Devo começar esta crónica esclarecendo que temo pela saúde do meu computador (já de si uma fraca máquina, que eu acredito em poupar dinheiro nas tecnologias para gastar em sapatos e maquilhagem – e livros e viagens, acrescento só para os sexistas de serviço não virem a correr chamar-me fútil) se volto a ouvir ou a ler, a propósito da interminável novela grega, que ‘a Europa está dominada por contabilistas’ ou ‘as pessoas são mais importantes que os bancos’. (E uma pergunta de passagem: saberão que os bancos é onde está guardado o dinheiro das pessoas?)

Por várias ordens de razões. Uma. Não respeito a falta de originalidade. Duas. Repudio a ignorância. Três. Não aprecio líricos moralistas, sempre prontos a darem sentenças sobranceiras sobre o que os outros devem fazer com o seu dinheiro e a mostrar tão publicamente quanto possível como são pessoas de coração mais benévolo que os bárbaros materialistas que contam tostões da dívida grega (vejam bem que a discórdia entre gregos e eurogrupo era ‘só’ – li eu por aí – 0,01% do PIB europeu, que ninharia).

Bom, eu não sou contabilista, nunca achei piada a Contabilidade, mas sou liberal. Donde: muito ciosa da minha liberdade de gastar o meu dinheiro como bem entendo. Tenho o bom hábito de ficar ofendida sempre que encontro as almas anticontabilistas ‘o que conta são as pessoas não os números’ que querem fazer boas ações com o meu dinheiro (ou com o dos alemães). O dinheiro é como as barrigas: é meu, faço o que quero. Não sou política, não tenho de dar estas satisfações, entretenham-se com a vossa vida sff.

E, reconheço, fico à beira da apoplexia com a beatífica repugnância à ditadura que os malévolos fenómenos económicos estendem sobre a virtuosíssima política. (Vinda de boas almas para quem o imperdoável desperdício grego nunca existiu – não estavam contratados cinquenta motoristas para o mesmo carro de um ministério, nem se encerrou só em 2014 um instituto público que visava a conservação do Lago Kopais que foi drenado em 1931; só houve aleivosia dos credores contabilistas.)

Corram a buscar água com açúcar: em lado nenhum do mundo e em momento nenhum da história sucedeu qualquer melhoria do nível de vida e do bem estar das populações que não fosse sustentado pela riqueza conseguida com a produção económica. Não são as palavras melosas dos governantes ou a bondade dos governados que criam a partir do ar os bens e serviços necessários à população – é a economia. Não são as boas intenções dos políticos que sustentam o estado social – é a produção dos indivíduos e das empresas que gera tais recursos. (Não, não estou a dizer que a política se esgota na economia.)

Tomem precauções para não desfalecer: o próprio conceito de Estado só surgiu quando o desenvolvimento económico permitiu. No início das comunidades que se transformaram nas civilizações do Vale do Indo, do Egipto, de Creta, de Micenas e da Mesopotâmia, os Estados nasceram quando a agricultura estava tão desenvolvida que já permitia a produção de excedentes agrícolas que podiam ser usados para pagamento de impostos.

E então a Europa atual que, ai Jesus, está transformada numa zona de credores e devedores, em vez de uma união das nações, da solidariedade entre estados, tudo a pairar etereamente acima das vis preocupações dos tostões das dívidas, ao som da nona sinfonia de Beethoven e do bardo Manuel Alegre a clamar contra a ‘humilhação’ da Grécia?

Meus caros, a culpa de a Europa se ter transformado neste espaço tenso em que se discutem pagamentos e resgates está toda com os políticos e a sua imaginação hiperativa, não com os economistas e menos ainda com os ‘contabilistas’. O projeto de união dos países europeus queria alcançar o mais nobre dos objetivos – a manutenção da paz – com uma ideia simples: estimular o comércio livre, criar uma zona de liberdade de circulação de pessoas, mercadorias e capitais e ainda reforçar a coesão entre países com a transferência de fundos dos mais ricos para os mais pobres (que, assim, teriam maior rendimento para comprar os produtos dos ricos). Tudo porque, como uma vez disse Toby Ziegler (da série televisiva West Wing, que os políticos de esquerda ficcionais são mais sensatos do que os reais), ‘o comércio para as guerras’.

Mas isto – que já era tanto e tão louvável – não foi suficiente para a megalomania dos políticos (dos prenhes de solidariedade, que supõem que a realidade não se atreve a contrariar as suas exuberantes criações políticas). Construíram uma estrutura burocrática gigantesca e pouco democrática – a nossa adorada UE – para se dedicar a coisas fulcrais à vida moderna como regular a capacidade dos autoclismos. E como isto também não foi suficiente, vá de inventarem uma moeda única para economias com estruturas económicas em que qualquer semelhança é coincidência, com entendimentos sobre a democracia a colidirem e contendo países (Portugal incluído) onde as cabeças políticas são impermeáveis ao conceito de ‘contenção orçamental’. Tinha tudo para correr mal – e correu.

Dos políticos só se espera que tratem de blindar (o que resta) da ação de políticos celerados como Tsipras e Cia. Mas às boas almas antitostões e anticontabilistas, deixo uma dica sobre democracia: o governo grego não tem qualquer mandato para decidir sobre os meus impostos. Se não entendem isto, aconselham-se retiros no Tibete. Pelo menos talvez aprendam a não moralizar sobre as escolhas alheias.