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dpa/picture alliance via Getty I

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Olá, pai. Olá, mãe. Como funcionava e como foi desmantelado o esquema de burlas que desviou milhares de euros das contas dos portugueses?

PJ de Leiria recebeu uma queixa em janeiro e desmantelou esquema de família que vivia num apartamento, em Lisboa. PJ alerta para o "mercado assustadoramente fácil de obtenção" de cartões telefónicos.

No dia 16 de janeiro chegou ao piquete da Polícia Judiciária (PJ) de Leiria uma queixa de burla. A vítima tinha caído no esquema conhecido como ‘Olá, pai. Olá, mãe’ e já não conseguiu recuperar o dinheiro. Mas esta não foi a única vítima, nem este o único esquema usado. Além da típica mensagem que simula um filho a pedir dinheiro emprestado aos pais, depois de perder o telemóvel, também circulavam – e continuam a circular – mensagens de oferta de trabalho ou para efetuar pagamentos da luz ou da água, com as respetivas referências de pagamento.

Como não foi feita apenas uma queixa, a PJ de Leiria conseguiu seguir o rasto das burlas e chegou a um apartamento situado no centro de Lisboa, onde viviam três pessoas: um homem, a sua mulher e a sua filha, adiantou ao Observador fonte da PJ. O homem, estrangeiro e de 38 anos, foi detido esta segunda-feira, e as duas mulheres, também estrangeiras, de 44 e 17 anos, foram também constituídas arguidas, tendo-lhes sido logo aplicada a medida de termo de identidade e residência.

Polícia Judiciária desmantela estrutura que criava milhares de burlas informáticas “olá pai, olá mãe”

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As coincidências entre as várias queixas permitiram abrir mais sete inquéritos, todos relacionados com esta família. Para já, as autoridades estimam que este esquema tenha permitido obter 41 mil euros, mas “o valor é muito, muito superior”, uma vez que a investigação ainda está a decorrer, acrescentou fonte da PJ.

É possível comprar milhares de cartões telefónicos sem deixar rasto

Este tipo de esquema começa com a compra de cartões telefónicos, que podem ser adquiridos de forma fácil e sem deixar rasto. “Em Portugal, há todo um mercado assustadoramente fácil de obtenção não documentada destes cartões. A obtenção de milhares de cartões sem qualquer registo é perfeitamente fácil”, explicou fonte da PJ.

Para ter um cartão não é necessária a identificação do comprador, o que facilitou bastante a atividade desta família que chegou a Portugal em setembro e, segundo a PJ, começou logo o esquema de burla agora desmantelado. “Aliás, provavelmente já traziam esses conhecimentos do seu país de origem”, acrescentou a mesma fonte, sem revelar a nacionalidade.

[Já saiu o primeiro episódio de “Matar o Papa”, o novo Podcast Plus do Observador que recua a 1982 para contar a história da tentativa de assassinato de João Paulo II em Fátima por um padre conservador espanhol. Ouça aqui.]

No apartamento onde foram feitas as buscas, as autoridades encontraram 32 mil cartões já utilizados e que terão enviado milhares de mensagens. O envio das mensagens é então o passo seguinte e os grupos – não só este agora descoberto, mas também outros que utilizam o mesmo método – utilizam normalmente bases de dados onde existem milhares de contactos e respetivas informações.

“Quantos grupos do WhatsApp tem? Imagine que tem uma pessoa que faz parte desses grupos e que até não achou que havia problema em partilhar esse grupo com alguém. A partir desse momento, está a partilhar uma quantidade enorme de contactos. E esses contactos têm número de telefone, e-mail, fotografias, alguns até têm data de nascimento, profissões, redes sociais, uma série de dados”, explicou fonte da PJ

E estas bases de dados alimentam-se de uma espécie de estrutura em cadeia digital. Fonte da PJ explica que é sobretudo através do WhastApp que são conseguidos os números que serão os alvos das burlas: “Quantos grupos do WhatsApp tem? Imagine que tem uma pessoa que faz parte desses grupos e que até não achou que havia problema em partilhar esse grupo com alguém. A partir desse momento, está a partilhar uma quantidade enorme de contactos. E esses contactos têm número de telefone, e-mail, fotografias, alguns até têm data de nascimento, profissões, redes sociais, uma série de dados”.

Todas estas informações servem para construir diversas bases de dados “que são, muitas vezes, negociadas online”. “Sem querer, estamos a expor-nos às redes criminosas”, acrescenta a mesma fonte.

A família identificada esta semana tinha criado “milhares de contas, principalmente no WhatsApp”, adiantou a PJ em comunicado e, na altura da detenção, foram apreendidos 49 modem, que tinham 32 cartões telefónicos, “o que significava que operavam 1.568 cartões em simultâneo”.

Grupos usam fotografias de familiares nas mensagens e é muito difícil seguir rasto se não for feita queixa de imediato

Uma vez que os dados partilhados circulam rapidamente, estas redes têm também acesso às fotografias – quer às imagens que são partilhadas no WhatsApp, quer às fotos que são partilhadas nas contas nas redes sociais, caso estas tenham os números de telefone associados. É por isso que, muitas vezes, conseguem identificar, por exemplo, o filho da pessoa a quem pertence o número que têm. A partir daí, a tarefa de simular que é mesmo o filho quem está a enviar uma mensagem torna-se muito mais fácil e aumentam as probabilidades de uma burla com sucesso.

E o sucesso destas redes passa também pelas múltiplas contas bancárias que existem e pela transferência rápida de dinheiro, que muitas vezes é feita para o estrangeiro. No caso desta rede, as autoridades estão ainda a investigar as ligações da família de pai, mãe e filha com um país do centro da Europa, para onde poderá ter sido transferido o dinheiro.

"Para se conseguir recuperar esses valores, é importante que as vítimas, junto da Polícia Judiciária, consigam fazer queixa, o mais tardar, 24 ou 36 horas depois", alertou fonte da PJ, precisamente porque "a partir do momento em que se deixam os valores dispersar, é muito difícil suster depois a operação fraudulenta"

“Para se conseguir recuperar esses valores, é importante que as vítimas, junto da Polícia Judiciária, consigam fazer queixa, o mais tardar, 24 ou 36 horas depois“, alertou fonte da PJ, precisamente porque “a partir do momento em que se deixam os valores dispersar, é muito difícil suster depois a operação fraudulenta”. Ou seja, se a queixa for feita de imediato, as autoridades ainda conseguem, através da identificação da conta de destino, recuperar o dinheiro junto dos respetivos bancos. Se o alerta não for dado em pouco tempo, a probabilidade de o dinheiro já não estar nessa conta — que funciona, no fundo, como uma conta de passagem — é muito maior.

Assim que a polícia consegue identificar as contas, é também possível identificar o dono dessas contas e, neste caso, estará em causa o crime de branqueamento de capitais.

Em seis meses, PJ de Leiria desmantelou dois grupos

Em novembro do ano, também a PJ de Leiria conseguiu identificar uma rede semelhante, ainda que menos complexa. Foi também detido um homem de nacionalidade estrangeira, suspeito da prática dos mesmos crimes. Neste caso, foram feitas mais de 200 denúncias relativas a esta burla e as quantidades roubadas ultrapassavam os 100 mil euros.

Olá pai, olá mãe. PJ detém cidadão estrangeiro em flagrante delito pela prática de burla qualificada

A PJ “identificou o uso massivo de cartões, concretizável no facto de terem sido apreendidos milhares de cartões, mais de sete mil cartões por utilizar e mais de mil e quinhentos já utilizados em práticas delituosas”. E o esquema ia também além fronteiras: “Tornou-se percetível o modus operandi, face aos elementos de prova recolhidos, frustrando-se, com a presente investigação e operação policial, a consumação, em território nacional e além-fronteiras, de milhares de burlas informáticas”.

 
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