Hoje tinha um ótimo tema para a minha crónica: a assessora de Ada Colau, presidente de câmara de Barcelona, que se fez fotografar a urinar no meio de uma avenida de Múrcia. A senhora – proveniente da inevitável extrema-esquerda que tem assolado as costas mediterrânicas nos últimos anos – é uma ‘ativista pós-porno’ (se o caro leitor não souber o que é, é melhor googlar porque também não faço ideia). Pretendia eu ilustrar como a nossa queriducha extrema-esquerda pós-isto-e-aquilo é afinal tão tradicionalista. Porque, como comentava no Facebook um blogger conhecido da nossa praça, a sua avó fazia o mesmo (urinar na rua) no tempo em que pastava cabras.

Mas como a extrema-esquerda tem para comigo cuidados intermináveis e nunca cessa de me dar temas para crónicas, pude cingir-me ao material pátrio.

(Extrema-esquerda, é conveniente definir, presentemente engloba boa parte do PS. Nos últimos dias tivemos o porta-voz do PS e conselheiro dileto de António Costa, Porfírio Silva, alinhando-se com a extrema-esquerda holandesa na crítica ao social-democrata Dijsselbloem. E Tiago Barbosa Ribeiro, líder da concelhia do Porto do PS, mimou ainda mais o presidente do Eurogrupo: chamou-lhe ‘direitista’ – eu tive de confirmar se estava a ler sobre as purgas maoistas ou o twitter português. E a seguir postou um comentário de Zizek – filósofo marxista com palavras brandas para o uso de violência – sobre a novela grega.)

Bom, mas a extrema-esquerda (ver definição acima) tornou-se irremediavelmente tradicionalista (como a incontinente de Múrcia). Por estes dias não fez mais do que apelar a que praticássemos a caridade com a Grécia. É certo que lhe chamaram solidariedade – a palavra marxista utilizada para substituir caridade cristã – mas não há dúvida de que era à caridade que apelavam. A saber: perdoar a dívida que a Grécia tem para com os contribuintes portugueses (4,8 mil milhões de euros, ou mais de quatro anos de sobretaxa de IRS) e doar-lhes ainda mais uns milhões. E sim, doar é a palavra, porque o Syriza facilmente encontraria forma de dizer que a nova dívida também era insustentável e impagável e que os credores – os contribuintes portugueses – são uns terroristas se insistirem no pagamento. Caridade pura e dura, como se vê.

E esta pregação da esquerda, em alguns casos ambicionando ser um sermão de Vieira em versão pechisbeque, surpreendeu-me, reconheço. Porque até aqui reservavam os maiores insultos para as pessoas que praticavam a caridade (mesmo que discretamente, como deve ser).

O manual era o seguinte. Pessoa que dedica o seu tempo a uma instituição de caridade, que faz voluntariado numa qualquer organização que ajude os mais necessitados, que tem a desfaçatez de dar parte do seu dinheiro aos carenciados – péssimo cidadão, indivíduo que odeia os pobres, explorador das classes oprimidas, que pena a guilhotina já estar em desuso. Político que não dá um cêntimo nem a um arrumador (e quando dá gorjetas simpáticas no restaurante é show off), que cobra impostos desalmadamente (e arrasa a classe média e atira os mais pobres para o desemprego) com o argumento de que pretende justiça social e aumento das prestações sociais, que aproveita os impostos cobrados para criar organismos burocráticos que se enchem de boys partidários ganhando salários chorudos, que fornece só os despojos dos boys às tais das prestações sociais – pessoa boa e de coração puro, quase santo de altar.

Como vêm, a incitação à caridade para com a Grécia implica uma grande mudança nas crenças da esquerda. O problema é que, apesar de se clamar muito com a crise humanitária da Grécia, há crises humanitárias bem piores pelo mundo. Há muitos países bem mais pobres do que a Grécia a competir pelas doações europeias. Porque não deveremos acorrer aos que precisam ainda mais do que os gregos?

E para pobres como os gregos, temo-nos a nós. Não se entende porque diaboliza a extrema-esquerda (ver definição acima) quem faz caridade em Portugal, para a seguir pregar que se faça caridade à Grécia – que depois do ajustamento tem PIB per capita semelhante ao português – e insulta todos os que se recusam a tal caridade (mas, se calhar, teimam em praticar por cá).

Lá estou eu a ser picuinhas. A esquerda está acima de necessitar de coisas redundantes como lógica e coerência.

Mas há algo com muita piada neste súbito apego da extrema-esquerda pela caridade. É que esta necessidade de caridade à Grécia só existe enquanto a Grécia está na zona euro e sob pressão dos outros países. Quando a Grécia estiver bem mais pobre pela ação do Syriza (que neste cinco meses já mostrou a extensão do seu toque de Midas ao contrário, exterminando a incipiente recuperação económica e destruindo 600 postos de trabalho por dia), dentro de um ano ou dois, já não necessitará de caridade europeia coisíssima nenhuma. Aí será um oásis de prosperidade socialista.