É apresentado esta segunda-feira o livro “Segredos”, da autoria da jornalista Judite Sousa. Um olhar por dentro da campanha eleitoral e dos bastidores a que muito poucas pessoas têm acesso. “Entre as conturbadas negociações para a realização do debate televisivo, a minuciosa preparação dos candidatos para o combate, as intrigas nos bastidores e os segredos dos negócios televisivos”, neste livro Judite de Sousa revela a histórias que ficaram por contar.

O livro foi feito em colaboração com António Vitorino, Bagão Félix, Bernardino Soares, Clara Ferreira Alves, Fernando Rosas, Francisco Louçã, Jorge Coelho, Luís Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Marques Lopes, Pedro Santana Lopes e Otávio Teixeira.

“Segredos” será apresentado ao final da tarde, em Lisboa, por Clara de Sousa e João Adelino Faria, os dois jornalistas que, juntamente com Judite de Sousa, conduziram o único frente-e-frente televisivo entre Passos Coelho e António Costa. E é sobre esse dia e as horas que antecederam o debate que Judite de Sousa escreve neste capítulo que o Observador publica em primeira mão.

so capa SEGREDOS

Nervos e Responsabilidade

9 de Setembro de 2015

Acuso o sentido da responsabilidade. É sempre assim nos momentos de grande pressão profissional. Como poderia não acusar aquele nervoso miudinho que se apodera de um jornalista quando o momento é de grande tensão? Afinal, não é todos os dias que há um frente-a-frente entre dois candidatos a primeiro-ministro, ainda para mais transmitido em simultâneo pelas três estações de televisão de sinal aberto, para uma audiência previsível de mais de três milhões de espectadores. A circunstância era única. O debate teria de correr bem. O sentimento é sempre o mesmo nestes momentos, mas este debate, em particular, revestia-se de uma especificidade que aumentava mais a responsabilidade. Tinham sido longos meses de negociações — primeiro entre estações de televisão e, depois, entre estações e partidos — para definir os moldes em que tudo decorreria: um único debate entre os líderes dos dois principais partidos, transmitido em directo e em simultâneo pelos três canais de televisão generalistas. Os olhos de todo o país estariam atentos.

Se os políticos sentem a necessidade de transmitir eficazmente a sua mensagem, os moderadores têm a missão de, dentro do tempo limitado, fazer as perguntas certas e criar dinâmica sem prejudicar a factualidade e a discussão dos temas mais importantes. Políticos e moderadores têm o mesmo alvo — o público — mas diferentes objectivos: os primeiros querem convencer, os segundos querem informar.

Não poderia, de forma alguma, ser apontada aos moderadores falta de preparação ou de profissionalismo. Esta preocupação acompanhou-me a mim, à Clara de Sousa e ao João Adelino Faria desde o início. Estávamos conscientes da nossa exposição. Nenhum de nós era estreante em debates desta importância. Pela minha parte, sentia o enorme desafio de partilhar a moderação do debate, pela primeira vez transmitido em simultâneo nos três principais canais, RTP, SIC e TVI, e realizado em território neutro, no Museu da Electricidade, em Lisboa. Se os políticos sentem a necessidade de transmitir eficazmente a sua mensagem, os moderadores têm a missão de, dentro do tempo limitado, fazer as perguntas certas e criar dinâmica sem prejudicar a factualidade e a discussão dos temas mais importantes. Políticos e moderadores têm o mesmo alvo — o público — mas diferentes objectivos: os primeiros querem convencer, os segundos querem informar.

Fiz tudo o que pude para estar no meu melhor, preparando-me física e emocionalmente. O meu dia foi passado em casa, a dormir de manhã e a descansar durante a tarde. Na semana anterior, pensando no debate como um combate, tinha arranjado tempo para treinar a concentração e descontrair numa aula de kickboxing no ginásio do Pedro Kohl, um dos amigos do meu André.

O guião das perguntas tinha ficado fechado dois dias antes, na segunda-feira 7 de Setembro. Seria preciso fazer apenas pequenos ajustes em função da actualidade das últimas horas. Mas não havia nada de substancialmente novo. Na véspera, 8 de Setembro, Passos Coelho e António Costa não tiveram agenda pública e, no dia do debate, como é hábito, estiveram reunidos com os seus assessores e conselheiros políticos para preparar o momento decisivo. A Passos Coelho, entusiasmado por resultados de sondagens mais animadores do que à partida se poderia imaginar, cabia-lhe convencer o eleitorado das vantagens da continuidade e estabilidade oferecidas pelo governo de coligação, de forma que os duríssimos anos de austeridade não fossem postos em causa. A António Costa interessava persuadir os portugueses da necessidade de mudança, explicar o programa económico do seu partido — muito contestado nas semanas anteriores —, transmitir uma mensagem de diferença e demarcar-se do governo e da figura de José Sócrates.

O guião das perguntas tinha ficado fechado dois dias antes, na segunda-feira 7 de Setembro. Seria preciso fazer apenas pequenos ajustes em função da actualidade das últimas horas. Mas não havia nada de substancialmente novo.

As eleições não se perdem nem se vencem nos debates. Mas é esse o julgamento que é feito pelos comentadores nos diversos órgãos de comunicação assim que o debate termina: há sempre um vencedor e um derrotado, o que não significa que o desfecho eleitoral corresponda a essa avaliação.

A este propósito, lembro-me sempre do debate nos Estados Unidos entre John Kerry e George W. Bush, a 8 de Outubro de 2004. Nos EUA, os debates são monitorizados ao minuto, em termos de audiências, tal como acontece no Brasil. Dessa vez, contas feitas, o debate foi ganho por Kerry, que, no entanto, veio a perder as eleições. O papel da televisão é, assim, muito relativo, embora não deixe de ser relevante para a discussão das questões importantes e para a captação do voto dos indecisos.

No caso das nossas eleições de 4 de Outubro, com as sondagens no início a indicarem um empate técnico entre a coligação e o PS, o debate teve uma grande importância, o que só aumentava a pressão, para o lado dos políticos e para o lado dos moderadores.

A meio da tarde, saí para uma rápida passagem pelo cabeleireiro, muito perto da minha casa. Às 17 horas e 30 minutos, esperava-me a Cristina Gomes para a maquilhagem. É sempre ela que cuida do meu rosto. É uma profissional muito experiente. Eu -costumo dizer, em jeito de brincadeira, que ela transforma as mulheres feias em bonitas. A Cristina já tratava da minha cara na RTP, onde nos conhecemos há mais de quinze anos. Quando mudei para a TVI, fiz questão de que ela continuasse a maquilhar-me, apesar de existirem na minha empresa maquilhadores competentes. Era, no entanto, uma questão de hábito. Os maquilhadores conhecem o nosso rosto como ninguém. Sabem quais são os nossos defeitos e o que temos de bom para valorizar.

Hesitei quanto à cor da roupa a usar. Pensei primeiro num fato vermelho, mas reconsiderei, depois de ouvir a opinião do Pedro Mourato, o iluminador da TVI, responsável pela iluminação do espaço. Acabei por optar por um fato branco que tinha comprado há uns anos mas que se mantinha actual. Tinha-o usado muito poucas vezes. Estava perdido no meu closet, mas lá o consegui descobrir no meio da confusão em que se transformou o meu armário desde que mudei de casa.

Sabia que a Clara de Sousa iria de preto e que o João Adelino Faria escolhera o azul-forte. Muito de passagem, tínhamos falado no dia anterior sobre a roupa e as cores. Todos sabemos que, nestas ocasiões, a sobriedade do vestuário é um elemento essencial. Não queríamos introduzir ruído pela forma como nos apresentaríamos. Nada de brincos distractivos, colares ou qualquer outro tipo de adereços. As experiências internacionais mostram que assim é com os jornalistas veteranos, aqueles que nos Estados Unidos, por exemplo, são escolhidos para moderar os debates entre os Republicanos e os Democratas. Sempre que posso, e nos momentos de maior tranquilidade interior, obrigo-me a ver as televisões estrangeiras. Aprende-se muito. Nas minhas reuniões de trabalho, na TVI, há afirmações que repito até à exaustão, «Está tudo inventado em televisão» é uma delas. Só temos de fazer sempre melhor e aprender com os que fazem bem. Creio que, no caso da roupa, fizemos escolhas acertadas.

Quando nos aproximávamos do Museu da Electricidade, deparámos com um dispositivo policial só comparável ao dos jogos de alto risco entre os grandes do futebol nacional. Seguramente, mais de uma centena de agentes em todos os cantos e recantos das imediações do museu controlava todas as movimentações e limitava o acesso ao espaço.

Saí de casa cerca das 18 horas, acompanhada pela Cristina Gomes, que é um ás a conduzir, das pessoas mais rápidas que conheço. Apanhámos trânsito na Infante Santo. Quando nos aproximávamos do Museu da Electricidade, deparámos com um dispositivo policial só comparável ao dos jogos de alto risco entre os grandes do futebol nacional. Seguramente, mais de uma centena de agentes em todos os cantos e recantos das imediações do museu controlava todas as movimentações e limitava o acesso ao espaço.

Nunca tinha visto nada assim. Nem mesmo quando Barack Obama esteve em Lisboa para participar na cimeira da NATO, em 19 de Novembro de 2010.

No exterior do museu, barradas pelos cordões de segurança, estavam largas dezenas de lesados do BES. Quando me viram no interior do carro, pediram-me gentilmente que abordasse essa questão no debate. Não lhes prometi nada, mas, durante a emissão, a Clara de Sousa, que tinha a seu cargo o questionário sobre o Novo Banco, lembrou, e bem, que lá fora estavam pessoas que tinham ficado sem as suas poupanças.

Enquanto a Cristina estacionava o carro, o que não se antevia fácil, caminhei para o átrio. Chama-se Praça do Carvão, por o museu ter sido uma central térmica até meados do século passado.

No exterior do museu, barradas pelos cordões de segurança, estavam largas dezenas de lesados do BES. Quando me viram no interior do carro, pediram-me gentilmente que abordasse essa questão no debate.

No local, já se encontravam os colegas das televisões, das rádios e da imprensa escrita e muitos fotógrafos. Tirámos as fotos da praxe. A circunstância de sermos três moderadores tornava aquela noite mais apelativa para a imprensa, a social incluída, tal como acontecera na véspera, quando estivéramos, ao final da tarde, no museu para conhecer o cenário, as cores, as nossas posições e as dos nossos interlocutores. Fora uma visita rápida, o suficiente para trocarmos impressões com a equipa técnica, com a cenógrafa da SIC e com o realizador da TVI, Luís Salvador. Tínhamos insistido na necessidade de aproximar as mesas, a de Passos Coelho e a de António Costa, assim como em criar mais proximidade entre nós e eles. Toda esta reflexão no local foi feita em conjunto com a directora-adjunta da RTP, Rosário Salgueiro, escolhida para coordenar o debate na régie. Tanto eu como a Clara e o João já tínhamos trabalhado com a Rosário. Conhecíamos as suas competências e estávamos certos de que a voz dela, nos nossos ouvidos, seria uma rede de segurança, como veio a verificar-se.

Minutos antes da hora H, tínhamos no exterior as equipas de reportagem da RTP e da TVI à nossa espera para dizermos o que esperávamos do debate e contarmos como nos tínhamos organizado a três. Prestámos as nossas declarações em poucos minutos, até porque as reportagens teriam de ser emitidas nos jornais televisivos do próprio dia.

Chegara a hora.