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O deserto, as tribos e a Revolta: as memórias do verdadeiro Lawrence da Arábia

O Observador faz a pré-publicação de uma nova edição de "Os Sete Pilares da Sabedoria", o livro com as memórias de T.E. Lawrence e da sua participação na Revolta Árabe, na Primeira Guerra Mundial.

Antes de “Lawrence da Arábia”, o herói do cinema a quem Peter O’Toole deu corpo no filme de David Lean (1962), existiu Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o arqueólogo que era também oficial das forças armadas britânicas e que durante a Primeira Guerra Mundial estabeleceu a ligação entre as tropas do Reino Unido e a Revolta Árabe, na luta que opôs os países árabes contra o Império Otomano.

O papel de Lawrence na aliança estabelecida com o influente emir Faisal, na conquista de Damasco, na Síria, associado a uma simbologia entre o romântico e o pop (o rebelde lutador que morreu precocemente, aos 46 anos, num acidente de mota), transformou-o num ídolo histórico e na perfeita personagem para inspirações e adaptações. E aqui a referência maior continua a ser “Os Sete Pilares da Sabedoria”, o livro de memórias que é, na essência, o relato da participação de Lawrence na Revolta Árabe, os motivos, a contextualização, as ações, os resultados e as consequências, para o próprio, para a Revolta e para o então Império Britânico.

E-Primatur lança agora uma nova edição da obra, com tradução de Marcelino Amaral (está nas livrarias a 17 de junho). O Observador faz a pré-publicação do livro, com excertos que fazem referência a diferentes momentos na epopeia de Lawrence, entre a sua chegada ao mundo árabe e as lutas que travou.

A capa de “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T.E. Lawrence (E-Primatur)

Parte do mal no meu relato talvez seja intrínseco às circunstâncias. Durante anos, vivemos uns com os outros, de qualquer modo, no deserto nu, sob um céu indiferente. Durante o dia, o sol fermentava-nos, ardente; e o vento fustigador entontecia-nos. De noite, éramos maculados pelo orvalho, e os silêncios incontáveis das estrelas reduziam-nos à nossa vergonhosa pequenez. Éramos um exército centrado em si próprio, sem paradas nem pompas, dedicado à liberdade, defensor dos credos humanos, um propósito de tal forma voraz que devorava as nossas forças, uma esperança tão transcendente que as nossas ambições anteriores se apagavam ante o seu clarão.

À medida que o tempo passava, a nossa necessidade de lutar pelo ideal aumentava e transformava-se numa possessão incondicional, cavalgando as nossas dúvidas com rédeas e esporas. Quer o quiséssemos, quer não, transformou-se numa fé. Tínhamo-nos vendido a ela como escravos, algemando-nos uns aos outros às suas grilhetas, curvando-nos perante a sua santidade com toda a nossa boa e a nossa má vontade. A mentalidade dos escravos humanos comuns é terrível – perderam o mundo – e nós tínhamos entregado não apenas o nosso corpo mas também a nossa alma à cobiça dominante da vitória. Por nossa própria vontade, havíamo-nos esvaziado de moralidade, de vontade, de responsabilidade, como folhas mortas ao vento.

A batalha permanente despojava-nos de preocupações pela nossa vida ou pelas dos outros. Tínhamos a corda ao pescoço e as nossas cabeças estavam a prémio, por valores tais que revelavam que o inimigo nos preparava torturas hediondas se fôssemos apanhados. Todos os dias morriam alguns de nós; e os que continuavam vivos sentiam que não passavam de fantoches sencientes no palco de Deus; na realidade, o nosso capataz era impiedoso, impiedoso, enquanto os nossos pés doridos conseguissem arrastar-se pelo caminho. Os fracos invejavam aqueles que se cansavam suficientemente para morrer; pois a vitória parecia tão longínqua e o fracasso uma libertação próxima e garantida, embora dura, do sofrimento. Vivíamos sempre com os nervos ora retesados, ora bambos, ora no auge, ora na depressão das vagas do sentimento. Esta impotência era amarga e fazia que vivêssemos apenas para o horizonte que avistávamos, indiferentes ao mal que infligíamos ou suportávamos, visto que a sensação física se revelava mesquinhamente transitória. As rajadas de crueldade, perversões, desejos, passavam ao de leve sobre a superfície sem nos perturbarem; porque as leis morais que tinham parecido proteger-nos destes acidentes patetas deviam ser palavras ainda mais débeis. Tínhamos aprendido que havia dores demasiado agudas, mágoas demasiado profundas, êxtases demasiado elevados, para poderem ser registados pelos nossos seres finitos. Quando a emoção atingia o seu auge, a mente ficava sufocada; e a memória apagava-se até as circunstâncias regressarem à normalidade.

Tínhamos sempre sangue nas mãos; estávamos habituados a ele. Ferir e matar pareciam-nos sofrimentos efémeros, tão breve e dorida era a vida para nós. Sendo tão grande a dor de viver, a dor do castigo tinha de ser implacável.

Tamanha exaltação do pensamento, embora deixasse o espírito à deriva e lhe conferisse permissão para vogar em estranhos ares, retirava-lhe o antigo domínio paciente sobre o corpo. O corpo era demasiado grosseiro para sentir o auge dos nossos desgostos e das nossas alegrias. Por isso, abandonávamo-lo como se fosse lixo; deixávamo-lo abaixo de nós para marchar em frente, um simulacro dotado de respiração, ao seu próprio nível, sem assistência, sujeito a influências das quais, em tempos normais, os nossos instintos nos teriam feito fugir. Os homens eram jovens e robustos; e a carne e o sangue quentes reclamavam inconscientemente um direito e atormentavam-lhes os ventres com estranhos desejos. As nossas privações e perigos acalmavam este ardor viril, num clima tão excessivo quanto se possa imaginar. Não tínhamos locais fechados onde pudéssemos ficar sozinhos, nem roupas espessas para ocultar a nossa natureza. Em todas as coisas, o homem vivia ingenuamente com o homem.

O Árabe era, por natureza, continente; e o uso do casamento universal tinha praticamente abolido relações irregulares nas suas tribos. As mulheres públicas das escassas povoações que encontrámos nos nossos meses de viagem não teriam chegado para nós, mesmo que a sua carne ocre tivesse sido aceitável para um homem de gostos saudáveis. Horrorizados ante esse comércio sórdido, os nossos jovens começaram a satisfazer indiferentemente as poucas necessidades uns dos outros nos seus próprios corpos limpos – uma conveniência fria que, por comparação, parecia assexuada e até pura. Posteriormente, alguns deles começaram a justificar este processo estéril, e juravam que amigos estremecendo juntos na areia macia, com os membros íntimos quentes no abraço supremo, encontravam aí, oculto na escuridão, um coeficiente sensual da paixão mental que fundia as nossas almas e espíritos num esforço ardente. Vários deles, suportando a sede para castigar apetites que não conseguiam evitar completamente, sentiam um orgulho selvagem em degradar o corpo e ofereciam-se ferozmente para qualquer tarefa que prometesse sofrimento físico ou imundície.

Fui enviado para o pé desses árabes como um estranho, incapaz de pensar como eles ou de aceitar as suas crenças, mas compelido pelo dever de os conduzir e de desenvolver ao máximo qualquer movimento deles que pudesse ser vantajoso para a Inglaterra na sua luta. Se não podia assumir o seu carácter, podia pelo menos ocultar o meu, e passar entre eles sem fricção evidente, sem discordar nem criticar, apenas como uma influência despercebida. Como fui seu companheiro, não posso ser seu apologista nem seu defensor. Hoje, nos meus trajos antigos, poderia passar por espectador, obedecendo às sensibilidades do nosso teatro… mas é mais honesto registar que essas ideias e actos eram então considerados naturais. Aquilo que agora parece dissoluto ou sádico parecia inevitável no terreno, ou apenas um hábito pouco importante.

Tínhamos sempre sangue nas mãos; estávamos habituados a ele. Ferir e matar pareciam-nos sofrimentos efémeros, tão breve e dorida era a vida para nós. Sendo tão grande a dor de viver, a dor do castigo tinha de ser implacável. Vivíamos para o dia de hoje e morríamos por ele. Quando havia razão e desejo de castigar, escrevíamos imediatamente a nossa lição com a espingarda ou o chicote na carne obstinada do desgraçado, e não havia hipótese de apelo. O deserto não permitia os lentos e requintados castigos dos tribunais e das prisões.

T.E. Lawrence com o uniforme britânico

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Evidentemente, as nossas recompensas e prazeres eram tão subitamente arrebatadores como os nossos sofrimentos; mas, para mim, em particular, era menor o seu volume. Os modos dos beduínos eram duros mesmo para os que neles tinham sido criados, e para os estrangeiros terríveis; uma morte em vida. Quando a marcha ou o trabalho terminavam, eu não tinha energia para registar as sensações, nem, enquanto duravam, tempo para ver a beleza espiritual que por vezes nos invadia no caminho. Nas minhas notas encontram-se mais coisas cruéis do que belas. Sem dúvida apreciávamos mais os raros momentos de paz e esquecimento; mas eu recordo-me melhor da agonia, dos terrores e dos erros. A nossa vida não se resumia àquilo que escrevi (há coisas que não podem ser repetidas a sangue-frio, tão vergonhosas são); mas o que escrevi existiu e fez parte da nossa vida. Queira Deus que quem ler estas páginas não decida, por amor ao fascínio da singularidade, prostituir-se a si e ao seu talento ao serviço de outra raça.

Um homem que se ponha à disposição de estranhos faz uma vida de animal, pois vendeu a alma a um treinador de animais. Não é um deles. Pode voltar-se contra eles, pode convencer-se de que tem uma missão, transformá-los em algo que eles, por sua própria vontade, nunca seriam. Assim explora o seu próprio ambiente antigo, para os forçar a sair do deles. Ou, segundo o meu modelo, poderá imitá-los tão bem que eles, simuladamente, o imitam também. Então está a sair do seu próprio ambiente, fingindo pertencer ao deles; e os fingimentos são coisas vãs, inúteis. Em nenhum dos casos faz uma coisa sua, nem uma coisa tão límpida que possa tornar sua (sem a ideia de conversão), permitindo aos outros que ajam ou tenham as reacções que lhes agradem, a partir do exemplo silencioso.

No meu caso, o esforço feito durante estes anos para viver disfarçado de árabe, imitando as suas bases mentais, separaram-me do meu eu inglês e fizeram-me olhar para o Ocidente e para as suas convenções com novos olhos; destruíram-no completamente em relação a mim. Simultaneamente, não podia sinceramente meter-me na pele dos Árabes; era apenas uma imitação. Era fácil fazer de um homem um infiel, mas dificilmente se poderia convertê-lo a outra fé. Eu tinha abandonado uma forma sem tomar outra, e tinham-me tornado como o caixão de Maomé da nossa lenda, com a consequente sensação de intensa solidão na minha vida, e um desprezo, não pelos outros homens, mas por aquilo que eles fazem. Este distanciamento ocorre, por vezes, com os homens exaustos por um esforço físico e isolamento prolongados. O corpo continua a funcionar mecanicamente, enquanto a mente racional os abandona e, de fora, os olha criticamente, perguntando a si mesma o que fez e porquê aquele traste inútil em que habitou. Por vezes, os dois eus travam conversas no vácuo; e então a loucura está próxima, como creio que se aproximaria do homem que conseguisse ver as coisas simultaneamente através dos véus de dois costumes, duas culturas, dois ambientes.

Se quiséssemos prolongar a nossa duração, teríamos de conquistar as terras cultivadas, chegar às aldeias onde os tectos ou os campos conservavam os olhos dos homens voltados para baixo e para o que estava próximo e iniciar a nossa campanha como iniciáramos a do uade Ais, por um estudo do mapa, e um estudo da natureza daquele nosso campo de batalha que era a Síria.

***

Houve de novo uma pausa no meu trabalho, e de novo tive tempo para pensar. Até Faiçal, e Jaafar, e Joyce, e o exército chegarem, pouco podíamos fazer, além de pensar; contudo, pensar, devemos reconhecê-lo, era um processo essencial. Até então, a nossa guerra tivera uma única operação planeada – a marcha sobre Aqaba. Aqueles movimentos acidentais dos homens e das acções de que havíamos assumido o comando davam-nos cabo da cabeça. Fiz o voto de, a partir daquela altura, antes de tomar uma decisão, saber sempre antecipadamente para onde ia e quais as rotas a percorrer.

Em Wejh, a Guerra do Hejaz estava ganha: depois de Aqaba, terminara. O exército de Faiçal pagara as suas responsabilidades árabes, e agora, sob o comando do general Allenby, comandante-chefe adjunto, o seu papel seria participar na libertação da Síria.

A diferença entre o Hejaz e a Síria era a diferença entre o deserto e a terra semeada. O problema que se nos deparava era um problema de carácter – aprendermos a tornar-nos civis. A aldeia do uade Musa era o nosso primeiro ponto de recruta de camponeses. A menos que nos tornássemos camponeses também, o movimento de independência não poderia prosseguir.

Era vantajoso para a revolta árabe que se impusesse aquela modificação quase no início do seu crescimento. Esforçáramo-nos em vão por semear terrenos baldios, para fazer crescer a nacionalidade num lugar cheio da certeza de Deus, aquela certeza perniciosa que proibia todas as esperanças. Entre as tribos, a nossa crença só poderia ser como a erva do deserto – uma bela e rápida aparência de Primavera que, ao fim de um dia de calor, secava coberta de poeira. Os objectivos e as ideias tinham de ser traduzidos em tangibiliade pela expressão material. Os homens do deserto estavam demasiado separados para expressarem os primeiros; demasiado pobres em bens materiais, demasiado afastados da complexidade para apoiarem as segundas. Se quiséssemos prolongar a nossa duração, teríamos de conquistar as terras cultivadas, chegar às aldeias onde os tectos ou os campos conservavam os olhos dos homens voltados para baixo e para o que estava próximo e iniciar a nossa campanha como iniciáramos a do uade Ais, por um estudo do mapa, e um estudo da natureza daquele nosso campo de batalha que era a Síria.

Tínhamos os pés na sua fronteira meridional. Para leste, estendia-se o deserto dos nómadas. A oeste, a Síria era limitada pelo Mediterrâneo, desde Gaza a Alexandreta. A norte, era limitada pelas povoações turcas da Anatólia. Dentro destes limites, a terra estava bastante emparcelada por divisões naturais. Destas, a primeira e a maior era longitudinal, a acidentada cordilheira de montanhas que, de norte a sul, separava uma faixa costeira de uma ampla planície interior. Estas regiões tinham diferenças climáticas tão acentuadas que quase formavam dois países, duas raças, com as suas respectivas populações. Os sírios da costa viviam em casas diferentes, alimentavam-se e trabalhavam de maneira diferente, e o seu árabe diferia, na inflexão e no tom, daquele que falavam os homens do interior. E gostavam pouco de falar do interior, como se se tratasse de uma terra selvagem, onde dominassem o sangue e o terror.

A planície interior encontrava-se geograficamente subdividida em diversas faixas pelos rios. Estes vales continham as safras mais estáveis e mais prósperas de todo o país. Os seus habitantes eram um reflexo deles: contrastavam, do lado do deserto, com as populações estranhas e instáveis da fronteira, que se deslocavam para leste ou para oeste conforme as estações, viviam de expedientes, atacadas pela seca e pelos gafanhotos ou pelos ataques dos Beduínos; ou, se nada disto as conseguisse destruir, pelas suas próprias incuráveis quezílias sangrentas.

Lawrence já como oficial britânico integrado na Revolta Árabe, o movimento de oposição ao Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial

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A Natureza dividira, pois, o país em zonas. Os homens, aperfeiçoando a Natureza, deram aos seus compartimentos uma maior complexidade. Cada uma destas divisões principais em faixas, de norte a sul, era atravessada e dividida artificialmente, por meio de muralhas, em diversas comunidades. Era necessário reuni-las nas nossas mãos para a acção ofensiva contra os Turcos. As oportunidades e as dificuldades de Faiçal residiam nessas complicações políticas da Síria que ordenámos mentalmente, como num mapa social.

No extremo norte, o mais afastado de nós, a fronteira da linguagem acompanhava, naturalmente, a estrada que ia de Alexandreta a Alepo, até se encontrar com o caminho-de-ferro de Bagdad, ao longo do qual subia o vale do Eufrates; mas havia enclaves de expressão turca a sul desta linha, nas aldeias turcomanas a norte e a sul de Antioquia, e entre os arménios que se haviam introduzido no meio delas.

Além disso, uma das principais componentes da população costeira era a comunidade de Ansarianos, os discípulos de um culto da fertilidade, puramente pagã, xenófoba, descrente do islamismo, atraída por vezes para o lado dos cristãos graças a perseguições comuns. Esta seita, de importância vital, estava apegada às tradições do clã quanto a sentimentos e a política. Um nosairita nunca trairia outro e dificilmente deixaria de trair um não-crente. As suas aldeias estavam situadas em pequenas manchas ao longo dos montes principais até ao desfiladeiro de Trípoli. Falavam árabe, mas viviam ali desde o início da cultura grega na Síria. Mantinham-se geralmente afastados dos negócios e deixavam em paz o Governo turco, numa esperança de reciprocidade.

Havia colónias de cristãos sírios misturadas com os Ansarianos; e na faixa do Orontes houvera algumas sólidas comunidades de arménios, inimigas dos Turcos. No interior, perto de Harim, encontravam-se os Drusos, de origem árabe; e alguns circassianos provenientes do Cáucaso. Estes eram inimigos de todos. A nordeste deles encontravam-se os Curdos, que se haviam fixado umas gerações antes e se estavam a casar com árabes e a adoptar a sua política. Odiavam sobretudo os cristãos nativos; e a seguir a estes, odiavam os Turcos e os Europeus.

Para lá dos Curdos havia alguns yezidas, de expressão árabe, mas de pensamento afectado pelo dualismo do Irão, e propensos a aplacar o espírito do mal. Os cristãos, os maometanos e os judeus, povos que colocavam a revelação acima da razão, uniam-se no seu desprezo pelos Yezidas. Para o interior, erguia-se Alepo, cidade de 200 000 almas, um epítome de todas as raças e religiões turcas. A oriente de Alepo, numa extensão de 60 milhas, havia árabes estabelecidos, cuja cor e comportamento se iam tornando cada vez mais tribais conforme se aproximavam do limite das regiões cultivadas, onde acabavam os seminómadas e começavam os Bedawis.

Se se fizesse um corte da Síria, do mar ao deserto, um pouco mais para sul, começar-se-ia por encontrar colónias de circassianos muçulmanos, perto da costa. Na nova geração falavam árabe e constituíam uma raça engenhosa, mas beligerante, muito hostilizada pelos seus vizinhos árabes. Para o interior ficavam os Ismailitas. Estes imigrantes persas tinham-se tornado árabes ao longo de séculos, mas reverenciavam entre si um Maomé que, em carne e osso, era o Aga Khan. Consideravam-no um magnífico soberano, que honrava os Ingleses com a sua amizade. Evitavam os muçulmanos, mas disfarçavam mal a sua animosidade sob um verniz de ortodoxia.

A Igreja grega orgulhava-se de ser a da Síria antiga, autóctone, de um intenso regionalismo que seria mais susceptível de se aliar à Turquia do que de suportar o domínio irremediável de uma potência romana.

Além deles, podiam observar-se as estranhas paisagens das aldeias tribais de árabes e cristãos, chefiados por xeques. Pareciam ser cristãos muito sólidos, diferentemente dos seus irmãos lamurientos dos montes. Viviam como os sunitas que os rodeavam, vestiam-se como eles e mantinham com eles as melhores relações. A oriente dos cristãos, encontravam-se comunidades muçulmanas semipastorais; e, no limite final dos terrenos cultivados, havia algumas aldeias párias de ismailitas, procurando a paz que os homens não lhes concediam. Para lá deles, os Beduínos.

Um terceiro corte através da Síria, outro grau mais abaixo, passava entre Trípoli e Beirute. Em primeiro lugar, perto da costa, estavam os cristãos libaneses; na sua maior parte, maronitas ou gregos. Era difícil desenredar as políticas das duas Igrejas. À primeira vista, uma delas devia ter sido francesa e a outra russa; mas uma parte da população, em busca de riqueza, estivera nos Estados Unidos, e aí se desenvolvera uma tendência anglo-saxónica, não menos vigorosa por ser espúria. A Igreja grega orgulhava-se de ser a da Síria antiga, autóctone, de um intenso regionalismo que seria mais susceptível de se aliar à Turquia do que de suportar o domínio irremediável de uma potência romana.

Os adeptos das duas seitas uniam-se para injuriar imoderadamente, quando o ousavam, os maometanos. Esse desprezo verbal parecia aliviar a sua consciência de uma inferioridade inata. Viviam entre elas famílias de muçulmanos idênticos na raça e nos hábitos, excepto na menor afectação da linguagem e na menor ostentação dos resultados da emigração.

Nas encostas mais elevadas dos montes aglomeravam-se povoações dos Metawalas, maometanos xiitas de ascendência persa. Eram gente suja, ignorante, sombria e fanática, que se recusava a comer ou a beber com infiéis; consideravam os sunitas tão maus como os cristãos; seguiam apenas os seus próprios sacerdotes e notáveis. A força de carácter era a sua virtude, uma virtude rara na volúvel Síria. Nos cumes dos montes havia aldeias de camponeses cristãos, que viviam em paz com os seus vizinhos muçulmanos como se nunca tivessem ouvido os protestos do Líbano. A oriente destes encontravam-se camponeses árabes seminómadas; e depois havia o deserto.

Um quarto corte, um grau para sul, passaria perto de Acra, cujos habitantes, a começar pela costa, eram antes de mais árabes sunitas, depois drusos e depois metawalas. Nas margens do vale do Jordão viviam colónias, terrivelmente desconfiadas, de refugiados argelinos, diante de aldeias judaicas. Os judeus eram de diversos tipos. Alguns deles, estudiosos hebreus de estilo tradicionalista, tinham criado um padrão e um estilo de vida adequado à região, ao passo que os que chegaram depois, muitos dos quais de influência alemã, tinham introduzido hábitos estranhos, culturas estranhas e casas europeias (construídas graças a doações) naquela terra da Palestina, que parecia demasiado pequena e demasiado pobre para poder retribuir devidamente os seus esforços; mas a região tolerara-os. A Galileia não demonstrava a aversão profundamente arreigada aos colonos judeus que constituía uma característica desagradável da vizinha Judeia.

Faisal e Lawrence, rodeados por chefes beduínos

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Nas planícies orientais (altamente povoadas de árabes), estendia-se um labirinto de lava estalada, o Leja, onde os homens sem lei da Síria se congregavam havia inúmeras gerações. Os seus descendentes viviam em aldeias indisciplinadas, a salvo dos Turcos e Beduínos, dedicando-se à vontade às suas quezílias mutuamente destrutivas. A sul e a sudoeste deles abria-se o Hauran, uma enorme região fértil, povoada por camponeses árabes belicosos, auto-suficientes e prósperos.

A leste destes encontravam-se os Drusos, muçulmanos heterodoxos seguidores de um sultão egípcio completamente louco. Sentiam pelos Maronitas um ódio terrível, que, quando encorajado pelo Governo e pelos fanáticos de Damasco, se manifestava por meio de grandes matanças periódicas. Não obstante, os Drusos eram detestados pelos árabes muçulmanos e, por sua vez, desprezavam-nos. Estavam em permanente hostilidade com os Beduínos e preservavam na sua montanha manifestações do semifeudalismo cavaleiresco do Líbano dos tempos dos seus emires autónomos.

Um quinto corte, à latitude de Jerusalém, começaria por alemães e judeus alemães, de expressão alemã iídiche, ainda mais intratáveis que os judeus da era romana, incapazes de aceitar o contacto com quem não fosse da sua raça, alguns deles camponeses, na sua maioria comerciantes, constituindo a mais estrangeira e menos caritativa parte de toda a população da Síria. À sua volta concentravam-se os seus inimigos, os sombrios camponeses da Palestina, mais estúpidos que os do Norte da Síria, interesseiros como os Egípcios e desprovidos de tudo.

A leste deles ficava a profundeza do Jordão, habitada por escravos escuros; e, em frente dela, grupos sucessivos de dignas aldeias cristãs que constituíam, a seguir aos seus correligionários agrícolas do vale do Orontes, os exemplos menos tímidos de nossa fé original naquele país. Entre elas, e a leste delas, viviam dezenas de milhares de árabes seminómadas, preservando o credo do deserto, receosos e sujeitos aos seus vizinhos cristãos. Nesta região disputável, o Governo otomano implantara uma linha de imigrantes circassianos do Cáucaso russo. Estes só conseguiam conservar as suas terras pela força da espada e com a ajuda dos Turcos, aos quais eram, por necessidade, dedicados.

Passámos pelos outros corpos de homens e mulheres e de mais quatro crianças, que pareciam muito sujas à luz do dia, continuando a penetrar na aldeia, cujo silêncio só poderia significar morte e horror. Em volta da aldeia havia baixos muros de lama, cercas para ovelhas, e num deles vimos qualquer coisa vermelha e branca.

***

A coluna de 2000 homens parecia aproximar-se mais dos nossos efectivos. Iríamos defrontá-la com metade dos nossos regulares e dois dos canhões de Pisani. Tallal estava ansioso, pois a rota indicada levá-los-ia a atravessar Tafas, a sua aldeia. Determinou que nos dirigíssemos para lá a toda a velocidade, para tomarmos a crista a sul da aldeia. Infelizmente, «velocidade» era um termo muito relativo para gente tão cansada. Dirigi-me com os meus homens para Tafas, na esperança de ocupar uma posição abrigada, para lá da aldeia, a fim de retardar os inimigos até os outros chegarem. A meio caminho, depararam-se-nos árabes montados que encaminhavam à sua frente uma leva de prisioneiros nus, em direcção a Sheikh Saad. Tratavam-nos brutalmente, e as marcas dos golpes viam-se bem nas costas cor de marfim; mas não intervim, porque se tratava de turcos do batalhão da polícia de Deraa, cujas iniquidades os camponeses dos arredores tinham suportado com sangue e lágrimas vezes sem conta.

Os árabes informaram-nos de que a coluna turca – o regimento de lanceiros de Jemal Paxá – já estava a entrar em Tafas. Quando chegámos perto, verificámos que eles já tinham tomado a aldeia (na qual soava um tiro ocasional) e nela estavam aboletados. Por entre as casas subiam pequenas colunas de fumo. No terreno elevado, do nosso lado, enterrados em cardos até aos joelhos, encontravam-se alguns velhos, mulheres e crianças, contando terríveis histórias do que sucedera quando os Turcos tinham irrompido pela aldeia, uma hora antes.

Ficámos a vigiar e vimos a força inimiga abandonar o seu ponto de concentração, por detrás das casas. Dirigiram-se em boa ordem para Miskin, com os lanceiros à frente e à retaguarda, as formações mistas de infantaria dispostas em coluna, com apoio de metralhadoras nos flancos, canhões e um grupo de transporte no centro. Abrimos fogo sobre a vanguarda da força logo que se apresentou para lá das casas. Em resposta, voltaram sobre nós dois canhões de campanha. A metralha, como habitualmente, passou em segurança por cima das nossas cabeças.

Nuri chegou com Pisani. À frente das fileiras vinham Auda abu Tayi, expectante, e Tallal, quase frenético, com as histórias que a sua gente contava sobre os sofrimentos da aldeia. Os últimos turcos abandonavam-na agora. Colocámo-nos por detrás deles, para acabar com o suspense de Tallal, enquanto a nossa infantaria tomava posição e disparava fortemente com o Hotchkiss; Pisani avançou a sua meia bateria entre eles, de modo que os explosivos franceses espalharam a confusão na retaguarda.

A aldeia estava silenciosa, sob as suas lentas coroas de fumo branco, enquanto avançámos pelas ruas, cautelosamente. Havia uns montes de roupas acinzentadas, que pareciam esconder-se entre a relva alta, abraçando a terra como só os cadáveres sabem abraçá-la. Desviámos os olhos, sabendo que estavam mortos; mas de um desses grupos saiu uma pequena figura, a cambalear, como se fugisse de nós. Era uma criança, de três ou quatro anos de idade, cuja túnica suja estava manchada de vermelho, num ombro e um lado do corpo, com o sangue de uma enorme ferida fibrosa, talvez uma pontada de lança, precisamente onde o pescoço e o corpo se uniam.

Com o emir Faisal na frente, Lawrence é o primeiro à esquerda

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A criança correu alguns passos, depois parou e gritou-nos, com força surpreendente (no meio do silêncio total): «Não me mates, Baba.» Abd el Aziz, reprimindo um soluço – aquela era a sua aldeia e a criança podia ser da família –, saltou do camelo e, tropeçando, foi ajoelhar-se na erva, ao lado da criança. O movimento súbito dele assustou-a, porque ergueu os braços e tentou gritar; mas, em vez disso, caiu no chão, numa pequena trouxa, enquanto o sangue recomeçava a correr sobre as suas roupas; depois, morreu, penso eu.

Passámos pelos outros corpos de homens e mulheres e de mais quatro crianças, que pareciam muito sujas à luz do dia, continuando a penetrar na aldeia, cujo silêncio só poderia significar morte e horror. Em volta da aldeia havia baixos muros de lama, cercas para ovelhas, e num deles vimos qualquer coisa vermelha e branca. Aproximei-me e vi o corpo de uma mulher, dobrado sobre o muro, com o traseiro voltado para cima, pregada ao muro por uma baioneta, cuja haste se projectava para fora, entre as suas pernas nuas. A mulher estava grávida, e, em volta dela, havia outras, talvez vinte ao todo, mortas de diversas formas, mas todas dispostas com um gosto obsceno.

O Zaagi irrompeu em gargalhadas nervosas, ainda mais desoladas perante o sol quente e o ar transparente daquela tarde no planalto. Eu disse: «Que o melhor de vós me traga o maior número de turcos mortos», e corremos atrás do inimigo em fuga, abatendo de caminho todos os que tinham caído junto da estrada e imploravam a nossa piedade. Um turco ferido, meio nu, incapaz de se pôr de pé, sentou-se e começou a chorar, olhando para nós. Abdulla voltou a cabeça do camelo, mas o Zaagi, praguejando, adiantou-se e meteu três balas da sua automática no peito nu do homem. O sangue começou a jorrar com os batimentos do coração, cada vez mais lentamente.

Tallal vira o mesmo que nós. Soltou um gemido, como um animal ferido; depois, dirigiu-se para o terreno mais elevado e ficou aí, durante algum tempo, montado na sua égua, a tremer e a olhar fixamente na direcção dos Turcos. Comecei a aproximar-me para falar com ele, mas Auda agarrou-me nas rédeas e deteve-me. Muito lentamente, Tallal tapou o rosto com o pano da cabeça; em seguida, pareceu subitamente tomar consciência de si mesmo, porque enterrou os estribos nos flancos da égua e partiu a galope, inclinado para a frente e oscilando na sela, direito ao corpo principal do inimigo.

Era uma longa cavalgada, ao longo de uma encosta suave, passando por uma depressão. Ficámos parados, como estátuas, enquanto ele avançava, e o martelar dos cascos da égua parecia-nos anormalmente elevado, pois parávamos de disparar, e os Turcos também. Ambos os exércitos esperavam por ele; e ele continuava a cavalgar, na tarde silenciosa, até se encontrar a curta distância do inimigo. Depois endireitou-se na sela e soltou o seu grito de guerra: «Tallal, Tallal», por duas vezes, com uma voz terrível. As espingardas e as metralhadoras inimigas entraram imediatamente em funcionamento, e ele e a sua égua, crivados de balas, caíram mortos entre as pontas das lanças.

Auda tinha um ar gélido e sombrio. «Deus tenha misericórdia dele; vamos cobrar o seu preço.» Sacudiu as rédeas e avançou lentamente para o inimigo. Chamámos os camponeses, inebriados de medo e de sangue, e mandámo-los seguir, de um lado e do outro, a coluna em retirada. O velho leão da guerra acordou no coração de Auda, fazendo dele novamente o nosso chefe natural e inevitável. Com uma manobra hábil, empurrou os Turcos para um terreno mau e conseguiu dividir a sua formação em três partes.

A terceira parte, a mais pequena, era constituída sobretudo por artilheiros alemães e austríacos, agrupados em volta de três carros, e um punhado de oficiais e soldados montados. Lutaram magnificamente e repeliram-nos repetidas vezes, apesar da nossa dureza. Os árabes lutavam como demónios, com o suor a toldar-lhes os olhos, a poeira a ressequir-lhes a garganta; e a chama da crueldade e da vingança que ardia nos seus corpos agitava-os de tal modo que as suas mãos quase não conseguiam disparar. Por minha ordem, pela primeira vez nesta guerra não fizemos prisioneiros.

Ali, pela primeira vez, senti orgulho do inimigo que tinha matado os meus irmãos. Estavam a 3200 quilómetros da pátria, sem esperanças e sem guias, em condições suficientemente terríveis para abalar os nervos dos mais valentes. Contudo, as suas secções permaneciam unidas.

Por fim, deixámos para trás aquela secção tão resistente e perseguimos as duas mais rápidas. Estavam em pânico; e, ao pôr-do-sol, tínhamos destruído todos, com excepção de pequenos bandos, ganhando o que eles perdiam. Grupos de camponeses apareciam, à medida que avançávamos. A princípio, eram cinco ou seis para cada arma; depois, um deles apanhava uma baioneta, outro uma espada, um terceiro uma pistola. Uma hora mais tarde, todos os que tinham vindo a pé estavam montados em burros. Posteriormente, cada homem tinha uma espingarda e um cavalo capturados. Ao anoitecer, os cavalos estavam carregados e a planície próspera juncada de cadáveres de homens e animais. Numa loucura nascida do horror de Tafas, matámos incessantemente, fazendo mesmo saltar as cabeças dos homens e dos animais caídos; como se, pela sua morte e pelo seu sangue que escorria, atenuássemos a nossa agonia.

Só um grupo de árabes, que não ouvira as nossas notícias, fez prisioneiros os últimos 200 homens da secção central. A trégua foi curta. Eu fora ao encontro deles para saber o que estava a suceder, pois não queria deixar vivos aqueles restantes, como testemunhas do preço de Tallal. Mas um homem no chão, por detrás deles, gritou qualquer coisa aos árabes, que, pálidos, me levaram até lá. Era um dos nossos – com a coxa despedaçada. O sangue escorrera para o chão vermelho e o homem estava moribundo; mas nem ele fora poupado. À maneira da batalha daquele dia, também ele fora torturado por baionetas, que o cravavam ao chão por um ombro e pela outra perna, como um insecto de colecção.

Estava totalmente consciente. Quando perguntámos: «Hassan, quem fez isto?», desviou os olhos para os prisioneiros, reunidos ali perto, abatidos. Nada disseram nos momentos que antecederam aquele em que abrimos fogo. Finalmente, o monte de corpos deixou de se mover; e Hassan morrera; voltámos a montar e regressámos lentamente a casa (a casa era onde me esperava o meu tapete, a três ou quatro horas de distância, em Sheikh Saad), no escuro, com o frio a aumentar, agora que o Sol se pusera.

Contudo, apesar dos ferimentos e das dores e do cansaço, eu não conseguia deixar de pensar em Tallal, aquele líder magnífico, excelente cavaleiro, o companheiro cortês e forte de tantas jornadas; e ao fim de algum tempo mandei vir o meu outro camelo, e, com a minha guarda pessoal, avancei pela noite, ao encontro dos meus homens que perseguiam a coluna maior de Deraa.

Estava muito escuro e o vento soprava em fortes rajadas de sul e de leste; somente graças aos ruídos dos tiros e aos clarões ocasionais dos canhões conseguimos chegar finalmente ao local da batalha. Em cada campo e em cada vale havia turcos que fugiam cegamente para norte. Os nossos homens não os largavam. O cair da noite tornara-os mais ousados, e agora estavam a cercar o inimigo. Cada aldeia, à medida que a batalha dela se aproximava, entrava na luta; e o vento negro e gélido parecia mais violento ao som do tiroteio, dos gritos, das rajadas dos Turcos e do galope dos cavalos, quando os pequenos grupos de ambos os lados se envolviam freneticamente em luta.

O inimigo tentara parar e acampar ao pôr-do-sol, mas Khalid obrigara-os a continuar. Alguns prosseguiam a marcha, outros ficaram. Muitos caíram, adormecidos de cansaço, pelo caminho. Tinham perdido toda a ordem e coerência e seguiam à deriva, fustigados pelo vento, em grupos perdidos, prontos a disparar e a fugir a cada contacto connosco ou uns com os outros; e os árabes estavam igualmente dispersos e quase tão inseguros como eles.

Só os destacamentos alemães constituíam uma excepção; e ali, pela primeira vez, senti orgulho do inimigo que tinha matado os meus irmãos. Estavam a 3200 quilómetros da pátria, sem esperanças e sem guias, em condições suficientemente terríveis para abalar os nervos dos mais valentes. Contudo, as suas secções permaneciam unidas, em fileiras cerradas, abrindo caminho por entre a confusão de turcos e árabes, como navios blindados, destemidos e silenciosos. Quando atacados, paravam, tomavam posição, disparavam à ordem. Não havia precipitações, nem gritos, nem hesitações. Eram magníficos.

Peter O'Toole como T.E. Lawrence

Corbis via Getty Images

Por fim, encontrei Khalid, e pedi-lhe que chamasse os Ruallas e deixasse a derrota final ao tempo e aos camponeses. O trabalho mais pesado, talvez, encontrava-se a sul. Ao cair da noite, correra pela planície o boato de que Deraa fora evacuada, e Trad, irmão de Khalid, com uma boa metade dos Anazehs, fora até lá para ver o que havia. Eu receava um desagradável revés para ele, pois ainda deveria haver turcos no local e mais lutas para lá chegar, ao longo do caminho-de-ferro e através dos montes Irbid. Na verdade, a menos que Barrow, que, segundo as últimas notícias, se atrasara em Remthe, tivesse perdido contacto com o inimigo, devia haver ainda uma retaguarda combatente que tínhamos de seguir.

Eu queria que Khalid apoiasse o irmão. Ao fim de uma ou duas horas a gritar a sua mensagem contra o vento, centenas de homens, montados em cavalos e em camelos, tinham-se reunido à sua volta. A caminho de Deraa, atacou e venceu diversos destacamentos de turcos, à luz das estrelas, e, ao chegar, encontrou Trad numa posição segura. Travara combate ao cair da noite, tomando a posição a galope, saltando trincheiras e liquidando os escassos turcos que ainda tentavam resistir.

Com ajuda local, os ruallas saquearam o acampamento, encontrando, em especial, um bom saque nos armazéns que ardiam furiosamente, e cujos tectos, a cair, em chamas, punham em perigo as suas vidas; mas era uma daquelas noites em que a humanidade enlouquecera, em que a morte parecia impossível, por muitos que morressem à direita e à esquerda, quando as vidas dos outros se tornavam joguetes que podíamos quebrar e deitar fora.

Sheikh Saad passou uma noite conturbada, cheia de alarmes, tiros e gritos, com ameaças dos camponeses de matarem os prisioneiros, como preço adicional por Tallal e pela sua aldeia. Os xeques mais activos estavam longe, à caça dos Turcos, e a sua ausência, com os seus séquitos, privava o acampamento árabe dos seus chefes experientes e dos seus olhos e ouvidos. As querelas adormecidas entre os clãs tinham acordado, na tarde sedenta de sangue da matança, e Nasir, Nuri Said, Young e Winterton tiveram de acalmar os nervos para manter a paz.

Eu cheguei depois da meia-noite e encontrei os mensageiros de Trad, que tinham acabado de chegar de Deraa. Nasir partiu ao encontro dele. Eu queria dormir, pois era a minha quarta noite em cima de um camelo; mas a mente não me deixava sentir o cansaço do corpo, pelo que, por volta das duas horas da madrugada, montei uma terceira camela e me dirigi para Deraa, tomando de novo o caminho de Tafas, contornando a aldeia às escuras.

Nuri Said e os seus homens iam pelo mesmo caminho, à frente da sua cavalaria montada, e os nossos grupos seguiram juntos, até começar a aparecer a semiclaridade da madrugada. Nessa altura, a minha impaciência e o frio não me permitiram que continuasse a seguir ao passo dos cavalos. Dei liberdade à minha camela – a enorme e rebelde Baha – e ela começou a avançar, com as suas grandes passadas, ultrapassando os meus fatigados seguidores, milha após milha, como os pistões de um motor, de modo que entrei em Deraa, sozinho, ao amanhecer.

Nasir estava na casa do presidente da câmara, a nomear um governador militar e a sua polícia e a fazer uma investigação ao local; complementei as suas ideias pondo homens de guarda às bombas e às locomotivas e ao que restava de oficinas de ferramentas ou armazéns. Ao fim de uma hora de conversa, eu elaborara publicamente um programa do que a situação exigiria deles, se não quisessem perder a posição. O pobre Nasir fitava-me, atónito.

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