Todos os candidatos têm uma fasquia na cabeça, mas não a revelam. Na corrida a Belém, como em qualquer outra eleição, quanto mais baixas estiverem as expectativas, maior é a vitória ou menor será a derrota. Marcelo Rebelo de Sousa sonha com os 70% de Mário Soares, mas publicamente já descartou a hipótese. Ana Gomes já poderá cantar vitória com um segundo lugar, o que significaria que ficou à frente de André Ventura. Embora diga que quer forçar uma segunda volta, André Ventura tem como grande desafio ficar à frente de Ana Gomes, até porque terá de se demitir de líder do Chega se isso não acontecer.

Já Marisa Matias parece longe do pódio que alcançou 2016 e precisaria de ser a melhor da esquerda para que esse fosse considerado um bom resultado. João Ferreira já ficaria bem na fotografia se conseguir significativamente mais que Edgar Silva e se ficar à frente da candidata do Bloco de Esquerda. Já a Tiago Mayan Gonçalves terá de ficar à frente de Vitorino Silva e conseguir melhor que a IL em 2019 para ter um resultado positivo.

Nas fasquias (não assumidas) dos candidatos, há três níveis para os seis candidatos apoiados pelos partidos com representação parlamentar: a derrota, o mínimo olímpico e a vitória épica. Vitorino Silva fica, para já, fora destas contas, mas pode causar mossa se não ficar em último.

Não há sondagem que não dê a Marcelo Rebelo de Sousa mais de 60% das intenções de voto dos portugueses, muito acima do que conseguiu em 2016, quando teve 52% dos votos. Mas longe daquele que é um sonho para o Presidente dos afetos — a expressão incontornável no seu primeiro mandato com beijos e selfies distribuídos aos pares — que gostaria de ver a popularidade dos últimos cinco anos transformada em votos.

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Diz que tem “vários defeitos” mas não é “burro ou louco” quando lhe perguntam se quer chegar aos calcanhares eleitorais de Mário Soares, quando em 1991 o antigo Presidente se recandidatou e conseguiu 70,35% dos votos, o melhor resultado de sempre numas Presidenciais. “É irrepetível”, defende-se já Marcelo antes que lhe colem a fasquia. Argumentou que o socialista teve então o apoio do PSD, mas não refere que parte do PS está consigo, incluindo o primeiro-ministro o líder socialista que não quis apoiar a candidata que é militante do seu partido, Ana Gomes. Marcelo trabalhou para uma onda de popularidade nos últimos cinco anos, mas receia que ela não renda votos numa época em que a abstenção é brutal (48,6% em 2016, comparada com 37,84% em 1991), previsivelmente agravada pela pandemia.

Mas se esse é um patamar que afasta publicamente, também sabe que tem de ficar bem acima dos 52% de 2016, para provar que os portugueses entenderam o seu primeiro mandato e o veem como o “estabilizador”, a figura presidencial que tem jurado cumprir num segundo mandato. Os tempos são delicados e de alta sensibilidade social e Marcelo sabe que joga aqui o poder de influência efetivo que terá nos próximos anos. Até 2026 terá seguramente de decidir-se pela nomeação de um primeiro-ministro (pelo menos em 2023) e isto num momento em que o espectro político se dividiu de forma significativa e os acordos e negociações fazem parte dos dias. Ou até ter uma voz forte no cenário de uma crise política. Um pesadelo absoluto era que uma abstenção mais esmagadora ainda o obrigasse a correr numa segunda volta e, pior do que apanhar do outro lado Ana Gomes, confrontar-se com André Ventura.

Ana Gomes tem uma dupla função nesta campanha eleitoral: captar os votos dos eleitores descontentes com o poder instalado (e, com isso, impedir André Ventura de crescer) e multiplicar os votos à esquerda para retirar força ao candidato maioritário da direita, Marcelo Rebelo de Sousa. A grande vitória de Ana Gomes nestas eleições seria, por isso, forçar Marcelo a ir a uma segunda volta. Mas esse cenário está longe de ser realista — a avaliar pelas sondagens dos últimos meses.

Ana Gomes tem aparecido nas sondagens com uma percentagem a rondar os 11, 13 ou, na melhor das hipóteses, os 15% das intenções de voto. Na sondagem mais recente da Pitagórica, para o Observador e TVI, a ex-eurodeputada colhia 11,8% das intenções de voto, a par com André Ventura. Perante este cenário, o objetivo de Ana Gomes é descolar de Ventura o mais que puder e ficar em segundo lugar na corrida. Ficar à frente de Marisa Matias parece já um dado adquirido, mas ficar atrás de André Ventura é tudo o que não pode acontecer.

Há cinco anos, o candidato oficioso do PS, Sampaio da Nóvoa, teve uma votação expressiva de 22,8% dos votos, enquanto Maria de Belém, ex-presidente do PS, se ficou pelos 4,24%. Na altura, o PS não apoiou oficialmente nenhum dos dois, mas a máquina do partido esteve sempre na sombra de Sampaio da Nóvoa. Este ano o dilema não é bem o mesmo, já que o candidato oficioso de parte do PS é Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes é apoiada pela ala pedro-nunista do partido. Não correrá o risco de sofrer do mal de Maria de Belém, mas chegará para dar o impulso que a candidatura dita independente de Ana Gomes precisa? Talvez, mas a fasquia dos 22,8% pode ser demasiado alta. Em todo o caso, a diplomata de formação já ficava bem na fotografia se ficasse confortavelmente à frente de André Ventura. Forçar Marcelo a uma segunda volta era o sonho, mas pode estar muito longe da realidade.

André Ventura partiu para esta campanha com um objetivo assumido: ficar à frente de Ana Gomes. O líder do Chega disse várias vezes que se demitiria da presidência do partido caso não o conseguisse, ainda que esteja escrito nas estrelas que se voltará a recandidatar nesse cenário. Ventura assumiu, aliás, que Ana Gomes era mesmo a sua principal adversária nestas eleições e que faria tudo para derrotar o que ela representa. Resta saber como ficará a imagem do líder Chega, que fez sempre destas presidenciais um plebiscito à sua popularidade, se falhar a meta que impôs a si mesmo.

O mínimo olímpico seria, por isso, ficar à frente de Ana Gomes e, consequentemente, em segundo lugar — o que lhe daria muito provavelmente um resultado na casa dos dois dígitos. Apesar de todas as cautelas que importa ter sempre que se comparam eleições de naturezas diferentes, seria um feito extraordinário para um líder partidário que está na primeira liga desde 2019, que nas últimas legislativas teve ‘apenas’ 1,3% e que ‘só’ conseguiu 5% nas regionais açorianas. Internamente um resultado com esta ordem de grandeza significaria outra coisa: a marca Ventura é ainda muito maior do que a marca Chega; num partido que vive em permanente convulsão, a consolidação da imagem do chefe não é de somenos.

Ventura assumiu um outro objetivo, ainda que esse esteja, olhando para as sondagens, no plano do altamente improvável: forçar Marcelo Rebelo de Sousa a ir a uma segunda volta. Seria uma vitória em toda a linha para o líder do Chega, sobretudo depois de dois debates menos conseguidos com Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa.

Ficar atrás de João Ferreira seria uma derrota para Marisa Matias. A candidata a Belém conseguiu um resultado histórico há cinco anos, ao ficar em terceiro lugar e ao ter conseguido ser a mulher mais votada de sempre em presidenciais. A situação é hoje bem diferente – com uma luta pelo segundo lugar ao rubro e com vários candidatos à esquerda com um alvo bem definido – mas ficar em último lugar neste eixo do espectro político (depois de Ana Gomes e João Ferreira) seria um dos piores resultados possíveis para a eurodeputada do Bloco de Esquerda. Certo é que, principalmente depois do início dos debates, João Ferreira tem vindo a subir nas sondagens e já chegou a aparecer à frente de Marisa Matias.

Já o mínimo olímpico seria alcançar o resultado de há cinco anos. É inevitável fazer comparações e a meta dos 10% que conseguiu nas últimas eleições – apesar das circunstâncias e adversários serem outros – será sempre um alvo a atingir. Se ficar à frente de João Ferreira é, por si só, um bom ponto de partida, a candidatura da bloquista nunca apontou para baixo nas expectativas e já por várias vezes lembrou que as sondagens de há cinco anos também a deixavam bem longe do resultado que alcançou.

Quanto a um vitória épica, esta passaria por sre a melhor da esquerda e derrotar André Ventura. A junção deste dois fatores era um cenário de sonho, mas nem era preciso tanto. Ficar à frente de Ana Gomes (signifique isso um segundo ou terceiro lugar) ou conseguir ter mais votos do que André Ventura representaria, em ambos os casos, uma grande vitória para Marisa Matias. Mesmo que a eurodeputada do Bloco de Esquerda não conseguisse o segundo lugar, mas fosse a terceira mais votada, logo depois de Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes, esse resultado refletiria, mais do que uma vitória pessoal, uma grande vitória da esquerda.

Candidatura apoiada, naturalmente, pelos comunistas é “necessária, indispensável e insubstituível”. Ainda que João Ferreira recuse sempre responder a questões sobre sondagens ou metas eleitorais é possível traçar alguns cenários. De Edgar Silva à “vitória à esquerda” João Ferreira não é propriamente um desconhecido militante comunista que se possa dar ao luxo de ter uma votação inexpressiva.

Em 2016 Edgar Silva teve o pior resultado eleitoral de sempre do PCP. O padre comunista conquistou apenas 3,95% dos votos dos eleitores que se deslocaram às urnas na eleição que haveria de colocar Marcelo Rebelo de Sousa na condição de Presidente da República. Para João Ferreira, eurodeputado do PCP, vereador na Câmara Municipal de Lisboa e um dos homens fortes dos comunistas — muito experimentado em lutas eleitorais — ficar atrás, igualar ou exceder por pouco o resultado de Edgar Silva não será suficiente para que se considere um resultado razoável. Os 183.009 votos e os 3,94% que conseguiu Edgar Silva seriam mau resultado para João Ferreira que é apontado como um dos possíveis sucessores de Jerónimo de Sousa.

Conquistar um resultado que lhe permitisse ficar à frente da candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, já seria um bom resultado para o PCP. Com a maioria das sondagens a dar uma vitória clara de Marcelo Rebelo de Sousa e o segundo lugar a ser disputado entre André Ventura e Ana Gomes poderá sobrar a João Ferreira a luta pelo quarto lugar com Marisa Matias.

E por falar em esquerda, caso João Ferreira fosse candidato mais votado nessa área política (à frente de Ana Gomes e Marisa Matias) seria “A” vitória para os comunistas. Com uma candidatura que é para “ir até ao fim”, sem sinais de poder abdicar em prol de outro candidato e um vencedor atribuído à partida, resta aos comunistas sonhar com o melhor resultado entre os candidatos de esquerda ainda que as sondagens o coloquem, para já, na pior posição entre estes.

O candidato da Iniciativa Liberal partiu para estas presidenciais como o candidato com menos notoriedade dos sete. De longe. A prestação nos debates (em particular com André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa) surpreendeu adversários políticos e analistas. Será suficiente para convencer eleitores a votar nele? Os debates mobilizam e fidelizam? É uma questão a acompanhar.

O pior que poderia acontecer a Tiago Mayan Gonçalves seria ficar atrás de Vitorino Silva, que disputa um campeonato diferente de todos os outros. Há cinco anos, Tino de Rans, com 152 mil votos, quase surpreendia o candidato do PCP, Edgar Silva, e Maria de Belém. O efeito novidade desapareceu, mas, para um candidato como Mayan, que parte de uma base muito curta, ficar atrás de Vitorino não é de todo um cenário impossível.

Ter um resultado em linha ou até superior ao que teve a Iniciativa Liberal nas legislativas de 2019 (1,3%) seria sempre um bom resultado e ajudava a consolidar a imagem de um partido que, não dependendo das suas figuras mais mediáticas, consegue manter uma bolsa de votos constante e até chegar a mais eleitores.

E se… for possível ficar à frente de um dos candidatos de esquerda, nomeadamente de Marisa Matias? Não é, atendendo às sondagens, um cenário provável. Mas a candidata bloquista parece em queda e esteve aquém das expectativas durante os debates. Não é impossível a Mayan Gonçalves fazer um brilharete. A ver.