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O que ainda falta nos hospitais: máscaras, fatos e óculos reciclados, racionados ou improvisados

Desinfetante trancado em cacifos, máscaras fora do prazo, racionamento de equipamento e muito improviso. O Governo comprou mais material, mas enquanto ele não chega há muitas coisas em falta.

Quando chegaram os primeiros doentes com Covid-19 e o Curry Cabral era “apenas” um dos hospitais de referência para o surto do novo coronavírus, ainda havia alguns fatos-macaco completos, capazes de proteger os médicos e os enfermeiros do serviço de infecciologia dos pés à cabeça, relíquias do último surto mundial de ébola, em 2014. Agora, conta ao Observador uma enfermeira com conhecimento direto da reorganização que está a ser feita no hospital para receber em exclusivo vítimas da pandemia, já não sobra nem um para amostra. “Neste momento não há fatos completos no nosso hospital”, revela.

Ao telefone com o Observador, na passada quarta-feira — o mesmo dia em que o primeiro-ministro visitou o hospital e em que Fernando Maltez, diretor do serviço de infecciologia do Hospital Curry Cabral, garantiu que, “até à data”, não sentiu a “falta de qualquer tipo de equipamento de proteção individual” (EPI) — a profissional de saúde, que prefere não ser identificada, descreveu exaustivamente como se equipam os enfermeiros e médicos na linha da frente para combater o novo coronavírus:

“Está a usar-se bata cirúrgica impermeável, com luvas de cano alto, que não são as ideais, mas ajudam a proteger o braço quase todo. Não ficamos com o pescoço protegido, porque não há cógulas, só umas toucas, que no máximo protegem o cabelo. E também não há proteção para a parte inferior da perna, desde a zona onde acaba a bata até à proteção dos sapatos; não há perneiras”, vai enumerando a enfermeira. “Preocupava-me entrar no internamento e não ter proteção nessa zona, se alguma gotícula me caísse na farda eu ia andar pelo serviço contaminada. Aquilo que nos disseram foi que se isso acontecer saímos imediatamente do isolamento, tomamos um banho e mudamos de farda. Mas claro que, a não ser que um doente nos cuspa para cima, não é fácil perceber se isso acontece.”

“Preocupava-me entrar no internamento e não ter proteção nessa zona, se alguma gotícula me caísse na farda eu ia andar pelo serviço contaminada. Aquilo que nos disseram foi que se isso acontecer saímos imediatamente do isolamento, tomamos um banho e mudamos de farda. Mas claro que, a não ser que um doente nos cuspa para cima, não é fácil perceber se isso acontece”
Enfermeira, Hospital Curry Cabral

No Facebook, publicado por uma enfermeira espanhola com a legenda “Aqui está a razão por que as enfermeiras chinesas não ficaram infetadas”, está a circular um vídeo que mostra todo o equipamento de proteção a que os profissionais de saúde deviam ter acesso para lidar com o novo coronavírus. Ao todo, o filme dura 3 minutos e 29 segundos. “Temos material para nos equiparmos de forma correta até ao minuto 1:05, ou seja, a segunda camada de proteção não é colocada. Adicionamos apenas, que não aparece no vídeo, uma viseira e dois pares de luvas”, explica a enfermeira do Curry Cabral, em Lisboa.

Filipa Bargado, médica no mesmo hospital, publicou esta quinta-feira à noite, também no Facebook, um pedido de recolha de materiais como tecido não tecido com gramagem superior a 70 gramas, campos cirúrgicos e elástico de 5 milímetros, para que costureiras voluntárias possam iniciar a produção de cógulas, “uma espécie de carapuço que é vestido por cima da máscara e dos óculos e protege os profissionais ao nível da cervical e da face”. “É muito importante na proteção de quem presta cuidados mais invasivos, como são os casos dos intensivistas, dos infecciologistas e dos internistas”, explica a médica no vídeo. “Toda a ajuda é pouca”, conclui.

Desde que o serviço de infecciologia começou a encher e a unidade de cuidados intensivos também, o Hospital Curry Cabral começou a preparar outros serviços para passarem a receber doentes com Covid-19. O de medicina foi o primeiro a abrir, outros estão a ser preparados e os respetivos profissionais postos a par dos protocolos e procedimentos de segurança criados pelo departamento dirigido por Fernando Maltez, a partir das guidelines internacionais.

"Até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja”
António Costa, primeiro-ministro

“Até agora estão a conseguir prever o que vai acontecer e as coisas estão a ser preparadas com tempo, o que nos dá alguma segurança; à medida que percebem que as camas vão sendo ocupadas começam a preparar outro serviço”, continua a enfermeira. “Não é o ideal, mas é o que está a acontecer em todo o hospital. E a verdade é que, tirando esses fatos, há imenso material na medicina para abrir o serviço. Até agora todos os serviços que estão abertos têm máscaras. Mas se houver algum boom não sei se há máscaras para todos”, receia.

António Costa tem garantido repetidamente que não vai acontecer. “Até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja”, já tinha dito no início da semana, em entrevista à TVI. “Estamos a encomendar porque é necessário, o material existe e vai-se gastando. Os stocks têm que ser mantidos. Estas encomendas que estamos a fazer é para ir assegurando o abastecimento”, reiterou durante a visita ao Curry Cabral, para logo a seguir detalhar a lista das compras feitas recentemente pelo Governo:

  • 380.482 batas
  • 549.837 fatos de proteção
  • 8.113.259 luvas esterilizadas
  • 10.674.459 luvas não esterilizadas
  • 368.397 máscaras com viseira
  • 17.145.762 máscaras cirúrgicas
  • 8.665.775 máscaras FFP2 e FFP3
  • 743.575 protetores de calçado
  • 1.261.492 toucas

Mas enquanto esse material não chega continua a haver escassez em alguns locais. Pelo menos no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, no Centro Hospitalar Universitário do Porto e no Hospital Garcia de Orta foram vários os profissionais de saúde que revelaram que, por causa da escassez de máscaras de proteção, estão a fazer apenas uma pausa — ou nem isso, alguns contaram mesmo que deixaram de parar para comer ou ir à casa de banho — durante turnos de sete ou oito horas, porque se saírem dos serviços têm de descartar o material de proteção e depois não têm mais para voltar a entrar.

Em Lisboa foram distribuídas máscaras fora do prazo, em Mirandela médicos e enfermeiros penduram os EPI à hora de almoço

Um enfermeiro revelou ao Observador que, há cerca de duas semanas, pelo menos 500 máscaras FFP2 com prazo vencido há seis anos foram distribuídas aos profissionais de saúde do Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Ocidental e Oeiras. E também há relatos de enfermeiros que passaram a levar óculos de mergulho ou de natação para o trabalho para, na ausência de viseiras, protegerem os olhos; e de profissionais de saúde que chegaram a enrolar as pernas em sacos de lixo, em tentativas extremas de impermeabilizar as respetivas fardas.

Várias fontes confirmaram a veracidade das publicações que surgiram no final da semana passada nas redes sociais sobre conselhos de administração de hospitais que entregaram óculos de sol, molas e folhas de acetato aos médicos, para que construíssem eles próprios as suas viseiras. Aconteceu no Agrupamento de Centros de Saúde do Tâmega III – Vale do Sousa Norte, pelo menos em Lousada, Paços de Ferreira e Felgueiras. “Este foi o material recebido hoje em vários centros de saúde da zona Norte. Este é o material de proteção contra o coronavírus. Não há máscaras, óculos nem álcool. Apenas óculos de sol, folhas de acetato e molas para prender”, denunciou uma médica no Facebook.

Há mais: os profissionais de uma unidade de saúde local em Mirandela, quando fazem a pausa para o almoço, estão a deixar penduradas, em cabides para soro, dispersos pelos corredores, a máscara diária que lhes é fornecida, poupando mas violando todas as regras de controlo de contaminação e infeção.

Uma médica também de um centro de saúde na zona oriental de Lisboa revelou ao Observador que são os próprios profissionais que estão a comprar numa loja online de produtos agrícolas — e a pagar do seu próprio bolso — o material de que precisam, nomeadamente sabão para lavar as mãos, viseiras (a 13 euros cada), e fatos de proteção (por 31 euros). As máscaras cirúrgicas são distribuídas pelo centro de saúde ao início de cada semana: cinco, uma para cada dia, num saco de plástico transparente.

“As máscaras cirúrgicas devem ser utilizadas predominantemente nas situações de potencial exposição de risco e no máximo de UMA por dia e por Colaborador”
Boletim informativo, IPO do POrto

No Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa esse racionamento é feito de forma diária. Os fiéis depositários do equipamento de proteção individual são os responsáveis pela segurança do centro que, mediante “validação da leitura do cartão de funcionário”, pode ler-se num e-mail interno a que o Observador teve acesso, entregam uma máscara por dia a cada médico, enfermeiro ou auxiliar. “O leitor detectará os casos em que já tenha sido atribuída uma máscara nas últimas 12 horas, evitando-se desse modo o uso exagerado dum bem tão escasso”, avisa ainda o comunicado, assinado pelo presidente do conselho de administração.

Já no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), uma circular normativa estabeleceu no passado 20 de março os novos critérios de atribuição das máscaras FFP2, vulgo “bicos de pato”, e apelou ao “uso racional dos equipamentos, num contexto de enorme carência como aquele em que nos encontramos”. No IPO do Porto, um boletim informativo publicado dois dias antes já tinha aludido às “grandes dificuldades de fornecimento de material para equipamento de proteção individual” e estabelecido a regra: “As máscaras cirúrgicas devem ser utilizadas predominantemente nas situações de potencial exposição de risco e no máximo de UMA por dia e por Colaborador”.

“Falta tudo, vai faltando tudo”, mas em alguns sítios falta mais do que noutros

“Aquilo que nós entendemos e que os enfermeiros entendem é que existe mesmo falta, não é uma questão de racionamento. Há locais que têm falta de material, não é uma questão de existir em stock e de não ser fornecido, é mesmo inexistência”, garante ao Observador Emanuel Boieiro, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros que esta terça-feira, em conjunto com o Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem, fez chegar ao Presidente da República e à ministra da Saúde uma listagem com as faltas de material de proteção individual reportadas por profissionais de 30 entidades do Serviço Nacional de Saúde em todo o país.

“Falta tudo, vai faltando tudo. Nessa lista as máscaras eram as mais referenciadas, nomeadamente as FFP2, que protegem a entrada e saída de gotículas, e as FFP3, que têm filtro. As cirúrgicas existiam, ainda antes deste processo, com alguma frequência nos serviços. Há contextos onde esse material existe mesmo: nas urgências e nos cuidados intensivos há garantia de que a maior parte dos hospitais tem, mas os doentes com Covid-19 não são todos críticos e não podem ficar na urgência, têm de ir para os internamentos, e aí não há material mesmo”, denuncia o sindicalista.

"Aquilo que nós entendemos e que os enfermeiros entendem é que existe mesmo falta, não é uma questão de racionamento. Há locais que têm falta de material, não é uma questão de existir em stock e de não ser fornecido, é mesmo inexistência"
Emanuel Boieiro, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros

Numa altura em que se sabe que pelo menos cerca de 8% de todos os internados com Covid-19 em Portugal são profissionais de saúde — e em que, revelou o bastonário da Ordem dos Médicos à Rádio Observador, já há vários médicos “em situações complicadas, nos cuidados intensivos” — este é um assunto cada vez mais premente.

Até porque médicos e enfermeiros doentes não só não podem tratar como podem contagiar pacientes, alertou a Comissão Europeia esta quinta-feira num documento interno, revelado pela Reuters, onde era expressa preocupação pela falta de EPI e outros dispositivos médicos, nomeadamente ventiladores, na Europa. “As estimativas internas da Comissão mostram que o stock ‘tradicional’ só deverá cobrir cerca de 10% da procura”, cita a agência de notícias. No passado dia 16 de março, Marta Temido revelou que Portugal tinha sido um dos países a aderir ao “novo pacote de aquisição conjunta de equipamentos de proteção individual e equipamentos médicos” organizado pela Comissão Europeia.

A viseira improvisada de Jorge Roque da Cunha, feita com "uma bandolete e um pedaço de acrílico"

“O pouco material que existe é insuficiente e os equipamentos de proteção individual são limitados. A necessidade de proteger os profissionais é absolutamente essencial. Com médicos e enfermeiros infetados os cuidados de saúde ficam muito limitados”, alerta Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos.

Roque da Cunha fala com o Observador através da aplicação Facetime, a partir do seu gabinete na Unidade de Saúde Familiar da Travessa da Saúde, em Sacavém. “Está a ver isto? É uma bandolete elástica com um pedaço de acrílico, que o filho de um colega fez e que me protege de alguma maneira”, explica, enquanto exibe a viseira com que está a consultar pacientes, ainda de máscara cirúrgica a tapar-lhe a boca. “Fizemos um inquérito: 87% dos médicos acham que não estão a ser devidamente protegidos. Há dezenas de médicos infetados, muitos deles sem necessidade”, argumenta. “Quando um médico dá positivo, os contactos diretos não vão para quarentena, só quando estão sintomáticos é que se faz a análise. O nosso receio é que no momento em que houver uma explosão de casos seja uma catástrofe.”

Doações e crowdfunding para comprar material que terá de ser fechado à chave

Os primeiros casos de infeção por coronavírus em Portugal foram registados na segunda-feira, dia 2 de março. O despacho do Ministério da Saúde a determinar o “reforço imediato” do “stock dos medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos de proteção individual” em 20% relativamente ao consumo do ano anterior, e a autorizar a hospitais e restantes unidades do Serviço Nacional de Saúde o recurso à compra por ajuste direto, foi publicado a 11 de março, no mesmo dia em que a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de pandemia internacional.

“Nesta fase temos duas situações: temos a questão do mercado, internacional e nacional, que está a responder de forma errática e com preços muito elevados. E depois temos o problema de estar toda a gente a tentar comprar ao mesmo tempo e de o material estar a demorar muito tempo a chegar. Sei que há muitos empresários em nome individual que estão a disponibilizar verbas e a fazer contactos com fornecedores na China, mas a verdade é que o material não está a chegar. Não é falta de dinheiro, não acredito que o Governo esteja a poupar nesta questão, só que está toda a gente a ir ao mercado ao mesmo tempo”, tenta explicar Ana Rita Cavaco, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

"Temos a questão do mercado, internacional e nacional, que está a responder de forma errática e com preços muito elevados. E depois temos o problema de estar toda a gente a tentar comprar ao mesmo tempo e de o material estar a demorar muito tempo a chegar. Não é falta de dinheiro, não acredito que o Governo esteja a poupar nesta questão, só que está toda a gente a ir ao mercado ao mesmo tempo”
Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

Apesar de haver hospitais com mais EPI do que outros, por terem feito uma gestão diferente ou por terem comprado material antes da corrida internacional ao mercado, graças à declaração do estado de emergência e à solidariedade entre instituições, tudo isso pode mudar, diz Emanuel Boieiro: “A requisição de materiais está prevista na lei, o Estado pode requisitar material e profissionais, até ao setor privado. Temos conhecimento de que já há hospitais a ceder material a outros hospitais, mas de forma voluntária”.

Entretanto, num movimento nunca antes visto, a sociedade civil, que começou por bater palmas, rapidamente saiu da janela e começou a tentar ajudar a proteger médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Por todo o país têm-se multiplicado as plataformas de angariação e as notícias de doações particularmente generosas, como as que já fizeram Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes, por exemplo.

Foi depois de um almoço de amigas, uma delas médica num hospital privado em Lisboa, que nasceu o movimento SOS.COVID19, com o ambicioso objetivo de angariar 200 mil euros para comprar máscaras (cirúrgicas e FFP2), batas e viseiras.

“Falámos com médicos do São João, no Porto, do Garcia de Orta, em Almada, e do Santa Maria, em Lisboa, onde tínhamos contactos e percebemos o que fazia mais falta. Há escassez nos hospitais, isso todos nos relataram. Não sei por que motivo os próprios hospitais não estão a comprar estes equipamentos, acho que há regras muito restritas de pagamento e uma procura muito grande nos canais normais de oferta e os fornecedores provavelmente preferem seguir outros caminhos”, explica Mariana Roque do Vale, a empresária que tem dado a cara pela iniciativa.

Ao Observador, António Sarmento, diretor de infecciologia do Hospital de São João e um dos profissionais de saúde a validar o SOS.COVID19, garantiu que, para já, ainda não sentiu falta de material, mas reconheceu que a curto prazo a história poderá ser diferente. “Nas pandemias uma das coisas previstas é a falta de material de proteção, todos vamos precisar de material. Até agora não me faltou nem uma máscara e também não houve racionamentos, mas daqui a 15 dias não sei se vai faltar. Isto não é um problema só nosso, nem apenas de Portugal, é do mundo, portanto tudo o que nos puderem dar é bem-vindo.”

Para já, uma das principais dificuldades de quem quer comprar tem sido encontrar material disponível. Depois de uma série de tentativas domésticas — em que chegaram até a falar com a fábrica Bastos Viegas, em Penafiel, que, depois de uma notícia que dava conta da exportação de quase toda a sua produção de EPI, foi contactada pelo Ministério da Saúde e passou a vender apenas ao Ministério da Saúde —, os amigos por trás do SOS.COVID19 viraram-se para a China.

"Há escassez nos hospitais, isso todos nos relataram. Não sei por que motivo os próprios hospitais não estão a comprar estes equipamentos, acho que há regras muito restritas de pagamento e uma procura muito grande nos canais normais de oferta e os fornecedores provavelmente preferem seguir outros caminhos"
Mariana Roque do Vale, SOS.COVID19

“Fizemos imensos contactos com empresas portuguesas, mas não conseguimos encomendar o material. A respostas foram sempre as mesmas, ou está esgotado ou é preciso fazer o pagamento a 100% no momento da encomenda — que tem de ser de pelo menos um milhão de unidades —, e depois esperar um mês e meio pela produção. Entretanto encontrámos este distribuidor na China, que também vai trazer, de avião, material para vender a hospitais públicos em Portugal”, revela Mariana Roque do Vale.

Apesar de não terem conseguido atingir a meta a que se tinham proposto, fizeram de qualquer forma uma encomenda de quase 200 mil euros — “O distribuidor percebeu a causa e flexibilizou as condições de pagamento, aquilo que não conseguirmos pagar terá de escoar para outros sítios”. Entretanto, o SOS.COVID19 juntou-se ao Stop Covid, outra plataforma, que tinha dinheiro mas não forma de comprar material, e em conjunto já reuniram cerca de 80 mil euros em donativos. “Chegam para 21.500 máscaras comuns, duas mil máscaras FFP2 e 3.768 viseiras. Se conseguíssemos tudo aquilo a que nos propusemos ficávamos com 50 mil máscaras comuns, 20 mil FFP2 e 5 mil viseiras para entregar”, detalha a empresária.

Depois de ter estado previsto para o início da semana, o avião com a encomenda acabou finalmente por aterrar em Lisboa esta quinta-feira. Entretanto esta sexta-feira chegou também ao Porto um avião com material encomendado pelo Governo, partilhou António Costa nas redes sociais. “Estamos a reforçar as compras e a receber mais donativos, que agradecemos. Em breve, todos estes equipamentos, tão necessários, estarão a ser distribuídos onde fazem mais falta”, escreveu o primeiro-ministro.

“Nas pandemias uma das coisas previstas é a falta de material de proteção, todos vamos precisar de material. Até agora não me faltou nem uma máscara e também não houve racionamentos, mas daqui a 15 dias não sei se vai faltar"
António Sarmento, diretor do serviço de infecciologia do Hospital de São João

O mais provável, preveem os profissionais de saúde, é que não cheguem. Por isso mesmo e depois de perceber, por conversas com médicos seus conhecidos, nos hospitais de Santa Maria e de São José, ambos em Lisboa, que havia falta de máscaras e que toda a ajuda era bem-vinda, a advogada Sofia Amram decidiu ir à farmácia e gastou 750 euros em 500 máscaras cirúrgicas, que fez questão de entregar em mãos — “Disseram-me que havia material que desaparecia, não faço ideia se é verdade ou não”.

Essa será outra dimensão do problema, já tinha noticiado o Diário de Notícias no início do mês; o da apropriação indevida do material de proteção individual. Ao Observador, vários profissionais de saúde confirmam: há de facto máscaras e frascos de desinfetante fechados à chave em hospitais do país — públicos e privados. Sobre se o material desviado, que não será ainda assim em quantidade significativa, serve para consumo próprio ou para outros fins, não foi possível confirmar, mas ao DN pelo menos uma fonte, não identificada, fez essa referência: “Há poucos dias, na reunião do grupo de contingência do meu hospital, foi referido que tinham desaparecido várias caixas de máscaras, desinfetantes e de luvas, mas não se pode fazer muito mais. Há pessoas que, infelizmente, têm esta perspetiva de roubar, prejudicando os outros para ganância pessoal”.

Pensando sobretudo nos outros, após a primeira entrega, Sofia Amram partilhou nas redes sociais a iniciativa e em pouco mais de uma semana foram inúmeras as pessoas que se juntaram a ela.

Até agora, já conseguiu juntar quase 20 mil euros, que vai transformando em máscaras, cirúrgicas e FFP2 — as segundas a um preço de 8,5 euros por unidade. “Compro tudo em farmácias, onde consigo encontrar. O namorado da minha filha, que importa muita coisa da China, conseguiu arranjar preços muito melhores: cada FFP2 custa 1,70 euros. Pelo que me dizem, lá já não há problemas de fornecimento. Enviou essa informação à DGS, responderam-lhe dias depois a dizer que o Infarmed é que é ‘a instituição com competência na matéria’, imagine!”

Os relatos desesperados de profissionais de saúde são tantos que esta semana chegou mesmo a ser criada, pela mão do médico e deputado do PSD Ricardo Baptista Leite, uma plataforma eletrónica onde se pode, por um lado, dar conta do material em falta nas unidades de saúde nacionais, e, por outro, contribuir para colmatar essas mesmas falhas.

Mais do que isso: para além de vários profissionais de saúde se terem unido para angariar material, como fez Henrique Cabral, interno do 5.º ano de Neurocirurgia e presidente da comissão de internos do CHUC, que criou uma plataforma online para reunir doações de material de proteção; alguns hospitais, como o Centro Hospitalar Barreiro Montijo, até já começaram a “informar” que estão recetivos aos donativos de EPI.

O CHBM informa que está a aceitar donativos de Equipamentos de Proteção individual (EPI). Saiba o que precisamos e como…

Posted by Centro Hospitalar Barreiro Montijo on Wednesday, March 25, 2020

Sobre o que falta no CHUC, hoje um centro hospitalar em que grande parte dos profissionais foram deslocados para o atendimento a doentes com Covid-19 e onde já só se circula de máscara, Henrique Cabral é peremptório: praticamente tudo. “Estamos a falar de material do mais simples ao mais complexo: máscaras com diferentes graus de filtração, luvas, cógulas (que são proteções para a região cervical e ombros), botas e respetivas proteções e depois material para procedimentos mais invasivos nomeadamente viseiras”, enumera.

Tudo isto significa que a verdade do Governo está a anos-luz da dos profissionais de saúde? Para Pedro Correia de Miranda, médico no Centro Hospitalar de Trás os Montes e Alto Douro que esta quinta-feira publicou um artigo de opinião no Observador, é um pouco mais do que isso. “Ao dizer que nada falta, nem faltou, no SNS insultou-me em todas as minhas versões. Insultou-me como médico porque eu vejo os meus colegas na linha da frente sem materiais de proteção, a usar as mesmas máscaras 12h seguidas e a ver doentes sem cuidados mínimos. Insultou-me como utente do SNS porque eu vejo os hospitais a pedirem ajudas e donativos”, escreveu o médico, que acusa António Costa de mentir aos portugueses.

“É uma sensação de quase abandono aquilo que todos sentimos. Estamos ali a lutar sem rede”

Enquanto o prometido material não chega, o engenho de quem quer ajudar vai-se aguçando: depois de uma primeira fase, em que anunciou no Twitter uma encomenda de viseiras para a equipa médica do CHUC na loja de materiais de construção e bricolagem Leroy Merlin, o grupo de internos encabeçado por Henrique Cabral conseguiu outro tipo de ajuda. “Recebemos várias propostas de, por exemplo, empresas com impressoras 3D com possibilidade de fazerem viseiras que, apesar de não testadas, evidentemente conferem mais protecção que viseira nenhuma.”

Apesar de serem vários os projetos do género a decorrer em todo o país — a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, por exemplo, tem 12 impressoras e 30 pessoas, entre alunos e professores, a trabalhar de forma contínua para produzir viseiras para os hospitais de Santa Maria, Cascais, Garcia de Orta e Vila Franca de Xira —, a solução está longe de ser ideal, alerta Emanuel Boieiro, do Sindicato dos Enfermeiros. Mas nem se compara com as máscaras feitas com tecidos comuns e permeáveis que algumas empresas, na sua imensa boa vontade, decidiram começar a produzir para vender ou doar aos profissionais de saúde. Como a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, avisou durante o fim de semana passado, não passam de “pedaços de tecido” e são, por isso, incapazes de cumprir uma função de proteção.

“Recebemos várias propostas de, por exemplo, empresas com impressoras 3D com possibilidade de fazerem viseiras que, apesar de não testadas, evidentemente conferem mais protecção que viseira nenhuma"
Henrique Cabral, médico interno de neurocirurgia no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

“Estas máscaras e viseiras que as empresas estão a fornecer aos hospitais carecem de certificação de qualidade. Ninguém nos garante que ao utilizarmos aquele material nós estamos efetivamente protegidos”, explica. “O material carece de uma certificação própria e tem de ser produzido de determinada maneira… Antes só se comprava a fornecedores da área, agora compra-se e aceitam-se donativos de qualquer tipo de fornecedor. Não controlamos o processo de produção e, a partir do momento em que isso acontece, estamos a pôr as pessoas em risco. Admiro o voluntarismo e boa vontade das pessoas, mas há regras. Trabalhar num hospital não é a mesma coisa do que trabalhar na Autoeuropa — que agora parece que está a fornecer material para os hospitais do Barreiro e de Setúbal”, exaspera-se o dirigente sindical.

No fundo, resume uma médica do IPO de Lisboa, também ao telefone com o Observador, o que os profissionais de saúde sentem, neste momento tão delicado, é que foram largados à própria sorte: “É uma sensação de quase abandono aquilo que todos sentimos, toda a gente diz que há imensos recursos e não há. É mentira, não há! Estamos ali a lutar sem rede. Se o básico dos básicos já não existe, como é que vai ser depois?”.

Antes do surto do novo coronavírus, era muito raro observar pacientes com máscara no rosto ou de luvas calçadas — “Só utilizava nos que tivessem feridas” —, e o material nunca faltava. Agora, que as consultas foram reduzidas ao mínimo indispensável e que a maior parte dos doentes é seguido via telefone, sempre que recebe alguém no gabinete faz questão de se proteger. Ou de, pelo menos, tentar: “Temos umas luvas banais mas escassíssimas, e quase que temos de andar a guardar a caixinha, senão no dia seguinte não está lá. Ontem, quando cheguei, não tinha desinfetante. Pedi que me trouxessem um frasco e esperei todo o dia — não havia, não houve. Fui lavando as mãos constantemente com sabão e quando precisei mesmo de desinfetante fui ao gabinete da minha colega do lado. Na semana passada levei sempre máscaras de casa, ontem esqueci-me e tive de ir pedir ao gabinete de outra colega, porque no meu também não havia”.

Se até ao início do surto cada serviço do IPO de Lisboa tinha o seu próprio dispensário e um auxiliar que, a pedido, ia repondo o material à medida que ele acabava em cada um dos gabinetes, agora é preciso solicitar equipamentos de proteção tão comuns como luvas, máscaras cirúrgicas ou desinfetante a um dispensário central: “O material é tão escasso e desaparece com tanta frequência, que há colegas que chegam a guardar o desinfetante nos cacifos, fechados à chave”.

“É uma sensação de quase abandono aquilo que todos sentimos, toda a gente diz que há imensos recursos e não há. É mentira, não há! Estamos ali a lutar sem rede. Se o básico dos básicos já não existe, como é que vai ser depois?”
Médica, IPO de Lisboa

O pior, considera a médica, é que no internamento e na urgência, onde a probabilidade de receber doentes com Covid-19 aumenta, o cenário não é melhor: “Não há máscaras especiais nem fatos de proteção, continua tudo igual; há máscaras cirúrgicas, luvas e desinfetante”. Só mesmo no pavilhão transformado para receber os doentes suspeitos de estarem infetados, o “covidário”, na gíria dos profissionais de saúde, é que está disponível equipamento de proteção especial, nomeadamente máscaras e fatos completos, explica. Problema: antes de serem transferidos para lá e de serem testados, os pacientes têm sempre de passar pelo serviço de urgência que acolhe todo os que ali chegam.

A outra diferença, conta a médica, é que agora todo o material está nas mãos da enfermeira chefe, que o distribui pelos médicos e enfermeiros à medida de que precisam — dentro do limite máximo de uma máscara por dia, agora implementado em tantos outros hospitais e centros de saúde do País.

“Em suma, há muito pouco e o que há está a ser racionado pela instituição. As pessoas estão desmoralizadas. É muito importante que nos sintamos seguros, tanto física como psicologicamente, e isso não está a acontecer. É generalizado. No Porto, pelos ecos que ouço, é um desespero. Tenho uma colega na Estefânia que ainda a semana passada me disse: ‘Estamos aqui por todos mas ninguém está por nós’.”

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