Este título é de um gráfico da McKinsey & Co.: um simples e poderoso gráfico (% de penetração do e-commerce em 90 dias de “confinamento” face aos 10 últimos anos). E uso o título, não o conteúdo, para dar expressão a três dimensões que também se transformaram, crescendo, ou decrescendo, em 90 dias o mesmo que em dez anos (se não mais).

1 Proteção e saúde própria. Não, não investimos em saúde em 90 dias o que não se investiu em 10 anos. Mas ganhámos uma sensibilidade a uma série de práticas, e aplicámo-las, que faziam parte da consciência de poucos, mas que se tornaram do conhecimento de muitos: educámos a população no geral, melhor ou pior, para os perigos virológicos, para os cuidados a ter nas relações com terceiros, para a necessidade de fazermos gestos tão simples como espirrar para o braço fechado, ou lavar as mãos com frequência. Aqui, aprendemos em 90 dias o que levaria 10 anos a ensinar e a interiorizar.

Ao contrário, aprendemos também em 90 dias coisas deploráveis: a olhar desconfiados para quem está à nossa frente, a afastarmo-nos dos outros, a escrutinarmos pessoas que não fazem mais do que passear na rua, ou cruzar-se connosco. Perdeu-se um mundo de toques e sensações em 90 dias, perdeu-se um mundo de sorrisos, tapados, ou não, por máscaras. Isto levaria muitos anos, se por recurso a uma aprendizagem normal, a entender, apreender e interiorizar.

2 Economia. Em 90 dias ganhámos em muitas empresas habilidade para trabalharmos de forma remota, para nos reunirmos por via virtual, para darmos continuidade às nossas operações em termos digitais. Muitas empresas e organizações conseguiram fazer uma viagem em 90 dias, que estaria reservada, no mínimo, para um esforço de aprendizagem, interiorização e aplicação a 10 anos. Ou seja, em termos digitais, ganhámos em 90 dias o que iríamos ganhar nos próximos 10 anos.

Ao contrário, perdemos, e talvez percamos mais nos próximos tempos, o que ganhámos em termos de riqueza nos últimos 10 anos. Se não, ainda mais drástico, teremos voltado, em termos de quebra económica, aos anos de 2008-2009, i.e., ao período imediatamente anterior à crise financeira. Pode não ser ainda sentida por muitos, e para variadas empresas que se adaptaram à crise e dela felizmente beneficiaram – empresas Covid –, mas, muitos há, infelizmente mesmo muitos, que sentem esta crise de forma absolutamente pungente, com perda de disponibilidade financeira e capacidade aquisitiva.

3 Finalmente, não esgotando outras possíveis, a dimensão turismo-habitação onde, e após 90 dias, fizemos um caminho de, pelo menos, 10 anos em educação quanto a férias e a formas de viver. Primeiro, porque decididamente os portugueses estão a fazer férias dentro de portas e estão a explorar Portugal. O “vá para fora cá dentro” nunca foi tão expressivo. E em 90 dias virámos, de forma inexorável, a maneira como tratávamos o interior. Depois, a forma como se tornaram atrativas moradias com jardim e, ou pequenos espaços livres ganhou uma dimensão sem precedentes. Vale qualquer terraço, qualquer pátio, qualquer logradouro que deixe olhar o céu sem ter de tirar a cabeça da janela e, adicionalmente, onde se tenham umas plantas, se possa passar uma tarde ou se faça ginástica. Enfim, onde se respire.

Ao contrário, perdemos em 90 dias aquilo que seria difícil perder em 10 anos se tivéssemos, assumidamente, praticado más políticas de turismo. O nível muito residual a que chegámos em termos de captação de estrangeiros metamorfoseou muitos dos locais de Portugal em áreas que parecem, no limite, desamparadas.

Para terminar, de forma positiva, deixo a pergunta (e a resposta) que fiz (e obtive) no fim-de-semana passado à dona de um café num dos locais mais interiores de Portugal: “Então, Bé, como estamos de negócio?” E com uma pronúncia viticastrense inigualável obtive como resposta: “Xiii, a modes queste ano os portugueses nã me largam; cum este calor é uma cansera.” Jamais em 10 anos aquele café assistiria a um tão grande afluxo de portugueses, se não tivesse ocorrido esta pandemia. Foram apenas necessários 90 dias para tudo mudar.