemos mais quilómetros do que os outros, falámos com mais pessoas, e tivemos a coragem de dizer o que os outros não tem coragem de dizer porque só estão preocupados com os títulos do dia seguinte”, afirmou, destacando a campanha “alegre e mobilizadora” que o CDS fez.

Contando desde o dia 10 de maio, sexta-feira, três dias antes do arranque oficial da campanha, a comitiva do CDS afirma ter feito 8.100 quilómetros, tendo passado por todos os distritos e principais concelhos do país, incluindo Açores e Madeira. “Estivemos todos unidos, crentes na justiça de um bom resultado, depois será o que o povo quiser”, rematou Nuno Melo em Penafiel. Agora, é rezar, como pedia o candidato a uma feirante de Barcelos que se ofereceu para o fazer: “Reze, reze”.