A União Europeia dissolve-se numa fragmentação mental em que uns, os europeus do sul, alimentam a predisposição de acusar os outros de quebras de solidariedade. Esses outros, os europeus do norte, furtam-se a manter o dedo na ferida da fuga à autorresponsabilidade pelos que os recriminam. Sobram os europeus de leste cuja neutralidade na disputa é mais lucrativa do que virtuosa.

Dias de uma Europa de pernas para o ar por não ser a riqueza que gera uma ordem moral que, depois, garante a coesão socioeconómica, política, identitária. É o sempre contrário. Prosperidade e coesão coletivas são fruto de uma dada orientação moral precedente e persistente que atravessa décadas, gerações, séculos.

A Comunidade Económica Europeia, nascida do Tratado de Roma (1957), renovada em União Europeia pelo Tratado de Maastricht (1993) nunca se desviou da ambição originária de conciliar o inconciliável, autorresponsabilidade e solidariedade (corrompida em vitimização). Testada por mais de sete décadas, essa ambiguidade não fez da Europa uma comunidade moral, o momento a partir do qual existe um corpo moral comum capaz de transformar as inevitáveis discórdias internas em fontes de coesão e prosperidade que permitem enfrentar as mais variadas ameaças sem angústias sobre a sua razão de ser coletiva.

Tal maturidade existencial implica transitar do primarismo utópico da integração dos povos e Estados europeus pelo reequilíbrio de rendimentos económicos, independentemente de quem os produziu, para a observância do princípio da realidade. Este impõe a predisposição consciente também para a renúncia e o sacrifício a todos sem exceções, uma vez que a realidade nunca desfilia as vantagens dos riscos. E são as dificuldades que funcionam como momento da verdade de qualquer ordem moral, individual ou coletiva. Se alguns povos europeus ultrapassam com eficácia as provações sucessivas, a União Europeia enquanto tal não o tem conseguido. Acabará por ser a força da realidade, como sempre, a repor a autoridade moral da prosperidade, o que remete para o caixote do lixo da história as crenças marxistas.

Em teoria, não seria difícil revitalizar a integração europeia a partir de pilares sólidos, aqueles que resistem mesmo à crueldade suprema da guerra. A matriz judaico-cristã e a matriz filosófica, ambas milenares e transversais à história do continente, permitem ultrapassar a ambiguidade moral vigente e integrar, de modo permanente e bem-sucedido, todos os povos europeus pela partilha de um mesmo princípio existencial.

Na prática, a milenar herança civilizacional da Europa – apesar de única na sua densidade, riqueza, complexidade e dignidade – passou do desprezo à hostilidade ao ritmo da renovação das gerações nas últimas décadas. As responsabilidades vão por inteiro para as esquerdas políticas, culturais ou identitárias filiadas a uma génese moral e intelectual exógena ao Ocidente, num certo sentido extraeuropeia, sediada na antiga URSS (1917/1922-1991).

A realidade soviética limitou-se a exportar um modelo eficaz de dominação social produzido na maior fábrica mental da história de instabilidade e fragmentação social e política, abusos e violência do Estado e miséria económica sustentado na exploração do ideal de vitimização coletiva. Este tornou-se o princípio nuclear dos ideais de todas as esquerdas que, nas relações entre os povos europeus, se converteu na expressão dissimulada e polida de solidariedade europeia, mas que se exige que funcione num único sentido. A corrupção do significado do fenómeno reduziu-o ao saque permanente, com laivos de intimidação, dos periféricos sobre os prósperos, em linguagem chã dos pobres sobre ricos.

O choque do exógeno mental, de proveniência soviética, com a velha orientação mental endógena, esta derivada da autorresponsabilidade da moral judaico-cristã conjugada com a milenar tradição filosófica do ocidente europeu, foi cavando o fosso da inegável falta de coesão entre os europeus. É esse fosso que escuda os desmandos governativos de socialistas, comunistas e radicais de esquerda particularmente influentes nas sociedades europeias de um sul por isso mesmo cada vez mais periférico, mas que ainda assim preserva o substrato civilizacional da alma europeia ocidental capaz de reaproximá-lo das sociedades estabilizadas do norte e das renovadas do leste europeus.

Estando em causa um amplo processo histórico e social de integração de povos cuja ancestralidade tem o coração na Europa Ocidental, quanto mais a matriz mental exógena se afirma, isto é, quanto mais a esquerda cresce tanto mais a Europa se desintegra reinventando, a sul, o ocorrido, a leste, no tempo do domínio imperial soviético (1945-1991). O grande dilema moral europeu resume-se, desse modo, a tornar as opiniões públicas conscientes de que a primazia do ideal da Europa Solidária (suportado apenas por alguns) é incompatível com a primazia do ideal da Europa Autorresponsável (suportado por cada indivíduo, comunidade, povo ou Estado), uma vez que um e outro conduzem a processos de integração social e supranacional profundamente distintos.

Porque a Europa (ainda) não é uma comunidade moral, sempre que a realidade impõe as inevitáveis ameaças manifesta-se incapaz de responder com realismo, eficácia, sustentabilidade.

A primeira manifestação surgiu com a desorientação face à ameaça terrorista islâmica entrada em solo europeu em 2004-2005 que se mantém endémica. A partir de 2008 sobrepôs-se a crise financeira internacional que arrastou algumas dívidas soberanas cujo maior problema não foi a crise em si, antes algumas das sociedades atingidas terem recusado investir em esforços suplementares próprios de minimização das sequelas. A partir de 2015 tornaram-se óbvios os atropelos à soberania territorial europeia pela imigração ilegal ou crise dos refugiados. Com essa fragilidade acrescida, 2020 trouxe o vírus chinês que faz alastrar uma pandemia que desregula sociedades e economias.

Se pessoas e povos prosperam pela capacidade própria de enfrentarem os inescapáveis problemas a partir da sua força moral, sem esta permitem que os problemas se multipliquem e sobreponham sem lhes darem respostas. Essa bola de neve faz da Europa caso único no mundo ocidental se incluirmos o Canadá, Estados Unidos da América, Austrália ou Nova Zelândia e não-ocidentais do primeiro mundo, como o Japão e Israel, até com outro enquadramento, como o Brasil.

Os que odeiam, cobiçam ou simplesmente desrespeitam o Ocidente identificaram na Europa o único alvo frágil do mundo desenvolvido. Para aí passaram a convergir agressões recorrentes por terra, mar e ar num tempo em que o restante Ocidente se vai saturando de dar cobertura ao lirismo multiculturalista e globalista infantil dos europeus.

O Brexit tornou o panorama ainda mais sombrio. As esquerdas vitimistas que subjugam as mentes através do controlo de universidades, imprensa e instituições europeias têm interditado ou envenenado a legitimidade dos espaços de debate, entre os europeus, para dirimirem temas sociais sensíveis, os filiados à confrontação de perspetivas sobre a ordem moral europeia, a mais sofisticada disputa das sociedades livres.

Entre esses temas destaca-se a possibilidade de se imporem pré-condições e limites à imigração extraeuropeia. Uma vez interditado, restou redirecionar a emergente panela de pressão social para um referendo sobre a permanência ou a saída da União Europeia de um dos Estados membros. A auscultação popular no Reino Unido, em 2016, foi muitíssimo importante, porém o seu conteúdo acabou por ser pobre e, sobretudo, fortemente prejudicial a uma ideia de Europa comum porque, além do desfecho, passou a modelar outras pressões desagregadoras. O fanatismo esquerdista que cerceia a liberdade aliado à cobardia dos que não ousam nem toleram a renovação da agenda política, e dos respetivos protagonistas, impõem custos demasiado pesados.

As sequelas da latência de uma guerra moral europeia, antecâmara de guerras civis e de guerras entre Estados – felizmente a história nunca se repete –, entretanto não param de se agravar como atestou um episódio recente, o dos norte-europeus dos Países Baixos (Holanda) deverem ser ainda mais solidários, e sem hesitações ou entraves, com a Espanha particularmente atingida pela pandemia do vírus chinês e, infere-se, com a Itália ou Portugal, países do sul da Europa, uma disputa apenas iniciada.

Considerando que uma imposição moral válida é determinada pela universalidade e unidade do género humano, admitindo ainda que a gravidade da atual crise torna hipoteticamente legítimo apagar da noite para o dia décadas de opções governativas irresponsáveis, seja no Sul da Europa seja em África, fica claro que irá persistir uma diferença de condições de vida – na saúde, alimentação, ensino, emprego, segurança, sanidade pública, habitação ou no bem-estar geral – muitíssimo maior entre Portugal e os seus países africanos irmãos do que entre Portugal e os Países Baixos. Logo, se se invoca a solidariedade financeira enquanto valor moral, aos Países Baixos compete ajudar muitíssimo mais países como a Guiné-Bissau, Moçambique ou Angola do que Portugal.

Não é por mero acaso que a União Europeia é de uma natureza bem distinta. Funciona enquanto projeto civilizacional comum potenciador da estabilidade política e social e da prosperidade económica dos povos europeus cujo enfoque remete para vantagens e obrigações recíprocas – morais, materiais, financeiras –, uma conjugação de iguais para se relacionarem entre adultos. Nessa comunidade, como noutras, jamais se pode colocar em causa a importância da solidariedade, mas esta nunca deve ser o núcleo-chave das relações entre povos e Estados distintos para não a corromper em instigadora do parasitismo moral coletivo.

Os valores morais que orientam as relações entre indivíduos e coletivos obedecem sempre a uma hierarquia aferida em função dos contextos. Acontece que em qualquer contexto o dever de solidariedade, mesmo quando óbvio, situa-se muitos furos abaixo do dever de autorresponsabilidade. Esta é permanente e generalizável no tempo e no espaço a todos os indivíduos e povos constituindo o primeiro e principal dever moral para consigo mesmos, enquanto aquela limita a sua validade a circunstâncias pontuais ou excecionais.

Viver da solidariedade dos outros, ainda que por vontade exclusiva do doador, transforma-se num grave atropelo à dignidade humana quando impede a maturidade dos beneficiários por travar o desenvolvimento da autorresponsabilidade destes. Foi essa subversão da moral que fez da bondade do Ocidente a causa do afundamento do terceiro-mundo pós-colonial, o mesmo princípio que se quer impor às relações entre a Europa do Norte e a Europa do Sul para desfazer a ambiguidade moral dessa relação.

Como notou Olavo de Carvalho, politizar e institucionalizar a solidariedade no Estado, e nas relações entre Estados, apenas comprova que as sociedades não se querem responsabilizar pela pobreza através da inserção do seu combate nos hábitos quotidianos dos indivíduos comuns, o antídoto eficaz contra a falsa indigência e contra a solidariedade castradora das obrigações morais dos indivíduos para consigo mesmos.

A coberto de uma falsa superioridade moral, as sociedades enclausuraram a pobreza na esfera do Estado, inversão civilizacional que fragilizou a coesão das comunidades desde a célula base, a família. Da solidariedade familiar hoje quase só restam os laços mais estritamente nucleares, de pais para filhos, pois até os ascendentes diretos, avôs e avós, acabam despejados em lares de idosos à custa do seu próprio sacrifício afetivo e material no final da vida.

São justamente os maiores instigadores dessas transformações históricas que mais cinicamente jogam as culpas num alegado individualismo egoísta do ‘neoliberalismo’ (o que é isso?!) que, em rigor, apenas reflete o narcisismo deles mesmos sem paralelo no mundo pré-influência soviética.

Não existe mistério em se ter tornado difícil sair da pobreza em contextos onde o fenómeno se tornou o maior sustento de uma máquina administrativa e burocrática estatal crescente fruto de vitórias eleitorais recorrentes de forças políticas defensoras do Estado omnipresente. Quer dizer que quanto mais a sociedade expulsa de si mesma a pobreza e enclausura-a no Estado, tanto mais aquela se torna endémica. Vale para o interior das sociedades e para as relações entre Estados.

A concluir, o princípio moral primordial que indivíduos, comunidades e povos devem partilhar é o da autorresponsabilidade pelo seu destino. É o que torna iguais os povos dos Países Baixos (Holanda), Portugal, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola e todos os demais. Daí que o rumo que garante a coesão da União Europeia, e dos povos europeus, é exatamente o mesmo que permite a coesão do mundo, um rumo orientado pela defesa intransigente da universalidade dos valores morais, a opção que mais e melhor garante a unidade e dignidade do género humano.

Acossado pela crise e dominado por instintos socialistas de vitimização que o fazem investir com modos boçais em sentido contrário à verdadeira fonte da miséria, o primeiro-ministro português, António Costa, reivindica ainda mais solidariedade europeia sabendo que nunca retribuirá. Agitação cabotina do novo rosto europeu do parasita moral, sanguessuga da maturidade moral alheia e alma gémea de tiranetes terceiro-mundistas como os venezuelanos ou zimbabueanos, e desta feita desgraça agravada das minorias étnico-raciais da Europa.

Suportando responsabilidades políticas alheias e em circunstâncias equiparáveis, que diferença moral em relação ao europeísmo e universalismo autorresponsáveis do seu antecessor, Pedro Passos Coelho, que nunca humilhou a dignidade portuguesa!